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quinta-feira, novembro 03, 2011

Irmãos de letras, amigos no tempo


Irmãos de letras, 
amigos no tempo


Era 1963... Já contei algumas vezes sobre esse tempo, aquele agosto da minha chegada a Goiânia. Vinha do Rio de Janeiro, onde vivi dos 10 anos até as vésperas do 18º aniversário. Fui bem recebido nos primeiros minutos, naquela turma de primeiro ano clássico; mas as boas-vindas desapareceram feito mágica quando eu informei que era goiano.

O Liceu, ainda antes de nós...

Contei, já, nas minhas incontáveis crônicas, dos poetas daquela pequena turma. Naquele mesmo ano, em dezembro, Ciro Palmerston estreou em livro; em seguida foi a vez de Emílio Vieira... Ah, não vou falar neles desta vez! Fazer poemas, numa turma de clássico, nos tempos anteriores ao golpe de 1964, era algo um tanto corriqueiro.

Francisco J. Taveira
Vejam, leitores, que consegui obter poemas de dois dos meus amigos de meio século – Francisco Taveira e Mário Alberto Campos. Vamos ver o de Francisco José Taveira. O soneto é Gaivota:



Sê paciente, mas nem tanto 
Que se faça eterna tua espera. 
Apressa-te, estanca o pranto. 
Sorri, e vive a primavera.

Voa, gaivota intensamente, 
Voa gaivota os sonhos teus. 
Que seja teu inteiramente 
o espaço entre ti e Deus.

Deixa no rochedo batido 
de tantas vagas a espuma 
das tormentas e vendavais.

Liberta teu grito contido; 
que brilhe mais a tua pluma! 
Voa e ama muito mais... 



Mário Alberto Campos: a saudade é Musa...
E de Mário Alberto Campos, nascido português e tornado brasileiro aos seis anos, recebi:

“Amigo Luiz, no dia em que estava pegando todas as coisas à toa que a gente vai guardando pela vida a fora, encontrei, talvez, o último poema que devo ter feito. Ainda da época da Casa Portuguesa, com certeza! Prá não ficar com ele só prá mim, vou dividi-lo com você:

Pego este verso 
Transverso 
E escrevo. 
E penso que volto, 
Revolto, 
Aos ares de Portugal. 
Coimbra de lembranças, 
Sem bichas 
Nem fichas, 
mas com Moeda 
E Santa Justa. 
Justa Santa como a terra, 
que soterra 
e enterra, 
mas que floresce e nasce. 
Nasce de amores 
e espalha flores 
nos campos e arredores. 
Arredores de mim 
que envolvem, enfim, 
o meu Portugal! 
Que saudades que sinto!

Abraços de seu irmão, Mário". 

Rua da Moeda - Coimbra, Portugal
Ele acrescenta (respeitando as diferenças lingüísticas entre nós e pátria-mãe): “Ah! Apenas para tirar dúvidas:

Moeda - A rua da Moeda, onde meus avós maternos moravam e lá morei durante um tempo, com minha saudosa mãe e meu irmão depois que meu pai veio, em 1951, para este maravilhoso Brasil.

Igreja de Santa Justa, Coimbra
Santa Justa - Ladeira de Santa Justa, onde moravam meus avós paternos e se localizava a Igreja de Santa Justa, uma igreja bucólica que parecia encravada na ladeira. Me lembro dos presépios dos padres e fiéis – fiéis mesmo?... Ladeira cheia de casas iluminadas, fontes luminosas, trenzinhos –  daquela época, é claro, e portanto, do estilo 1950 – trançando por todo o perímetro do presépio... Como gostaria de lá voltar!".
Presépio em Coimbra

É... é de nós: saudade e poesia, pilastras gêmeas a sustentar amizade!

(E por ser de Portugal, onde se lê “bichas” entenda-se “filas”).



Mário, com a filha Luciana. 



* * *



6 comentários:

Adriano César Curado disse...

Que crônica mais linda, Luiz, cheia de colorido e graça. Seus amigos escrevem muito bem, fazem poemas que nos pegam pelas mãos e nos levam para lugares de sonhos. Meus parabéns pela excelente postagem.

Jô Sampaio disse...

É impressionante como pessoas iguais a nós, que têm alma de poeta, nariz de poeta, sentem
a poesia em tudo. Belas lembranças!
Que perfume de coisas inodoras!
Vozes veladas, veludosas vozes, volúpias de violões, vozes veladas...
Essas são as vozes que ouço em sua crônica : O doce saudosismo,
a amizade, a poesia.
O verso acima é de Cruz e Sousa mas...as assonâncias, as aliterações,
as sinestesias oriundas das sensações auditivas sentidas no doce da
saudade,( esse idiotismo só nosso) é da sua alma e de todas as almas
que se deleitam com o conteúdo das suas inspirações.
Bjos. Jô Sampaio

Fraancisco Taveira disse...

Amigo Luiz de Aquino:

Os versos de "Gaivota" são todos octassílabos, inclusive o que corrigi para " Sorri e vive a primavera" e que você enquadra como redondilha maior. Respeito-o, mas não concordo com o "poetariado de alhures e algures". Se melhor não fiz é porque melhor não sou. Sua crônica do próximo domingo faz referencia ao Mario e a mim, além do Ciro e do Emílio. Quanto ao uso de "ti" ao invés de "tu", em nome da sonoridade, ou de apelo à liberdade poética, confesso que não sou tão corajoso assim, apenas obediente ao vernáculo que nunca permite o uso do pronome pessoal do caso reto após preposição. Se há uma diferença entre mim e ti é porque um é apenas escrivão enquanto o outro é escritor laureado. Um fraternal abraço do colega e amigo

Luiz de Aquino disse...

Minha mão à famosa palmatória... Dois cochilos: no que tange à métrica, por observar erroneamente a silabaçáo do poema (correçao procedida, meu querido Poeta-Tabeliáo) e no que concerne ao uso de ti em lugar de tu. Inadvertido, voei nas asas de sua gaivota e na metáfora de Leda Selma.
Obrigado pela aula, corrigindo este escriba apressado e desatento!
No mais, estou muito feliz por juntá-los aqui.

Mara Narciso disse...

Muito bonita essa amizade de 50 anos. Admiráveis poetas, todos juntos numa mesma turma e ainda juntos na vida e na poesia.

Mário Alberto Campos disse...

Amigo Luiz, foi com muito orgulho e felicidade que vi sua crônica deste domingo. O soneto do Taveira é 10! E, verdadeiramente, li meu poema com um jeito crítico e, sem modéstia, o achei bom. Me senti triste só com uma delcaração minha: foi o último poema que escrevi e por isso, pra não morrer desconhecido, dividi-o com você. Isso foi há uns 20 anos. Quem sabe volte a escrever umas crônicas que, às vezes, escrevia, tbém em papel de pacote de cigarros, quando estava em um boteco, saboreando uma loira bem gelada e ia flutuando por minha imaginação afora!
Um grande abraço ao Taveira! Diga-lhe que ele é um grande poeta e deve continuar a escrever e enviar pra você alguns de seus poemas para que sejam publicados de vez em quando. Ele, de fato, merece. Taveira e eu fomos colegas de Ateneu D. Bosco e disputamos quem seria o orador de nossa turma da 4ª série A do ginásio para concorrer com um outro orador da 4ª B. Desnecessário dizer que ele ganhou!!! E mais uma vez te agradeço a publicação. Fiquei todo "cheio"! Abraços de seu irmão, Mário.