Era 1963... Já contei algumas vezes sobre esse
tempo, aquele agosto da minha chegada a Goiânia. Vinha do Rio de Janeiro, onde
vivi dos 10 anos até as vésperas do 18º aniversário. Fui bem recebido nos
primeiros minutos, naquela turma de primeiro ano clássico; mas as boas-vindas
desapareceram feito mágica quando eu informei que era goiano.
Contei, já, nas minhas incontáveis crônicas, dos
poetas daquela pequena turma. Naquele mesmo ano, em dezembro, Ciro Palmerston
estreou em livro; em seguida foi a vez de Emílio Vieira... Ah, não vou falar
neles desta vez! Fazer poemas, numa turma de clássico, nos tempos anteriores ao
golpe de 1964, era algo um tanto corriqueiro.
Vejam, leitores, que consegui obter poemas de
dois dos meus amigos de meio século – Francisco Taveira e Mário Alberto
Campos. Vamos ver o de Francisco José Taveira. O soneto é Gaivota:
Sê
paciente, mas nem tanto
Que se faça eterna tua espera.
Apressa-te, estanca o
pranto.
Sorri, e vive a primavera.
Voa,
gaivota intensamente,
Voa gaivota os sonhos teus.
Que seja teu inteiramente
o espaço entre ti e Deus.
Deixa
no rochedo batido
de tantas vagas a espuma
das tormentas e vendavais.
Liberta
teu grito contido;
que brilhe mais a tua pluma!
Voa e ama muito mais...
![]() |
Mário Alberto Campos: a saudade é Musa... |
“Amigo Luiz, no dia em
que estava pegando todas as coisas à toa que a gente vai guardando pela vida a
fora, encontrei, talvez, o último poema que devo ter feito. Ainda da época da
Casa Portuguesa, com certeza! Prá não ficar com ele só prá mim, vou dividi-lo
com você:
Pego este verso
Transverso
E escrevo.
E penso que
volto,
Revolto,
Aos ares de Portugal.
Coimbra de lembranças,
Sem bichas
Nem fichas,
mas com Moeda
E Santa Justa.
Justa Santa como a terra,
que soterra
e enterra,
mas que floresce e nasce.
Nasce de amores
e
espalha flores
nos campos e arredores.
Arredores de mim
que envolvem,
enfim,
o meu Portugal!
Que saudades que sinto!
Abraços de seu irmão, Mário".
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Rua da Moeda - Coimbra, Portugal |
Moeda -
A rua da Moeda, onde meus avós maternos moravam e lá morei durante um tempo,
com minha saudosa mãe e meu irmão depois que meu pai veio, em 1951, para este
maravilhoso Brasil.
![]() |
Igreja de Santa Justa, Coimbra |
É... é de nós: saudade e poesia, pilastras
gêmeas a sustentar amizade!
(E por ser de Portugal, onde se lê “bichas”
entenda-se “filas”).
6 comentários:
Que crônica mais linda, Luiz, cheia de colorido e graça. Seus amigos escrevem muito bem, fazem poemas que nos pegam pelas mãos e nos levam para lugares de sonhos. Meus parabéns pela excelente postagem.
É impressionante como pessoas iguais a nós, que têm alma de poeta, nariz de poeta, sentem
a poesia em tudo. Belas lembranças!
Que perfume de coisas inodoras!
Vozes veladas, veludosas vozes, volúpias de violões, vozes veladas...
Essas são as vozes que ouço em sua crônica : O doce saudosismo,
a amizade, a poesia.
O verso acima é de Cruz e Sousa mas...as assonâncias, as aliterações,
as sinestesias oriundas das sensações auditivas sentidas no doce da
saudade,( esse idiotismo só nosso) é da sua alma e de todas as almas
que se deleitam com o conteúdo das suas inspirações.
Bjos. Jô Sampaio
Amigo Luiz de Aquino:
Os versos de "Gaivota" são todos octassílabos, inclusive o que corrigi para " Sorri e vive a primavera" e que você enquadra como redondilha maior. Respeito-o, mas não concordo com o "poetariado de alhures e algures". Se melhor não fiz é porque melhor não sou. Sua crônica do próximo domingo faz referencia ao Mario e a mim, além do Ciro e do Emílio. Quanto ao uso de "ti" ao invés de "tu", em nome da sonoridade, ou de apelo à liberdade poética, confesso que não sou tão corajoso assim, apenas obediente ao vernáculo que nunca permite o uso do pronome pessoal do caso reto após preposição. Se há uma diferença entre mim e ti é porque um é apenas escrivão enquanto o outro é escritor laureado. Um fraternal abraço do colega e amigo
Minha mão à famosa palmatória... Dois cochilos: no que tange à métrica, por observar erroneamente a silabaçáo do poema (correçao procedida, meu querido Poeta-Tabeliáo) e no que concerne ao uso de ti em lugar de tu. Inadvertido, voei nas asas de sua gaivota e na metáfora de Leda Selma.
Obrigado pela aula, corrigindo este escriba apressado e desatento!
No mais, estou muito feliz por juntá-los aqui.
Muito bonita essa amizade de 50 anos. Admiráveis poetas, todos juntos numa mesma turma e ainda juntos na vida e na poesia.
Amigo Luiz, foi com muito orgulho e felicidade que vi sua crônica deste domingo. O soneto do Taveira é 10! E, verdadeiramente, li meu poema com um jeito crítico e, sem modéstia, o achei bom. Me senti triste só com uma delcaração minha: foi o último poema que escrevi e por isso, pra não morrer desconhecido, dividi-o com você. Isso foi há uns 20 anos. Quem sabe volte a escrever umas crônicas que, às vezes, escrevia, tbém em papel de pacote de cigarros, quando estava em um boteco, saboreando uma loira bem gelada e ia flutuando por minha imaginação afora!
Um grande abraço ao Taveira! Diga-lhe que ele é um grande poeta e deve continuar a escrever e enviar pra você alguns de seus poemas para que sejam publicados de vez em quando. Ele, de fato, merece. Taveira e eu fomos colegas de Ateneu D. Bosco e disputamos quem seria o orador de nossa turma da 4ª série A do ginásio para concorrer com um outro orador da 4ª B. Desnecessário dizer que ele ganhou!!! E mais uma vez te agradeço a publicação. Fiquei todo "cheio"! Abraços de seu irmão, Mário.
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