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sexta-feira, abril 30, 2010

A poesia e a AGL

A poesia e a AGL



Vem aí, em data a ser escolhida pelo presidente Hélio Moreira, duas eleições para novos membros da Academia Goiana de Letras. Alguns equívocos de um passado não distante trouxeram ao seio da Academia pessoas notáveis da sociedade goiana, expressões da vida pública e científica, juristas e outros notáveis. É bom tê-los entre nós, mas nota-se que a familiaridade fica prejudicada pelo distanciamento que esses têm para com o ofício literário em sua essência.

É com alegria que os temos no nosso meio, sim. É bom conviver com quem fez história e (ou) faz a diferença. Contudo, é um tanto incômodo, para as duas partes, quando se trata do “modus faciendi” das letras e os temas ou as técnicas são postas diante de leigos. É como ouvi-los falar de termos gregos ou jurídicos ante a nossa sempre curiosidade. A diferença está em que os escribas de ofício familiarizam-se facilmente com as palavras, sejam elas gírias ou calões, enquanto os técnicos embaraçam-se no entendimento dos conceitos literários.

Existem, pois, duas vagas, que são disputadas, a primeira delas, por Iúri Rincón Godinho e Edival Lourenço – o primeiro, autor de vários livros e editor feliz por assinar, nesta condição, mais de 200 títulos; o segundo, atual presidente da União Brasileira de Escritores, ficcionista talentoso. Ou seja, ambos dignos de integrar o mais elevado dos sodalícios literários do Estado. Já me manifestei, desde outro pleito, em favor de Iúri e, obviamente, torço por sua vitória. Se acertar, comprometo-me antecipadamente com o voto em favor de Edival noutro escrutínio.

A outra vaga (ambas as vagas eram ocupadas por poetas, respectivamente Helvécio Goulart e A. G. Ramos Jubé) tem como candidato, até agora, o poeta Gabriel Nascente. Em sã consciência, aconselho qualquer pretendente a não disputar com o poetinha de “Um balde cheio de flores pra Manuela não chorar”. É que “Gabriel, o menino gato” (a expressão entre aspas foi título de um artigo-crônica que escrevi num dos aniversários de nascimento e literário do poetinha, há uns vinte anos)... Eu dizia, Gabriel já deveria estar investido da imortalidade goiana há muito tempo! Aos sessenta anos de idade, ele conta quarenta e quatro anos de estreia em livro e de prática poética ininterrupta, juntando publicações aqui, em todo o País, pela América afora e até mesmo no Velho Mundo. Gabriel é mais um orgulho das nossas letras e não pode mais ficar fora desse fechado clube de letras que é a AGL.

Expresso, assim, meus votos em público, como tem sido do meu feitio desde quando fui aceito entre os que temos na conta de “a nata” dos escribas da nossa terra. E estejam todos muito bem certos de que não falseio meu propósito, ou seria um pusilânime, como seria do gosto dos que aguardam qualquer falha minha para afiar suas línguas. A esses, a saliva ejetada é pouco.

Maria Helena Chein e eu

Voltando ao patamar nobre do ofício das letras, exalto aqui dois esboços de poemas da lavra de uma acadêmica de Letras da Paulicéia. Refiro-me a Mariana de Ramos Galizi, que aqui esteve por quatro dias, na semana passada, buscando rastros de Bernardo Élis para seu trabalho de conclusão de curso. Ela foi carinhosamente recebida por nós, ou seja, por José Fernandes, Leda Selma (foto ao lado), Maria Helena Chein, Maria Luiza Carvalho e Patrícia Chanely (estas duas, do grupo Várias Marias e um Poeta), pelos cantores André Lopes e Regina Jardim, a Ludmila e o ativista cultural Luiz Antônio Godinho (em Pirenópolis). O primeiro poema evoca a viagem e faz trocadilho com o antigo topônimo Meia-Ponte:


A palavra é a ponte, meio-inteira do Rosário,

ponte-áerea, Congonhas- Santa Genoveva,

pontes que nos mostram fontes e montes,

de carinhos, poesias e lembranças,

trazem estupefação e amor

como se os transeuntes fossem de outrora

e já assim o soubessem.

Algo de fraterno,

mágico e eterno,

mostras do atemporal auxílio moderno,

união de pontes e pontos pela palavra,

pela concepção,

busca e admiração do belo.


O outro alude a um belíssimo exemplar de lobo-guará, atropelado por algum veículo veloz na rodovia:


Vi um guará estatelado,

bem no meio do que divisa

a bela vista do cerrado.

Contraí por dentro um gemido

pelo assassínio desavisado

pela bela selvagem vida

arrancada sem querer

mas brutalmente

de quem atravessou pro lado errado.


Meu carinho aos três escribas que se propõem a integrar nossa Academia! E o mesmo à Mariana, com um beijo especial e de curta duração (é o meu modo de lhe pedir que volte logo).


Luiz de Aquino é escritor de verso e prosa, membro da Academia Goiana de Letras. E-mai: poetaluizdeaquino@gmail.com Eu e Mariana

sexta-feira, abril 23, 2010

Dia Internacional do Livro

Dia Internacional do Livro




Um amigo querido, e por ser muito querido omito-lhe o nome, indicou-me a um famoso bom-de-bola para que eu escrevesse sua biografia. Informou-me da escolha e quis saber da minha disposição para a tarefa. Horas depois, ligou-me um homem de nome estranho, e esse nome, na pronúncia de alguns parecia-me começar com a vogal U pronunciada duas vezes. Foi quando me dei conta de que a letra U, efetivamente, comporta mais de um som, como as demais.

Marcou-se uma reunião e só não estranhei a escolha do local porque sou repórter, e repórter aceita reunir-se em qualquer lugar. E até mesmo de pé, como se deu, no pátio frontal da sede de um clube de futebol de Goiânia. Levei comigo uma pasta com livros da minha lavra (imaginei que alguém se interessaria em conhecer meu texto). Mostrei-lhes dois de poemas e um de contos, todos diferentes entre si no que concerne a tamanhos e cores.

Os livros passearam de um para outro, quatro pessoas além de mim, entre elas o possível biografado. Mas, e esse detalhe é muito importante, ninguém teve a curiosidade ou a iniciativa de olhar dentro. Ninguém quis saber se, naquelas folhas, haveria algum desenho ou fotografia. Apenas conferiam as capas. Outro detalhe importantíssimo: eu deveria trabalhar às minhas expensas para, ao final, ser gratificado com a parcela oficial de direitos autorais por exemplar vendido. Venderiam cem mil exemplares, diziam eles. O projeto morreu meses depois, porque a “equipe” do jogador não aceitou a hipótese de que, para se trabalhar, seriam necessários equipamentos, viagens e tempo, além do trabalho do autor, e tudo isso custa dinheiro. Assim, calei-me num dado momento e desde aquele instante nunca mais eu soube do meu frustrado biografado. Nem mesmo por notícias de jornais, seja nas páginas de esporte ou nas de política.

Fazer um livro. Fazer um filme. A história audiovisual do pai dos cantores sertanejos foi um estouro! Nessa esteira tentou-se algo parecido com a vida do presidente Lula da Silva. O atleta em questão também gostaria de ver seu nome em letras luminosas, mas nunca acreditei nessa meta – afinal, outros bons-de-bola nacionais, desde a década de 1950, fizeram muito mais e não tiveram tamanha repercussão, ainda que também carismáticos.

Livro.

A palavra tem sua magia. Livro é algo tão importante que devia ser escrito feito nome próprio, sempre em maiúscula. O que seria de tantos de nós, o que seria da totalidade do mundo intelectual, desde a ficção literária até a mais exata das ciências, sem o concurso eterno dos compêndios? Como viver com qualidade sem o auxílio da leitura lúdica? E a praticidade do objeto? Tamanho, forma... Livro tem uma versatilidade que lhe dá toda a mobilidade para nos atender em qualquer circunstância: em casa, numa cadeira ou na confortável poltrona; nas carteiras escolares; na condução – ônibus, barco, trem, carro da família, avião... – e ainda nas filas, nas salas de espera, nos cultos, nas férias, no trabalho e onde mais que se imaginar.

Síntese: a vida tem muito maior e melhor qualidade quando construída com o auxílio do Livro (pronto, escrevi com maiúscula no meio da frase!). Livros técnicos e didáticos dão-nos conhecimentos para o trabalho e a vida; Livros lúdicos conduzem-nos aos sonhos e a uma elevada condição intelectual, moral e espiritual.

Por coisas assim e por muito mais, a UNESCO instituiu, em 1996, o dia 23 de Abril, data em que faleceram Shakespeare e Cervantes, como o Dia Internacional do Livro, data que já era festejada com toda reverência na Espanha. No Rio de Janeiro, o dia é feriado consagrado a São Jorge, que é uma espécie de padroeiro popular da cidade e, por isso, sem que ninguém consiga me explicar, respeitado até pelos crentes protestantes, que não costumam reverenciar santos católicos (não o festejam, mas curtem o feriado).

E é neste dia também que meu irmão Edmar de Aquino Alves faz aniversário, sempre acendendo uma vela ao pé da estátua do Santo Guerreiro, presente que lhe deu no batizado nossa saudosa Tia Wanda, sua madrinha.

Beijos, meu irmão! Presenteio-o com dois novos livros meus e invejo-o por ter nascido justo nesta data!




Luiz de Aquino é escritor de prosa e verso, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

sábado, abril 17, 2010

Tempo de ronqueira e banda-de-couro



Tempo de ronqueira e banda-de-couro






Manhã de sexta-feira, dia 16 de abril. Dia memorável, para mim, e contarei, já-já, o motivo (claro, todos sabem que, se o jornal circula no domingo, nossos textos são elaborados com antecedência). Em 16 de abril de 1994, sob a iniciativa de Maria Eunice de Pina e José Sizenando Jaime, fundava-se a Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música. E, enquanto festejávamos o feito, no restaurante da Quinta Santa Bárbara, morria em Goiânia o professor, jornalista e escritor Anatole Ramos.


A esses dois motivos de emoções díspares, somo agora um outro, novíssimo: A Festa do Divino Espírito Santo, em Pirenópolis, com suas inseparáveis Cavalhadas, são, oficialmente, desde a tarde deste 15 de abril, Patrimônio Cultural Imaterial. Abro mão das notícias de jornais e tevês, passo-lhes, aqui, o que informa um carioca amante de Pirenópolis, Felipe Berocan:

“Prezados amigos de Pirenópolis, foi com grande alegria que estive hoje no Palácio Capanema, no Centro do Rio de Janeiro, assistindo à histórica aprovação da Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo IPHAN - Ministério da Cultura, (ao lado de) Prefeito de Pirenópolis Nivaldo Mello, o Secretário de Cultura Gedson Oliveira, a coordenadora do IPHAN em Goiás Salma Saadi, a historiadora Ana Claudia Lima e Alves, responsável pelo parecer técnico do IPHAN, o geólogo Tadeu Veiga. Segue o link com essa excelente notícia! http://portal.iphan.gov.br/portal/montarDetalheConteudo.do?id=15055&sigla=Noticia&retorno=detalheNoticia”.



Confesso: senti uma breve dor-de-cotovelo. Gostaria muito de estar lá, também, ouvindo a notícia de viva voz. Certamente, esta crônica seria mais emocionada. Mas, enfim, satisfaçam-se, queridos leitores, com as minhas limitações. Sei apenas que, desde o momento em que vi a entrevista de Salma Saddi na televisão, na última quarta-feira, falando da expectativa e do otimismo na espera, voltei-me aos velhos papéis que ainda me restam e aos arquivos de computador, curtindo fotografias que, por si, valem mais que essa hora e meia de voo até o Rio de Janeiro. É que, indo lá, faço a viagem no espaço; vendo fotos, faço-a no tempo. E estes dias são para viajar no tempo.


Reli velhos textos, também. Como uma crônica quase que pioneira, que pincei nos microfilmes de O Popular, sob o título “Tem Maromba, ronqueira e banda-de-couro”, marcas fortes na Festa do Divino. Maromba é um grupo de jovens de todas as idades, hoje, e seu nome

se aplica tanto a um time de futebol quanto a um grupo de mascarados que atuam com muita alegria e presença em torno das Cavalhadas. Ronqueira é o nome que damos, em Pirenópolis, aos fogos de tiro forte e seco, indispensáveis nas grandes festas da vetusta Meia-Ponte do Rosário. E a banda-de-couro, também chamada de “banda dos meninos” (pela predominância de garotos e adolescentes) faz a marcação rítmica nas procissões da Alvorada (gosto de me lembrar da vez em que, lá por 1974 ou 75, atrapalhei, sem querer, o retorno da procissão à Igreja... Ah, isso é tema de outra crônica, que já escrevi e que integra o meu livro “Meia-Ponte do Rosário, Pirenópolis”, lançado em outubro de 2009, quando fui honrado com o título de Cidadão Pirenopolino.


Vou resumir, que o espaço é democrático e, por isso mesmo, curto. No meu coração meia-pontense reúno agora amigos de muita festança e com os quais ainda privo grandes momentos: Luiz Antônio Godinho, Manoel Inácio (Eli de Sá), Altamir Mendonça, Taciano, Vera Siqueira, Edinho de Nhonô, Nivaldo Melo, Nazian, Edinho de Tovim, Marina de Pina, Tovico, Gedson, Fatinha de Maria Beni, Roque Pereira, Sandra de Décio, Ita Pereira, Mirim, Fernando e Lílian e Solange, meu pai (Israel), os tios vivos e os que deixaram saudades, como meu avô Luiz, Professor Gomes Filho, Bidoro, Tia Rute... Gente demais!

Quero abraçar todos eles e mais a vila-boense Salma Saddi, grande vitoriosa nesse empenho. Agora, lutemos para que a Procissão do Fogaréu, na antiga Capital, também receba esse título. Seus méritos são inegáveis!


Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

terça-feira, abril 13, 2010

Outro dueto com Lílian Maial

Submersos

Lílian Maial


A chuva crava pingos-pregos na carne da palavra. Cala impiedoso deságüe. Total atrevimento, irrequietas águas. O Rio submerso.

A terra, ferida terra, sangra húmus e homens. Nada se move. O homem é grão. O lixo é o pão. Recende a lama, lágrima, escansão.

Um Rio celeste encharca a poesia. Respingam versos na falta de espaço. Entre prédios e barracos soçobra um infiltrado de (m)águas. Espirra, nos olhos do dia, o espanto desolado.

Na correnteza, um pequeno galho flutua o absurdo. Puxa a rotina e as certezas.

Afundadas em si, poças de esperança. Espelho d’água. Reflete e transborda. Arranca, joga e (des)mata.

Dói abrir a janela. A realidade inundada. Ao útero da terra retornam em silêncio.

A chaga se desvanece líquida.

Nada a fazer, senão lavar a sujeira, enxugar o grito, evaporar.

Navegar é preciso.




Choro de chão

Luiz de Aquino


Afora o desaforo das águas,

os rios que infestam

sem festa

o Rio, o Rio que a gente ama

das ruas à cama,

derramo-me de dengos

em seu colo que me prende.


Caem chuvas, cobrem-nos nuvens

densas de cristais que viram água

ou granizo a beijar o granito

dos belos morros por quem morremos

pouco a pouco, ou de súbito.


Transbordam canais, regurgitam bueiros

de rios submersos,

elevam-se os manguezais

a inundar quintais

no Rio inteiro!


Nas ruas e avenidas, não mais

o tráfico nem o trânsito. Águas

retidas de março invadem abril.

Chora o Brasil com tantos rios

a correr, como desafios

de versos em águas reversas.


Tanto fluir, tanto caudal!

Nada emito de mim,

mas vem-me a torrente

persistente, sempre presente

a afluir-me como os rios:

é poesia de dor e de lírica

muito mais que fatídica

de Lílian Maial.

sexta-feira, abril 09, 2010

A Poesia e a dor

Líliam Maial e eu


A Poesia e a dor


Luiz de Aquino


Bumba, o morro dos detritos

Estava no Rio de Janeiro há poucos meses, tinha dez ou onze anos. De Caldas Novas, trazia a lembrança de apenas uma grande cheia, quando o Córrego das Caldas avolumou-se e segurou em seu leito um automóvel que o atravessava... A ponte, de madeira, caíra uns dias antes e uma torrente inusitada, proveniente da retenção das águas por galhadas, fez parar o veículo. A família ocupante foi salva por uns ciganos acampados ali perto.

Ruas cheias, isso eu nunca vira. Afinal, a minha pequenina cidade estava, naquela época inteirinha na crista divisora das pequenas vertentes. E a rua cheia, para a minha descoberta, lá em Marechal Hermes, subúrbio da Central do Brasil, era a Jorge Schimidt, que cobre um pequeno caudal . Nunca entendi porque as prefeituras fazem ruas nas beiras dos córregos, canalizam-nos e depois os cobrem para que a Natureza, exigente, reclame seu espaço e dê vazão às tragédias.


Massa de lixo que virou usina de gás e chorume

Ando chorando demais, este ano. Minas e São Paulo, o Sul e Angra dos Reis, Nordeste e Baixada Fluminense, tanto Brasil mais sob a ação punitiva das chuvas e das cheias. Agora, a Belacap, como a chamávamos ao tempo de JK, é o alvo das ressacas do mar e do açoite das chuvas, ponto de convergência da quente umidade provinda da Amazônia e das massas frias que veio do Pólo Sul. Chuvas descomunais, ondas grandes e ameaçadoras, o chão encharcado, os morros de granito, a lama deslizante, o susto, a lágrima, a dor.

Agora, as chuvas molharam cenários da minha lembrança, chicoteando os ares e o chão, alagando tudo, obstruindo túneis e estradas, isolando bairros e praias, atravessando a grande ponte sobre a Baía de Guanabara. As águas tinham um acerto de contas com Niterói e redondezas. Dezenas de casas desmontadas e soterradas, vidas desaparecidas, sobreviventes e heróis apalermados, em choque.



Foi aí que veio a poesia, ou seja, a linguagem da alma humana. E veio de lá, do Rio de Janeiro, da lavra de poetisa Lilian Maial envia-me o seu pranto versejado:

Eu Tenho um Rio


eu tenho um rio que brota de dentro

e traz à tona o que foi sedimentar


tenho margens estreitas, correnteza furiosa

sem escolhas, apenas desaguar


invado e erodo, aliso cascalhos

até escorregar no limo do verbo


eu tenho um rio que leva as paredes

que se erguem em meio ao lixão da poesia

e soterra a palavra viva


eu tenho um rio de inundadas faces

e chovo poemas de sangue


eu tenho um Rio de Janeiro no peito estiado

e expio a falta da lembrança do teu rosto


Eu acabara de ver o noticiário, a lama preta no Morro do Bumba, em Niterói. Meus olhos já se habituaram às lágrimas ante a dor de tantos. Se já sentia aquele mal-estar que é a impotência ante o trágico, emocionou-me o poema de Lilian, e cuidei de lhe responder assim:


Lama e Lágrima


Brotava de mim um poema choroso,

de chuva de letras e lágrimas vírgulas.


Um veio de triste manchava meus olhos

à lama escura de um lixão esquecido.


Chorei plástico e lata, indefinido orgânico,

e fiz brotar o chorume na raiz das casas.


Eu não chorei um rio, mas o Rio de tantos

corações e janeiros, desde Sá e Araribóia.


Um rio de cá, o outro de lá e Itaipu.

Não era um céu, mas meus olhos; o verso,

um claro de lama e pedras sem verde.


E um rastro de sal na lama e na lágrima.

A bênção, Bumba (meu morro)!


Resgate: heroísmo e solidariedade

Ficam assim, nossos poemas, no modo que sugeriu Noel Rosa, em “feitio de oração”. Leiam-nos também, caso queiram, nesse endereço: http://recantodasletras.uol.com.br/duetos/2185711.

E queiram, ainda, emprestar seus gestos gentis de solidariedade, enviando o que for possível a cada um em auxílio às vítimas desse infortúnio.

Deus lhes pague!




Fale comigo: poetaluizdeaquino@gmail.com


sexta-feira, abril 02, 2010

Livros à mão cheia


Livros à mão cheia


Há cerca de quinze dias, encerrou-se em Pirenópolis a II Festa Literária de Pirenópolis (abreviadamente, FLIPIRI). O evento homenageou a atriz que há mais de trinta anos escolheu viver entre os montes delineados pelo Rio das Almas, Eliane Laje. Sua vida confunde-se com a história do cinema brasileiro em muitos pontos, como se viu pelos filmes e fotografias. Escritores famosos pela grande mídia e preferidos das grandes editoras foram realce entre os menos cotados, estes que pontuam pelos vários brasis literários que teimam em existir. Uma festa digna de nota e de destino: ela vai se firmar como o grande evento das letras no Planalto Central, sob a batuta da Prefeitura de Pirenópolis.


Quatro dias depois de encerrada essa mostra, Goiânia sediou o que nos parece ser um récorde: o lançamento simultâneo de cento e trinta e seis (sim: 136) livros, entre autores contumazes e grande número de escritores inéditos. O fato andou despertando o sentimento de raposa em alguns, destacados entre os que o general João Figueiredo qualificou como “profetas da desgraça” (esse tipo de pessoa para quem “quanto pior, melhor”). Estes, olhando o imenso cacho de uvas na parreira, comentaram: “Estão verdes”. Mas a Prefeitura de Goiânia posou de farta palmeira e rendeu belos frutos, sim!

Em Santa Catarina, em 2005, formandos de vários cursos de uma universidade particular convidaram um dos professores dirigentes da instituição para paraninfo. Honrado e agradecido, o homem aceitou. Quando lhe estenderam o pires, o velho mestre ofereceu mil reais. Sim: o cheque, se é que era um cheque, estaria preenchido como na praxe: hum mil reais. A comissão de formatura oficiou-lhe um “desconvite”, usando mesmo esta palavra. O homem, com a humildade do vitoriosos, respondeu com sabedoria, colocando aqueles estudantes em seus devidos lugares e lamentando, ao final, ter contribuído para formar pessoas tão desprovidas de caráter. Está certo... Onde já se viu leiloar uma honraria? Mas é prática corrente nas universidades brasileiras. Esse fato é análogo ao que se deu em São Paulo, onde o Ministério Público determinou a remoção dos crucifixos em repartições. Um frade católico manifestou-se:

“Sou Padre católico e concordo plenamente com o Ministério Público de São

Paulo, por querer retirar os símbolos religiosos das repartições públicas. Nosso Estado é laico e não deve favorecer esta ou aquela religião. A Cruz deve ser retirada ! Nunca gostei de ver a Cruz em tribunais, onde os pobres têm menos direitos que os ricos e onde sentenças são vendidas e compradas. Não quero ver a Cruz nas Câmaras Legislativas, onde a corrupção é a moeda mais forte. Não quero ver a Cruz em delegacias, cadeias e quartéis, onde os pequenos são constrangidos e torturados. Não quero ver a Cruz em prontos-socorros e hospitais, onde pessoas (pobres) morrem sem atendimento. É preciso retirar a Cruz das repartições públicas, porque Cristo não abençoa a sórdida política brasileira, causa da desgraça dos pequenos e pobres. Frade Demetrius dos Santos Silva - São Paulo/SP”.

Não posso assegurar que seja verdade, nem que exista, de fato, um Frade Demétrio dos Santos Silva. Mas, se não existe, saúdo com dignidade quem o inventou, porque essa é, de fato, uma atitude nobre. Tão nobre quanto a do professor Rubens Araújo de Oliveira (a julgar serem também verdadeiros o fato e a pessoa). Em ambos os casos, sinto que faltaram dois elementos primordiais na formação dos que levianamente assumem atitudes de desconvidar e (ou) de remover símbolos de fé. Faltaram família e livros.


Sou frequentador contumaz de escolas dos quatro níveis (agora, surgiu um nível preliminar, a pré-escola) e sei que as famílias, irresponsavelmente, atribuem à escola as suas obrigações como educadora, mas já vi pais pondo dedos (sujos, é claro) nos narizes de professores, com uma legenda nojenta: “Sou eu quem paga o seu salário”. E vejo a distorção do uso das mídias, com a criançada sofrendo desvios, os livros substituídos por videogames e pelas drogas. O resultado é esse aí: formandos que escolhem paraninfos pelo poder de doação de grana e promotores que preferem anular a fé, em lugar de permitir que se use um símbolo, seja ele uma cruz com Cristo, uma cruz sem Cristo, uma Estrela de Davi ou um Quarto Crescente.

Viva o professor Rubens! Viva o Frade Demétrio! Viva Castro Alves, que exalta os que semeiam livros!


Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.