Chapéu
Quando
ouço (e, muitas vezes, leio) a palavra “troféis” como plural de troféu, dá-me
um arrepio muito estranho, como a palavra trazendo espinhos que invadem os
ouvidos, ferem os olhos e causam dor na pele toda. Troféu ou trofel? E o mesmo
se dá com chapéu, pois numa lojinha para turistas numa atraente cidadezinha bem
brasileira a vendedora me ofereceu “chapéis”. Afinal, chapéu ou chapel? Quem o
fabrica ou vende, é chapeleiro; e as lojas são ditas chapelarias.
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Judeus orando: o quipá é indispensável. |
Em
1997, numa inesquecível viagem a Israel, familiarizei-me com a palavra quipá. O
dicionário Caldas Aulete refere-se a uma “planta rasteira e espinhosa do
Norte”). Na Internet (Wikipédia) encontro “kipá” e “quipá”, remontanto-se ao
solidéu dos judeus: “O quipá (em hebraico כיפה, kipá, "cúpula",
"abóbada" ou "arco") ou yarmulke (em iídiche יאַרמלקע, yarmlke, do polonês jarmułka,
que significa "boina"), é um pequeno chapéu em forma de
circunferência, semelhante ao solidéu, utilizada pelos judeus tanto como símbolo
da religião como símbolo de "temor a Deus".
Ocorreu-me,
naquela ocasião, que as palavras capa, capote, capacete, capuz, chapéu, quepe
(do francês “képi”), copa (de árvore) e muitas outras têm por raiz mais remota
a expressão do hebraico, possivelmente oriunda do aramaico ou outra língua tão
ou mais antiga. Pensei até que a palavra copa (taça) não teria sido uma
metáfora, pois estas têm silhuetas assemelhadas as de algumas árvores. Ah!
Chama-se copa, também, a parte alta (cobertura) dos chapéus...
Minha mais remota lembrança é de uma festa junina em que minha mãe fantasiou-me de peão de roça, com chapéu de palha. No final da infância, sendo escoteiro, usei um chapéu de feltro, aba larga, a copa marcada em cruz, tal como guardas florestais da época, como os víamos, em fotos e filmes, nas matas canadenses.
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Chapéu com a flor de lis: Sempre alerta! |
Não
sei se os motivos foram econômicos ou de moda, mas o fato é que o uso
corriqueiro do chapéu, neste país tropical, praticamente desapareceu no
decorrer da década de 1950. Fora das esferas militares, escaparam os capacetes
de operários e os bonés, estes com funções esportivas e também publicitárias.
Hoje, raro é o adolescente que não tenha uma coleção de bonés. Os tiozinhos e
vovôs gostam dos modelos ingleses e italianos. Eu passei por tudo isso, até
chegar ao chapéu tradicional. Gosto muito do panamá – aquele chapéu branco de
fibra vegetal, fabricado no Equador e que tornou-se famoso apenas por passar
pelo Canal de Panamá e ganhar um carimbo. Mas uso também os de feltro, alguns
bonés estilosos e esportivos e até mesmo um quepe de marinheiro.
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O clássico panamá |
Indústrias
nacionais importam a palha do Equador e fabricam “panamás” nacionais. Duas
dessas marcas espalham-se já por todo o país e não apenas senhores sex e
septuagenários os usam, de dia e de noite, com um ar boêmio e feliz – muitos
jovens, sambistas e chorões, têm no chapéu claro um símbolo da boa música
nacional. Em Goiânia, somos muitos os adeptos, mas João Garoto, virtuoso
violonista, é o nosso símbolo.
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Chico Paes |
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Pádua |
Tal
como as mulheres com suas bolsas maravilhosas, e até como nós mesmos, há três
décadas, com as indefectíveis tira-colos, o uso do chapéu condiciona-nos; é
difícil sair sem ele, depois de adquirido o hábito. O poeta Ivanor, o
secretário Luiz Carlos Orro, o cantor Pádua, o multiativo Freud de Melo e muitos
outros amigos meus sempre são vistos sob essa cobertura. Recentemente, e
justo por não nos encontrarmos
mais amiúde, constatei que meu velho amigo Francisco Paes incorporou a
cobertura na indumentária.
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O poeta Ivanor e eu |
Sob
o sol, uso meus chapéus claros, de palhinha, seja panamá ou uma tessitura menos
nobre; em ocasiões socialmente refinadas ou sob o sereno que perturba crianças
e pessoas encanecidas, prefiro os de feltro. Em especial, um Ramenzoni Solis
“três xis” – presente de Freud de Melo que, obviamente, muito me agradou.
Ou
seja: tenho um chapéu freudiano...
* * *
7 comentários:
Meu avô, que hoje teria 103 anos, usou chapéu até bem depois que passou a moda. Mas também saía sem chapéu. Meu ex-marido, Flávio Rocha Silveira o usava de vez em quando, e apenas depois de maduro para provocar, ser diferente, e gerar questionamentos. Tem um poeta jovem, aqui em Montes Claros, chamado Márcio Adriano Morais que o utiliza para parecer mais velho, já que é professor de literatura e sendo magro, e com cara de menino aparenta ser menino mesmo. De chapéu se destaca pelo pitoresco. Usa de feltro azul. Um amigo escritor, Itamaury Teles também usa, preferencialmente um chapéu panamá que desapareceu e mereceu recentemente uma crônica sobre o sumiço. Sorte que foi reencontrado, evitando novas compras. Acho distinto, chique e senhoril. Embora adequado ao nosso clima, envelhece, dando ao usuário pelo menos duas décadas.
Oi, amigo,
Sua crônica sobre o chapel merece um trofel. Desejo presentear-lhe com um ótimo quipá. Onde a gente o compra a seu gosto?
Vocêé amigo de Ivanor? Ele prometre enviar-me seu último livro mas, até hoje não o recebi.
Estimado Poeta, gosto de ler suas crônicas, pois são recheadas de sabedoria, conhecimento e experiência. Porém, suas poesias, criam vida em minha mente, já fecunda e, desde tempos remotos de minha adolescência, quando era apaixonada por Casto Alves, que agora, me pego apaixonada por seus versos! Quero fazer um comentário, em nível "Espiritualista", sobre a utilização de uma proteção sobre a cabeça. Existe uma estória que, corre, entre nós que, a utilização do chapéu ou qualquer outra proteção sob o "cucuruco" da cabeça, impedem que pessoas más intencionadas, nos roubem nossos conhecimentos. Eu mesmo, possuo sete(nº abalístico)lindos e encantadores chapéus de cores variadas, sempre em tons pastéis. Tenho 21 chales e lenços que são utilizados, para o mesmo fim. Ainda, 3 pentes, estes que apareço usando na foto do face... Sempre, com o mesmo objetivo primordial: proteger minha consciência, assegurando-me de intocáveis segredos e mistérios! Valeu Poeta! Vou ficar te esperando, até domingo próximo! Boa semana, junto ao seu povo!
Gostei, leve e informativa.
E viva o chapéu, além de ser um acessório marcante para quem usa é uma proteção indispensável.
Papai não sai para rua sem chapéu...
Poeta:
Você fala, e muito bem, de chapéus, quepis etc. Não se esqueça dos bonés ( os franceses o chamam de "casquette") - temos, e sempre tivemos, adeptos fanáticos e eu me incluo entre eles. A minha coleção deve beirar aí por quarenta e de várias partes do mundo, inclusive de Portugal cuja fábrica inaugurou-se em 1829: é de veludo e é uma beleza! Tenho também um americano - feio mas muito resistente
e a fábrica iniciou seus trabalhos em em 1895 - é tipicamente de operário. O boné de origem italiana que tenho é leve, ventilado e muito simpático - acho que é igual ao que Fellini usava.
Em Portugal foi uma alegria, principalmente no interior - a galegada não dispensa o boné! Parece que nasceram com ele na cabeça. Quando andei por lá, usei uns feitos no Paraná - os caras me olhavam com muito respeito - afinal era da confraria dos homens qie usam bonés!
Outro que não dsipensava o boné era o Bernardo Elis: dias atrás andei por Corumbá de Goiás, fazendo uns desenhos. Não deu outra:
todos me perguntavam se era da família Fleury Curado e parente do Bernardo! Isso é um pouco verdade e assim fui recebido por lá com todo o carinho, muito em função disso.
Esse negócio de usar cobertura na cabeça é coisa bíblica - a gente encontra no livro afirmações tais como,: "cobriu a cabeça e cingiu os rins!"
É claro que cobrir a cabeça tem uma série de significados - o mais prosaico deles é a carequice: o nosso glorioso sol incomoda um pouco.
Mas, acho que o gesto de cobrir a cabeça é coisa mais transcedente - todos os homens, antigos e modernos, têm essa necessidade - que os antrpólogos expliquem, mas sem fazer tese acadêmica, complicando o assunto.
De qualquer maneira ainda está na minha memória o primeiro boné que ganhei- era de couro e eu deveria ter meus cinco anos - foi um dia de glória para mim.
Eu acho que você deveria usar os bonés - é verdade que você fica meio faceiro de chapéu, principalmente do tipo panamá, por isso eu não insisto muito, mas tenho ceteza que o dia que usar um boné português, você não vai querer outra coisa.
Sem querer fazer bonito com o chapéu alheio, vou me despedir tirando meu boné para saudá-lo, cronista-poeta!
Caríssimo amigo e multi-artista Elder,
Obrigado pela saudaçao, bem ao modo dos guerreiros medievais, ao tirarem o elmo ante uma dama ou um varão de respeito. Vindo de Você, muito me dignifica, mas muito mais que isso: demonstra o grande homem que é o arquiteto, professor, poeta, historiador e artista plástico que me honra com sua amizade.
Tenho gosto também por bonés. Tenho alguns, algo perto de uma dezena, de origens não muito nobres, mas conservo com carinho um que trouxe de Bento Gonçalves por volta de 1996, com inscrições alusivas ao Congresso de Poesia daquele ano. E dois outros, em cores diferentes, da confraria dos ex-alunos do Colégio Pedro II. Um outro de muita estima me foi surripiado de dentro do automóvel, tinha a águia do Liceu.
Assim que possível, gostarei de conhecer sua coleção.
Abraço fraterno do admirador
Luiz
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