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quinta-feira, novembro 04, 2010

Flores no túmulo de Thoreau

Recebi essa crônica do professor, poeta e jornalista Sinésio Dioliveira e quero compartilhá-la, acompanhada das fotos feitas pelo próprio:


Flores no túmulo de Thoreau
Sinésio Dioliveira

"Estou convencido, pela fé e pela experiência, de que se manter sobre a terra não é uma aprovação, mas um passatempo, se vivermos de maneira simples e sábia". Henri David Thoreau


O poeta e escritor Henry David Thoreau está entre aqueles mortos que permanecem vivos tão logo que a vida, em seu gesto imperativo, exige de volta o corpo que ela empresta a todos os mortais para a travessia existencial, que pode ser, conforme consta na epígrafe desta crônica, uma "aprovação" ou um "passatempo". Por outro lado, existem também (e de modo abundante) aqueles mortos que assim o são sem que a vida lhes tire de cena. 

A causa desses dois fatos está, portanto, na alma de cada um. Enquanto aqueles possuem alma grande, a destes é pequena, menor que um grão de motarda. O fim físico (e óbvio) de todos é o mesmo, só que as palavras iluminadas de alguns fazem com que eles permaneçam vivos. E essas palavras muitas vezes representam alento à alma de muitos que se encontram vivos e de certa forma uma grande ajuda no sentido de que façam de sua existência um "passatempo". 



Thoreau me chegou primeiro em nome, isso num  texto que li sobre meio ambiente alguns anos atrás. No respectivo texto, Thoreau era apontado por seu verdadeiro envolvimento amoroso com a natureza já no século XIX. Posteriormente passei a conhecê-lo de maneira mais profunda. Essa nova fase de relação foi motivada pelo filme "Sociedade dos poetas mortos", dirigido por Peter Weir, tendo o ator Robin Willians vivendo o professor John Keating. 

Esse professor, em suas aulas de literatura, ministradas filosófica e poeticamente, ensinava a seus alunos uma educação voltada para a vida. E nessas aulas, John Keating citava Henry David Thoreau: "Fui para a floresta porque queria sugar a essência da vida! Eliminar tudo o que não era vida. E, não, ao morrer, descobrir que não vivi." Esta frase me levou ao mergulho no livro "Walden, uma vida na floresta".

Minha próxima refeição de leitura é outro livro de Thoreau: "A Desobediência Civil". Em tal livro, que serviu de influência a Mahatma Gandhi, Leon Tolstoi, Martin Luther King e outros muitos, consta algo interessante: "O governo é um artifício através do qual os homens conseguiriam de bom grado deixar em paz uns aos outros; e, como já foi dito, a sua conveniência máxima só ocorre quando os governados são minimamente molestados pelos seus governantes." As ideias libertárias de Thoreau ocasionaram a sua prisão. 

São citados também pelo professor Joln Keating o poeta americano Walt Whitman e o romano Horácio, da Roma Antiga. Este por sua expressão muito conhecida – carpie diem –, que faz parte do poema Odes e significa "colha o dia" ou "aproveite o momento". O professor recomendava aos alunos a confiarem o mínimo no amanhã e que tornassem seus dias extraordinários. 

Sou um tanto desobediente quanto à comemoração de datas, de modo que não tenho hábito de visitar cemitério no dia dedicado aos mortos. Só que, neste dia 2 de novembro, resolvi desobedecer a minha desobediência: aproveitei que estou Boston, na casa de minhas irmãs, gozando minhas férias sagradas, e fui à cidade de Concord, que fica a 30 quilômetros de Boston. Foi nesta cidade que Henry David Thoreau nasceu e morreu. 

Fui tomado de uma emoção maravilhosa ao ver aquele túmulo simples sobre o topo de pequeno morro e com algumas flores em sua homenagem: apenas uma pequena pedra sobre a terra e nela escrito o nome de Thoreau. Sobre seu túmulo e os de sua família havia grandes árvores, algumas com aquele colorido maravilhoso das folhas que o outono americano produz. Achei o local muito compatível para o descanso eterno de Thoreau, que viveu de maneira simples e sábia, o qual em "Walden" diz: 
“Um homem é rico na proporção do número de coisas das quais pode prescindir”.

* * *

Sinésio Dioliveira é jornalista, professor de português e fotógrafo (http://www.flickr.com/photos/sinesiodioliveira/oliveirasinesio@gmail.com - http://www.wikiaves.com.br/perfil_canarinho) 

6 comentários:

Vera Malfa (São Paulo, SP) disse...

Luiz

A crônica de hoje mais uma vez me levou a refletir sobre a vida e de como é importante aproveitarmos os momentos bons que ela nos oferece.
Sabemos que nossa passagem por aqui é curta mas quando uma pessoa querida vai embora a dor é muito grande.
Felizmente minha irmã foi uma pessoa "iluminada" e vai permanecer viva na memória de todos que conviveram com ela.
Faz quatro meses que ela partiu e minha dor aos poucos vai se acalmando, mas, pela pessoa maravilhosa que ela foi, vai estar sempre muito presente em minha vida.
Agradeço o apoio que você me deu na época em que pensávamos em procurar "João de Deus" mas ela já não tinha forças para enfrentar a viagem.

Obrigada por sua amizade!

Um beijo,
Vera

Sinésio Dioliveira disse...

Amigo Aquino, muito obrigado pela publicação de minha crônica e também pela divulgação das fotos. Visitar o túmulo de Thoreau foi algo muito importante para mim. Um abraço.

Mara Narciso disse...

Belo do começo ao fim: o homenageado, a mensagem e a forma. A iluminação dessas pessoas vão séculos além-túmulo. Vi o filme "Sociedade...", mas não tinha me atentado ao nome THOREAU. Parabéns também pelas fotos!

Edmar Oliveira disse...

Grande professor Sinésio Pássaro DiOliveira! Bela crônica, amigo. Você foi feliz ao dizer que as palavras de pessoas iluminadas permanecem vivas, mesmo após a morte física. Pássaro, palavra é alma, é energia, e energia não morre. Parabéns ao Aquino pela publicação da crônica do Bird Teacher.

denise disse...

que belo texto!

criei um blog chamado "lendo walden", com notas de leitura e pesquisas que fiz durante a tradução da obra.
se quiser visitá-lo, o endereço é http://lendowalden.blogspot.com

abraço
denise

Na janela disse...

Gosto de como o texto flui. Agradável leitura de conteúdo reflexivo.
Fico encantada com as possibilidades das palavras, pois vi este filme "A sociedade..." várias vezes, por deleite, entretanto, as citações do professor Joln Keating não me mobilizaram a ponto de buscar mais referências das ideias de Thoreau, como esta crônica o fez.

Parabéns ao Luiz de Aquino pelo cuidadoso Blog e
obrigada, Sinesio, por ter aberto mais uma porta.
Um grande abraço.
Marlene