Páginas

sábado, novembro 06, 2010

Senhora Presidente!

Senhora Presidente!



Ao contrário do que parece, não me dirijo, nestas linhas, à Presidente Dilma Rousseff; apenas transcrevo o que, para mim, vem a ser o vocativo correto, ou, mesmo, o tratamento que se deve dar à dignidade da mais alta mandatária do Brasil, tanto no que concerne ao respeito que lhe deve a Nação quanto ao respeito que a Nação deve à Língua Portuguesa. As maiúsculas aqui aplicadas referem-se também ao tratamento adequado.

Falando aos jovens, digo que rola por aí um som ruim e feio: presidenta. Em algum lugar no passado, e vão-se poucas décadas, a palavra presidente ganhou, tanto em português quanto em castelhano, o som destoante com uma desinência esdrúxula: presidenta.

Napoleão Mendes de Almeida, notável gramático brasileiro, em seu Dicionário de Questões Vernáculas, contesta a corrente que impôs a novidade:

 “São em português uniformes os adjetivos terminados em nte, como já no latim havia uma só terminação – ns – para o masculino e feminino dos adjetivos de segunda classe, por cujo paradigmas se declinavam os particípios presentes: prudente, amante, vidente, lente, ouvinte. Ninguém, pelo menos em português, diz hoje prudenta, amanta, videnta, lenta, ouvinta”.

Os defensores da excrescência alegam o apoio de alguns filólogos. Mas nenhum dos que aderiram à nova onda apresentaram sustentação técnica, pelo menos não no nível do que argumenta Napoleão. E alegam a prática. E chego mesmo a supor que, em breve, a fórmula correta só será respeitada pelos que, em graus variados, apreciam a língua culta. E a língua, em suas regras e técnicas, é definida em leis específicas acordadas entre os países que a exercem. Ou seja: o presidente de uma nação lusófona, bem como a presidente de alguma dessas nações que têm o português como língua oficial, são obrigados a respeitá-la, mesmo na linguagem coloquial (a linguagem coloquial não concede a ninguém o “direito” de falar ou escrever errado).

 “Presidenta”, eu tenho dito sempre, é uma “estrela” plantada na bandeira do feminismo gratuito – esse que entende que só por ser mulher a pessoa tem que ser assim ou assado, tem que cometer este ou aquele desatino etc. e tal (entre eles o de se fazer “presidenta”). A teimosia nesse sentido equivale à proposta das fogueiras de sutiãs nos anos de 1960 (fogueiras apenas propostas; não se tem notícia de alguma efetivamente realizada).

Há quem diga que feminismo é o movimento que propõe direitos iguais entre homens e mulheres; isso de impor-se a mulher sobre o homem não é feminismo – é femismo. De minha parte, concordo com o “minerim” da piada:

– Lá em Minas, metade é muié, metade é hômi e é bão dimais da conta, siô!

Entre os defensores da “nova forma”, há quem diga que “ambos os termos são corretos”(mas, insisto, não cita fundamento científico para que “presidenta” seja certo). Ainda que fossem, e havendo as duas formas, fico com a mais bonita: “Senhora Presidente”. Seria como escolher entre cotidiano e quotidiano, mas, neste caso, as duas palavras são corretas – presidenta, não.

Suponho, sim, que o termo acabe pegando. Brasileiro adora novidades e tende a aceitar coisas que, na cabeça do populacho, vira verdade. Como a “máxima” (recorrente a cada época de eleições) de que todo político rouba. Eu continuo na guarita dos que preferem que se imponha o certo. Aplique-se o mesmo quanto às palavras.

Na mesma semana em que o Brasil elegeu Dilma Rousseff sua presidente, a Organização das Nações Unidas divulgou pesquisa de avaliação do Índice de Desenvolvimento Humano; o resultado foi-nos favorável, mas ainda há muito a se fazer para que o Brasil se enquadre entre as nações de melhor IDH no mundo, e o entrave está justamente no processo de Educação.
Falar errado não nos ajuda.


* * *


Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor, membro da Academia Goiânia de Letras. Escreve aos domingos neste espaço.


14 comentários:

Osair de Sousa Manassan disse...

Tenho defendido essa mesma tese no Twitter, mesmo antes da eleição. Dói no ouvido quando escuto a presidenta. há, realmente, nessa questão, resquícios de um feminismo ultrapassado e careta. A presidente: concordo em número, gênero e grau.
Luiz, ampliei meu blogue, que agora chamo de blogsite, e há uma página somente para colaborações. Gostaria que, vez ou outra, você me deixasse republicar uma de suas crônicas. Pode ser?
Abraços e, mais uma vez, parabéns pelo excelente esclarecimento "à nação".

Romildo Guerrante disse...

Meu caro Luiz, muito oportuno seu comentário sobre essa bobagem que você identifica muito bem como ranço feminista, comum na militância do PT. Tenho ponderado com meus amigos que insistem njo uso de "presidenta" explicando-lhes que o fato de a palavra estar dicionarizada não indica que ela seja correta, o dicionário apenas constata o fato linguístico. E que nós, como você lembrou bem, temos a obrigação de respeitar a norma culta. Mas, aqui no Brasil, nem os publicitários respeitam a norma culta. Adotaram também, na campanha da Dilma, o espanholismo desvairado dos locutadores de futebol: "para seguir fazendo". Dia desses, ouvi uma bobagem: "O trânsito segue parado". Mas, voltando à "presidenta", recebi de um amigo o que ele diz ser o futuro da língua petista:
"A presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta. Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, não tem o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta."

Iracema disse...

Luiz, é claro que, no primeiro momento, pode-se relutar em aceitar a forma feminina. Mas, sem dúvida, já é hora de se abolir o estatuto de menoridade face aos homens com idêntica atividade. A mulher está assumindo posições novas na sociedade e no mesmo ritmo devemos ir promovendo a atualização em todos os sentidos e aceitando as mudanças.

A língua se faz pelo uso. Na medida em que o uso se consagra, a estranheza desaparece.

José Cunha Gonçalves disse...

Ilustre poeta e escritor LUIZ DE AQUINO:
Permita-me cumprimentá-lo pelo seu excelente artigo estampado neste domingo no DIÁRIO DA MANHÃ. Perfeito, completo sob todos os aspectos.
Acredito que se alguém pudesse ter dúvida quanto ao assunto, a partir de agora ela está sanada para sempre.
É bem verdade que alguns não concordam, como pude, inclusive, constatar na leitura de uma outra coluna também inserida hoje no jornal, quando o articulista escreve "Presidenta".
Já recortei o guardei o seu artigo justamente para mostrá-lo a quem precise de maiores e definitivos esclarecimentos. .
Receba os meus parabéns e o meu abraço. (José Cunha Gonçalves)

Thamyris Fernandes disse...

Luiz? BOm, já que é Luiz, vamos lá. Também acho é "A presidente" seja a melhor forma. Abraços.

Silvio Mello disse...

Concordo com vc, meu querido Poeta...!!
E vou torcer para que eu possa me orgulhar de ter o meu voto dedicado à nossa Senhora Presidente, a nossa querida Dilma..

Mariana Galizi disse...

Querido poeta, devo me curvar à mais uma análise tua.
Não creio que seja uma postura feminista esta: de embutir desinências nominais em expressões que não lhe cabem, mas sim a de instaurar uma micro-ditadura linguística, no tom solene de: "estou aqui e eu posso!".
O que ridiculariza um termo que soa bonito foneticamente e que é atribuído o gênero pelo artigo, não há o menor motivo em transformar mais uma expressão genuína por vaidade.

Ana Flávia Silva disse...

Na minha opinião a língua não está pautada em fundamento científico, mas sim, e simplesmente, no uso. Mesmo se essa palavra não existisse teríamos que inventá-la, pq agora temos a primeira mulher presidenta. No Houaiss (2010) temos "presidenta". O senhor não acha que, assim como poeta e poetisa, é apenas uma questão falocêntrica da nossa sociedade?
Abraços
Ana F.

Heliany Wyrta disse...

Luiz, gosto da forma como escreve. Posso até não concordar mas é tão bom lê-lo, que releio mil vezes até.

Rose Mendes disse...

Adorei a crônica da "Senhora Presidente". Concordo plenamente com cultuarmos a língua culta. Presidenta não vai melhorar o nível do país em nenhum sentido. E vamos e venhamos, foi-se o tempo em que precisávamos reafirmar o valor da mulher perante o homem. O que se precisa reafirmar é o valor do ser humano. Bjo.

Mara Narciso disse...

Essa queda de braço está divertida. Lembrei-me daquela brincadeira de criança em que se dizia "lé com lé, cré com cré". Sua argumentação está embasada na sonoridade e não podemos discordar que é mais bonito "Senhora Presidente". Não tenho lido a outra forma. Também acho que se algum dia foi certo, caiu em desuso e virou curiosidade. Em época de internet ninguém vai sair por aí tratando o outro de "vosmecê". Os tempos são outros.

Marley disse...

Presidenta - feminino de presidente s.f, 1. Mulher que preside. 2. Mulher de um presidente. Está lá, no Aurélio. A palavra existe, inclusive para nominar o que hoje chamamos de primeira-dama. O que incomoda não é o feminismo, é o machismo ou postura política. Presidenta (s.f) é a mesma coisa de doente. adolescente, elegante, paciente, sorridente (adjetivos). Para mim é indiferente se é presidente ou presidenta, do mesmo jeito que nunca entendi porque Papa tem feminino e porque mulheres se sentem menores quando são poetisas. Bem, teremos aí pelo menos quatro anos para nos acostumar com a presidenta.

Marley disse...

Corrigindo: pulei um "não" presidenta (S.F)) não é a mesma coisa que doente...(ADJETIVOS.

Ana Cristina disse...

Presidenta? Ora essa!
Quem aguenta?
A língua é sim mutável e a faz-fala, como se quer.
Porém por uma questão estética pressupõe-se correta.
Presidente, também pode ser mulher(ou mulhera?)

Ana Cristina