Páginas

sábado, outubro 15, 2011

Vam' cumê um trem...



Vam’ cumê um trem...

          Existe alguma manifestação cultural mais significativa que a linguagem? O modo de se vestir? Ou o que se  come? Bem, tempo houve em que a arquitetura, a engenharia das casas, obedecia a um padrão imposto pelos materiais disponíveis: madeira, pedra, folhas. Hoje, a indústria da construção civil nivela o mundo a uma paisagem habitacional comum, igual. Tal como as roupas, que hoje fazem com que, respeitadas as circunstâncias do tempo, as pessoas se vistam igual em quase todos os lugares do planeta.


         Sobre comidas, o típico hoje fica por conta do exótico. Já fomos o país da feijoada, do arroz-com-feijão, das frutas tropicais. Mas, no Brasil atual, o churrasco é a referência maior. E pensar que tanto do que comemos são heranças dos colonizadores, dos escravos e dos imigrantes!

Arroz com pequi
         Resta-nos, aos goianos, marcas bem indígenas: o milho da pamonha e o pequi, que na minha infância era colhido sob as frondosas árvores no cerrado quando era chegado o verão teórico. Hoje, dispomos dele desde julho ou agosto, trazido em caminhões do Tocantins, do Maranhão, do Piauí, mas é Goiás quem mais se serve do fruto cheiroso como referência. Como, de resto, melhor se vale também do cerrado para definir a paisagem, apesar de o cerrado ser muito mais amplo que os nossos (hoje) pouco mais de 300 mil quilômetros quadrados.

         Isso é bem de Brasil, a imensidão das coisas. Lembro de Carmo Bernardes defendendo com ardor um ponto-de-vista: qualquer animal ou fruto tem tantos nomes quanto maior seja sua importância para o único animal a se valer das palavras. Será? Manga é manga em qualquer lugar, como laranja é laranja. Mas ata pode ser pinha (nordeste) ou fruta-do-conde (sudeste e sul). Por isso fico indignado quando, no supermercado que tem sede no Vale do Rio Doce (MG), vejo a oferta: “Pinha – só R$ 3,99 o quilo”.


Ata, pinha ou fruta-do-conde.
         Ora, pinha! Por que os adventícios não respeitam nosso linguajar e escrevem lá “ata” em lugar da solene pinha? Há também restaurantes pedantes que oferecem, em plena Goiânia, bolinho de aipim. Se ao menos fosse um típico restaurante nordestino, acho que aceitaria, de nariz torcido, macaxeira. Ou jerimum em lugar da nossa abóbora.

Aipim, macaxeira, mandioca...

     Mas o que senti mais doloroso foi a resposta de uma jovem senhora, dona de uma pamonharia. Pedi pamonha frita e ela me respondeu, com desdém: “Não temos, senhor. Pamonha frita só no mercado central ou nas ruas”.  Apontei-lhe na estufa os volumes ovais do produto, evidenciando o que desejava, e ela, tácita, tentou me corrigir: “Ah, o senhor quer bolinho de milho!”.        

Bolinho de milho, não; pamonha frita!

         Indignei-me: “Não, senhora! Quero pamonha frita, isso que a senhora chama de bolinho de milho. Aquilo que lhe parece ser pamonha frita é apenas pamonha de ontem”.
        

* * *

E o meu novo livro...

(Publicada em 12/01/01, no Diário da Manhã; integra meu livro Ah, língua brasileira!, da Coleção Goiânia em Prosa e Verso, 2011. Republicada em 16/10/2011, no Diário da Manhã).

4 comentários:

Lucilia Antunes disse...

Não pude deixar de sorrir...Vi-me tomada por esse mesmo orgulho,por essa mesma indignação.Eh,Goiás querido!

Mara Narciso disse...

Ai, Luiz implicante! Claro que é chato ser corrigido no nosso habitat, eu sei, mas deixa pra lá. Bem lembrada a variedade de nomes para coisas mais valorizadas. Minha mãe dizia o mesmo. Veja a variedade para dinheiro e órgão sexual masculino e feminino. Estes sim têm uma imensa lista. A pinha, aqui em Montes Claros é pinha e a tangerina de outros lugares é mexerica. Estranho pequi ser pequi em qualquer lugar. Lembre-se que para nós ele é o rei. Tem até a República do Pequistão, no Facebook para pessoas de Montes Claros, roedoras de pequi. Vai lá!

Adriano César Curado disse...

Caríssimo escritor Luiz de Aquino, meus parabéns pela excelente crônica. Toda ela é perfeita, mas é do primeiro parágrafo que quero falar. Ele nos conta das mazelas do cotidiano, os ciclos viciosos da vida, dos quais dificilmente escapamos. A massificação do indivíduo se intensifica a passos largos e ele se vê envolto numa teia terrível de mesmices e repetições. Moramos em casas iguais, vestimos as mesmas roupas, bebemos da mesma cerveja, dirigimos os mesmos carros. É bem o livro 1984, de George Orwell, com o big brother e tudo. O Estado, os meios de comunicação de massa, as grandes indústrias de marketing, enfim, os formadores de opinião, todos eles trabalham ferozes para matar nossa individualidade, como se de robôs fôssemos feitos. Como dizia o escritor José Saramago, “muitos olham, mas poucos veem”.

Antonio Rubilar B. Valente disse...

Caro Luiz! Gostei muito do seu blog, muito legal e com textos consistentes.Já estou lhe seguindo!Se for possível, dê uma visitinha em meu blog, "Brasil da Pena".Tenho certeza que vc vai gostar tb.Parabéns pelo espaço poético.Abraços do amigo, Rubi.
www.valentebrasil.blogspot.com