Amigas de luz própria
Quando
vivemos os tais “verdes anos” – metáfora ingênua para a adolescência e,
dependendo da conveniência, para duas décadas além – olhamos os mais velhos e
os situamos num passado desconhecido. Algo assim como tentar adivinhar como era
a vida no tempo do nosso nascimento... Ou mais complicado ainda, algumas
décadas antes.
E,
estranhamente, situamos as pessoas naquele tempo imaginado, quase sempre
erroneamente imaginado. E carimbamos as pessoas com os rótulos de nossa mente –
e quase sempre erramos. Ou erramos, apenas. É que não consideramos algo comum,
muito comum: as pessoas não param no tempo; viver é seguir em frente,
adequar-se ao mundo que se renova a cada dia, tal como adaptar-se às mudanças
de lugares.
Pois
é! Viver é exercer, todo o tempo, o que nos oferecem a História e a Geografia.
Mas
viver é também relacionar-se. Ver pessoas, conhecê-las, ouvi-las, aprender e
ensinar, ou seja: trocar informações e exercitar o processamento do que se
sabe. E que seja possível memorizar rostos e nomes; e mais interessante que
tudo, que seja bom estreitar relações, amar, fazer amizades...
Nestes
48 anos em Goiânia, conheci muita gente, selecionei milhares, colecionei
centenas. Coisa comum, todos nós fazemos assim. E todos pensamos ter dezenas de
amigos. Diria mais, e diria melhor: são, de fato, milhares as que listamos em
cadernos de endereços e telefones, e mais milhares na lista de e-mails.
Quase
sempre, somos pessoas de múltiplas atividades: nem sempre nos é possível desenvolver a profissão, o empenho
social e o lazer num só segmento. Por isso, é comum termos amigos separados em
grupos de interesses. Eu,
particularmente, gosto muito disso. Preservo as lembranças dos amigos do
BEG, umas raras amizades com ex-alunos, amigos da minha curta passagem pela
Telegoiás, amigos jornalistas, amigos escritores e ainda outros artistas – como
músicos e pintores, atores e críticos, professores a quem me afeiçoei ao tentar
ligar literatura e Educação.
Sem
medo de magoar alguém pelo esquecimento – e mesmo porque estou centrado
(focado, dizem os novos profissionais) em duas pessoas, especialmente –, vou
lhes contar, leitores queridos, de duas mulheres a quem cultivo um carinho
sempre renovado: Aparecida Teixeira de Fátima Paraguassu e Sinvaline Pinheiro.
A ordem de citação não é apenas alfabética, mas cronológica, pois foi Fátima
quem me apresentou Sinvaline.
Elas
tem muita coisa em comum. Ou uma apenas – um amor determinado e forte por suas
terras de origem, e demonstram-no com a mesma linguagem, que é a luta pela
consolidação dos tesouros culturais de seus torrões. Fátima, por Santa Cruz de
Goiás; Sinvaline, por Uruaçu e suas cercanias.
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Fátima Paraguassu |
Santa
Cruz de Goiás, um dos primeiros povoados na ocupação deste território de Goiás,
veio a ser a primeira capital da Província, acolhendo o primeiro governador, o
Conde dos Arcos, que após mais de um ano despachando do lugar, transferiu-se
para Vila Boa, a atual Cidade de Goiás, sede escolhida para capital definitiva.
Famílias tradicionais e históricas e a prática secular de atividades
folclóricas são, para Fátima, o
esteio de pesquisa. Presidente da Comissão Goiana de Folclore, essa professora,
musicista, escritora e acadêmica de História (na PUC de Goiás) vai, aos poucos,
preenchendo um vazio expressivo na História de Goiás.
Ao seu
lado, simbolicamente, Sinvaline cuida de Uruaçu e de tudo o que envolve o
passado, o folclore e valores afins na região da represa da Serra da Mesa –
inclusive do Memorial Serra da
Mesa – instituição que conta com o apoio do Instituto do Trópico Sub-Úmido da
PUC, mas que merecia uma cobertura material e financeira expressiva das ricas
empresas que se beneficiam da região.
Fátima,
que no início dos anos de 1980 elegeu-se vereadora em Santa Cruz de Goiás,
quebrando o tabu machista que impedia mulheres na Câmara Municipal (foi
presidente daquela Casa de Leis) voltou aos estudos quando o filho único já
estava na universidade; Sinvaline paralisou os estudos formais – não concluiu a
quarta série primária (fundamental); autodidata e, como tal, curiosa e
apaixonada por textos, para ler e escrever, tornou-se importante pesquisadora e
atua, também, com comunidades indígenas de sua região – craô, caiapó e
avá-canoeiro – além de produzir artigos para as publicações do ITS da PUC,
antologias poéticas, pesquisas para a UFG (Facomb) e, tal como sua amiga Fátima
Paraguassu, produz artigos para o site Overmundo.
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Sinvaline, abraçada pelo presidente Lula |
Essas
mulheres trabalham. Trabalham muito! E, por isso, incomodam. Brilham demais,
acabam por ofuscar alguns néscios encastelados em cargos públicos de nomeada
duvidosa. Sei como é isso... E como sei!
Beijos, minhas amigas! Gosto de tê-las
na primeira dezena dos meus selecionados.
* * *
5 comentários:
Amigos amigos.... Difícil comentar aqui meu nobre conterrâneo mas você brilha tal qual estrela de primeira grandeza por esta singeleza com os(as) amigos(as)
Abraço do Luiz Delfino
Imagino serem justas as homenagens, pois não o vejo distribuindo elogios sem motivo. Admiração é um sentimento que faz um bem a ambas as partes e deve ser o caso.
Oi amigo, Luiz
esse elogio vindo de voce, sabemos que é sério, sabemos que reconhece o quanto trabalhamos por nossa terra natal.
Há os desafetos que infelizmente nos acompnham nessa jornada; a gente contrói, esses tentam derrubar.
A gradeço o seu carinho e convívio e pode ter certeza, mesmo que não aceitem, mas já provamos que Santa Cruz de Goiás, foi, sim, capital da Provincia de Goiás
Oi, amigo Luiz,
Esse elogio, vindo de você, sabemos que é sério, sabemos que reconhece o quanto trabalhamos por nossa terra natal.
Há os desafetos que infelizmente nos acompanham nessa jornada; a gente constrói, eles tentam derrubar.
A gradeço o seu carinho e convívio e pode ter certeza, mesmo que não aceitem, mas já provamos que Santa Cruz de Goiás, foi, sim, capital da Província de Goiás.
Fátima
Estimado amigo, Luiz de Aquino
Agradeço por reconhecer que realmanete trabalhamos, ao contrário de quem prega aos quatro ventos que tanto Sinvaline quanto eu, estamos desenvolvendo um governo paralelo. Paralelo a quem? eu pergunto.
É probido querer entender os meandros de nossa história? buscar nossa identidade? Se buscamos preencher um vácuo na história em um determinado período, não estmos "querendo aparecer" ou com "projeto de projeção individual". Acreditamos, com respaldo da sociedade local, que se trata da história de um povo que quer apenas saber de onde veio e o que aconteceu em um período que os livros não contam.
Pesquiso incansavelmente a história de Santa Cruz de Goiás, por ter sido importante para o Brasil Império. Aos poucos, estamos preenchendo um vazio expressivo na História de Goiás, onde Santa Cruz de Goiás foi palco de tantas realizações que hoje estão alijadas.
Foi aqui a encenação da primeira cavalhada do Estado de Goiás em 1816; foi aqui também a Capital ( pro tempore) da Provincia de Goiás, não apenas por 24 horas como povoava o nosso imaginário. Hoje, não é mais lenda, é real, comprovado a intermitencia entre a Vila Boa de Goyaz e Vila Santa Cruz de Goyaz.
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