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segunda-feira, novembro 14, 2011

Jardim da moreira


Jardim da moreira (Rua 24, 58 – Centro)


A palavra sempre nos soa apenas como um sobrenome. Quando a vi designando uma árvore na Rua 24, em Goiânia, era matéria de jornal em que alguns pioneiros e estudiosos da história local contavam que à sombra de sua fronde Pedro Ludovico, idealizador e construtor da nova capital do Estado, enquanto não dispunha de local apropriado, despachava com os auxiliares, ouvia informações e queixas, sugestões e pleitos, assinava papéis...

Pesquisei a palavra no Google, só encontrei sobrenomes; procurei em dicionários: No de Antenor Nascente, nenhuma referência; nem na Enciclopédia Barsa. O Caldas Aulete dá-me como variante de amoreira. Pensei na questão dos nomes impostos aos cristãos-novos e notei que nunca vi Amoreira por sobrenome – tal como temos Oliveira, Carvalho, Pinho etc. Mas Moreira, sim.

Bem, a questão, no caso, não é biológica, mas documental, histórica. A Justiça determinou cuidados em torno da árvore e estabeleceu restrições tamanhas ao imóvel que, certamente, seu proprietário deve lastimar o cerceamento, vejamos:

Atendendo pedido feito pela promotora de Justiça Gerusa Fávero Girardelli, o juiz Jeronymo Pedro Villas Boas determinou que os proprietários do imóvel localizado na Rua 24, nº 58, no Centro de Goiânia, patrimônio cultural do Município, sejam impedidos de fazer qualquer intervenção no imóvel em que está plantada a árvore moreira, também histórica. A decisão exclui apenas as intervenções de caráter restaurador ou conservador. Pela decisão, os donos do imóvel ficam proibidos de realizar qualquer atividade econômica no imóvel, incluída na vedação permitir a instalação de estacionamento de veículos no local. Ao Município de Goiânia, foi determinado que garanta, ininterruptamente, até solução final, a preservação da árvore, por meio de equipe profissional de seus quadros, com o conhecimento técnico que a situação requer. A equipe deverá emitir laudo sobre o estado de conservação da árvore, bem como das medidas adotadas para sua preservação. Foi fixada multa diária de R$ 1 mil em caso de descumprimento das determinações.

Ouço dizer, também, que a árvore está próxima de fechar seu ciclo de vida. Sabemos, é claro, que todo ser vivo nasce, cresce, envelhece, adoece e morre. Recordo que o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, criado em 1808, tem como ícone perpétuo a alameda de palmeiras imperiais ali plantadas, inicialmente, por Dom João, o príncipe regente que arquitetou a independência do Brasil. Há dois séculos, pois, essas palmeiras teriam desaparecido, não fosse o cuidado dos administradores do belíssimo horto no sentido de repor as que caíssem.

Caso isso não ocorra, fica aqui a minha sugestão – ou pedido – para que a Agência Municipal do Meio Ambiente cuide de obter mudas da discutida e agora tão amada árvore-palácio. E por bem há que se plantar duas ou mais mudas no mesmo terreno, visando a continuidade, sempre, de ao menos um exemplar no terreno.

Outra sugestão indispensável, e inadiável, dirijo-a diretamente ao prefeito Paulo Garcia, homem sensível e amante desta cidade, e por isso orgulhoso do breve passado que cabe a todos nós preservar. A Municipalidade deve, com urgência,  desapropriar o terreno, a bem do interesse público, e interferir no sentido de preservar a histórica moreira, instalando ali um jardim simples e bonito, ornamentado com uma mesa e a estátua sedestre de Pedro Ludovico. Sim: mais uma estátua do fundador, agora em tamanho natural e na pose em que, desde o início, deviam ter concebido a honraria. Pedro a cavalo é momento fortuito, casual; sentado, representa melhor seu quotidiano.

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2 comentários:

Luiz Delfino de Bittencout Miranda disse...

Amigo Poeta.
Só você mesmo para vislumbrar Goiânia com suas histórias e estórias tanto quanto suas curiosidades e que serve de alento a este amante da mais aconchegante capital... Abraços

Mara Narciso disse...

Aqui há uma maravilhosa árvore centenária, no meio da rua, e tombada pelo patrimônio. É uma sibipuruna, me parece(sempre achei que seria uma figueira). Há ainda a Praça dos Jatobás, nome dado de forma afoita, antes dos pés se adaptarem às mudanças do rio, para dentro de uma avenida. Resultado: morreram todos, cerca de dez exemplares dos dois lados do asfalto. Mas o nome ficou, como local de feiras de automóveis, desfiles, carnavais e outros barulhos. As pessoas pediram tanto, que vencidos,os políticos decidiram-se por plantar novos pés de jatobá. São novos, mas já estão engrossando o talo. E que persistam e sejam renovados. Ótima ideia de renovação do ciclo vital desses seres vivos vegetais, Luiz.