Páginas

sábado, outubro 01, 2011

Dia branco





Dia branco



Dia que chega discreto nos primeiros segundos, abrindo devagar a porta da madrugada para, então, raiar de aurora e de luz ante meus olhos que se abrem não assustados, mas perplexos: toda luz é bem-vinda!


Não gosto de ouvir bom-dia quando o tempo é da noite, da madrugada... Comissários de bordo e pastores-locutores de igrejas pentecostais entendem que se o relógio mudou, devem dizer bom-dia, mas a saudação é para ser dada desde o arrebol ao meio-dia, e há quem a estenda inteira ao domínio do astro-rei sobre nossos horizontes.


Não gosto também de ouvir coleguinhas da imprensa oral dizendo “estavam juntos havia dez anos”. Não gosto também quando seccionam a imprensa em “escrita, falada e televisada”. Sou mais da escrita e oralizada, quando se faz necessário dividi-la. Mas sobre os da escrita, não gosto de notar que colegas que deveriam ter informações fundamentais para bem informar e para bem escrever contentam-se em mal-saber e, assim, mal-escrever e mal-informar.

Gosto do dia que chega. Gosto de ouvir “Dia branco”, de Geraldo Azevedo: “Se você vier
/ Pro que der e vier /
Comigo... // Eu lhe prometo o sol
/ Se hoje o sol sair
/ Ou a chuva...”.

Gosto de dar bom-dia ao Sol e de tratá-lo em maiúscula, porque é nome de astro, e assim me foi ensinado e não entendo porque minimizar o tratamento ao Sol, à Lua ou meu país, Brasil – ainda que até mesmo empresa que se oferece para produzir cultura menospreze em minúsculo um nome tão belo e ímpar.



Olho as ruas molhadas de luz, mas a umidade do ar é baixa, desejo chuva e ar macio que não me fira os olhos, a pele e as narinas. E olhando as ruas do alto, convido ao meu peito um mundo de amigos e parentes, penso nos que se foram, encho-me de Deus e peço bênçãos para todos.


“Se a chuva cair / se você vier”... Bem-vindos serão os pingos, bem-vinda será você! “Esse tanto / esse canto e amor”... Há saudade, muita... Saudade porque tudo é distante, saudade porque é passado. Saudade de um tempo em que aqui fazia frio, um tempo tal que chovia uma vez ao menos em cada mês da seca, e havia árvores de matas, e havia o cerrado antes que tanto se queria, tanto se desejava que fosse, que seja, que soja...

Que merda! Pela soja que rende a grana, perdemos o ar de respirar e o verde de dar alegria. Jatobá, mangaba, murici, guariroba, gabiroba, bacupari – tudo some, até o pequi, porque o petróleo se raleia e custa caro, é tempo de bacana plantar cana; não para a doçura do açúcar, só para o fazimento do álcool de abastecer automóvel que enche as ruas, superlota estradas e rende dinheiro e rende acidentes de aleijume e de mortes que entristece os próximos, enluta famílias e pesa na previdência social.



Dia ainda triste, o ar com apenas 20% de umidade. O cerrado triste em castanho, as árvores vestindo-se de verde precoce, acreditando que chuva já vem, as flores das buganvílias enfeitando os campos, os jardins e os canteiros das avenidas – mas é imprescindível chover, e logo! Meus dias precisam ficar brancos, cinzas e, depois da chuva, azuis.

Sendo assim, acredito que o Brasil do cerrado e da caatinga se vestirá de alegre, voltará a sorrir para renovar sonhos e esperanças. Enquanto espero, conclamo à paz tão sonhada, ao sorriso nas esquinas, ao toque de mãos e abraços nos encontros, ao beijo do conluio e àquela intimidade de amantes.

A esperança existe, mas um tanto adormecida; a paz tem sido um sonho, a violência que vulgariza a morte teima em se institucionalizar, tal como os desvios de verbas e o apadrinhamento político, as greves decretadas abusivas e os abusos que não ganham adjetivos porque os que julgam resolveram fazer greve.

O dia é branco; e o céu, azul.


Que o céu deste “Dia branco” esqueça por uns dias o anil, faça-se de branco por um momento; que se acinzente e se derrame em lágrimas sonoras para os poros ressequidos da terra, dessedentando as raízes, reverdecendo as folhas, vivificando flores. Amém!



* * *

11 comentários:

Lucilia Antunes disse...

Encantada com a poesia deste texto impregnado do sentimento goiano, que pede a descida da água,o esverdear do cerrado,a alegria da vida.Gosto muito de seus escritos!

IZAEBEL disse...

Amei....tudo que li! linda poesia, texto profundo, incrivel mesmo, maravilha!

Mirian Oliveira disse...

Luiz...
Suas palavras são "gôtas" de alegria para nós, habitantes do deserto central.
Um abraço, direto de Brasília.

Tania Rocha disse...

Poeta Luiz De Aquino,

Domingo bom de primavera,chuvinha mansa caida aos pouquinhos e essa crõnica maravilhosa!! Tanta poesia,tanto sentimento! Sr poeta,hoje o mundo ganhou mais alegria!

Mara Narciso disse...

A Primavera, ainda antes das chuvas, faz o broto. A natureza pressente a água e verdeja. E com ela vem a inspiração poética, o sonhar, o cantar e os incômodos da saudade. Olho o dia lindo e ensolarado e costumo dizer: " que dia lindo, meu amor!", ao meu filho. Quando eu ainda não falei, ele me remeda. O tempo se vai, vamos perdendo pedaços, um amanhã cada dia mais curto, um ontem cada dia maior, e uma vontade de viver com intensidade o que temos, que é o hoje. Bela crônica em prosa, parecendo os seus versos.

Ridamar Batista disse...

Obrigadaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
A chuva chegou aqui,Anápolis) num banho revigorante, farto.
Choveu mesmo, toda a acidez das nuvens caiu por terra, deixando o ar possível.
Um abraço.
Rida

Sueli Soares, RJ disse...

Bebi cada gota...

Ana Cristina disse...

Lindo!

Vivi disse...

Lindo demais...Estou ainda aguardando o meu... Bjosssssss

Valéria Martins disse...

Que bonito, Luiz!... Eu adoro essa música, lembra as férias que eu passava no Nordeste na época da faculdade.

Obrigada pelo comentário na Pausa do Tempo. Eu não sabia que o Vinícius tinha morado na Lopes Quintas!

Beijos,

Valéria Gomes disse...

Uma prosa poética poderia lhe dar uma boa descrição. Não sou tão certinha assim, então aproveitei ao máximo sua emoção para aprimorar a minha.