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quinta-feira, novembro 17, 2011

A vida, as mãos, o violão


Na Academia de Letras e Artes de Caldas Novas (foto: Portal Caldas).

A vida, as mãos, o violão


“Meu pai é simples – fala pouco / e pouco escreve. / Ele, quando toca, me toca. // É um anjo, meu pai”. Assim conceituei meu velho Israel de Aquino Alves, o intervalo entre mim e meu xará mais próximo – o Vô Luiz de Aquino Alves. Israel; Rael, Raé, Tii Rael... Apelidos carinhosos nas corruptelas de um nome!

Israel, meu pai, velho guerreiro: 1922/2011.
“Meu pai tem mãos de amaciar violão”, escrevi um dia, há quase vinte anos. Não sei quantas vezes memorei os versos desse poeminha, que abriu meu livro Razões da Semente, no século passado. Curiosamente, citei pessoas que, para mim, marcam bem a época de concepção daqueles versos: 1993. Mas somente neste 17 de novembro de 2011, três dias após a última despedida, dei-me conta de que sempre conheci meu pai pela habilidade de sua mão esquerda a pontuar as cordas no braço trastejado e festejar o som com a destra.

Edmar, Eliane, Israel, Lilita, Auxiladora; sentados, Ângelo e Luiz (em 1993).

Meu pai, sua mão e violão. O pinho, como metaforicamente poetizam os boêmios das madrugadas, em bares aconchegantes ou em inesquecíveis serenatas ante janelas sagradas de musas angélicas – ou fogosas raparigas de carícias e desejos. O violão, para mim, teve sempre a sacralidade de um templo e o poder mágico de despertar alegrias, amores, poemas – uma contínua felicidade! Não foi em vão que Cartola referiu-se a ele como “bojo perfeito”, em sua imortal “Cordas de aço”.

Padre Alcides (celebrante) e meus pais nas Bodas de Ouro, em 1994. 

Em minha memória, a primeira serenata tem lugar de honra, na mesma distinção do primeiro beijo. Aquela serenata, imagino que nos primeiros meses de 1950, teve o violão de meu pai, o sax de Zé Pinto e a minha voz muito infantil; afinal, eu tinha apenas quatro anos. A calça curta, a camisa azul, os cotovelos grudados no corpo, as mãos postadas sobre os lábios, defendendo-me de um friozinho persistente, as ruas de Caldas Novas iluminadas precariamente por lâmpadas comuns, incandescentes, nos postes de aroeira...

Israel com Marcos Faria (amigo? Ah, virou filho!). Foto: Portal Caldas
Ao voltarmos, minha mãe nos esperava com um lanche oportuno; constatei depois que era a rotina – meu pai esticando canções pelas janelas amigas e minha mãe a esperá-lo. Ele vinha sempre com alguns companheiros e minha mãe lhes servia muitas vezes bolos e quitandas, ou mesmo um providencial jantar que determinava a tocata madrugada adentro, até que o sol determinasse o fim da farra.

Separamo-nos quando dos meus dez anos; fui viver longe, estudar, adolescer, mudar a pele e a voz, criar ideias novas, novos hábitos – mas jamais perdi o gosto pelos tons de violões, o apego àquelas saudosas valsas e canções... E uni a elas a nascente bossa-nova, depois a MPB das décadas de 1970 e 80. A esse tempo, aprendi a acasalar, num processamento para mim dos mais felizes, o prazer da música com a alegria dos textos. 


Dona Lilita, minha mãe:parceria de 60 anos 
Minha mãe, Dona Lilita, musa dele e minha mestra, foi-se antes, em 2004. Tinha 80 anos. Meu velho pai guerreiro atingiu a marca de 89 anos, lúcido e bem-humorado. Há poucas semanas, no aniversário de uma amiga – Edith Ala – resistiu ao chamado para ir embora; queria invadir a madrugada, tirando acordes ao violão, como sempre...

“Dedos ágeis esses teus, meu pai. / Trazem sons que lembram cores / em manhãs de flor e sol, às vezes”. É outro poema, ainda mais antigo... Que continua assim:

“Olha, meu Pai, eu não preciso / um mero domingo em agosto / para te falar de coisas simples / cristalinas e fáceis / (como este sempre envaidecer por ser teu filho)”.  E termina com um apelo:

      Toca outra valsa, meu Pai!


Adeus... A Deus, meu pai!

* * *


20 comentários:

Luiz Delfino de Bittencout Miranda disse...

Sem muitas palavras meu poeta maior.

A Deus, ao pai.
ao Pai, a Deus...

Saudade meu bom amigo...

Abraço fraterno

Adriano César Curado disse...

Que posso escrever diante de uma postagem linda como essa?! Limito-me a dizer que fiquei emocionado, mas não triste. O momento é de alegria, pois esse bravo guerreiro subiu no altar da vida de cabeça erguida. E assim sempre será lembrado. Homenagem perfeita e maravilhosa de um filho poeta ao pai seresteiro.

Sinvaline disse...

Amigo chorei ao ler sobre seu pai... Tem toda razão de ser e existir o filho sensível que voce é, ele foi e é um grande pai...
bjs

Vânia Moreira Diniz disse...

Luiz querido
Sinto muito, muito mesmo.
Sei como é doída a partida de nossos entes queridos.
Todo o meu carinho de coração
Beijos
Vânia

Mirian Oliveira disse...

Luiz...
Estou chorando de emoção.
Por você. Por ele. Por mim.
Sei como dói perder um amor assim.
Um abraço forte
Mirian Oliveira

Mara Narciso disse...

Não sei como foi, mas alguns adeuses são piores, outros até necessários. Minha mãe se foi aos 68 anos, depois de uma doença relâmpago, e meu pai se foi aos 79 anos, depois de um calvário. A dor queima, depois esfria e fica uma saudade. De todo modo é horrível. Como você conseguiu escrever tão bonito? Meus pêsames, Luiz!

Vivi disse...

Como disse no e-mail: Que bom que Seu Israel nos deixou um tesouro que é você! Linda homenagem Luiz. Somente sabem e sentem a dor de uma partida aqueles que sobreviveram a uma...
Beijos e fica com Deus meu querido.

Vivi

Elizabete Cantuária disse...

Querido amigo, meus sentimentos. A partida de um amigo já é muito difícil, mais difícil ainda quando este amigo e alguém de quem gostaríamos de nunca nos separar dele.
Mas a vida tem dessas coisas. É a lei. Sei que vc superará. O tempo fara isso. Com grande carinho te mando meu abraço amigo.

Leda Selma disse...

Ei, Luiz, que lindos textos! Não contive as lágrimas, pois sua sensibilidade cutucou-me fundo a emoção, perfilando lembranças e remexendo saudades.

Tudo bem com você? Tomara!

Hoje, 17, faz um ano e onze meses que minha mãe divinizou-se. Neste dia 18, ela faria 91 anos... Rezaremos um terço em sua antiga (e sempre) casa, às 19h30min, como ela sempre fazia para comemorar a data. Rezarei também por seu pai.

É isso, meu amigo, vão-se os entes amados e ficam as lembranças e saudades como fertilizantes da alma.

Clara Dawn disse...

Amigo Luiz,

Receba em forma de palavras meus reais sentimentos em relação a sua dor. Sinta-se, por mim, abraçado e que a graça de nosso Deus lhe cubra de conforto e acalme o seu coraçãozinho.

Texto emocionante!

Fica bem!

Amo a sua existência!

Clara

Antonio Lessa disse...

Meus sentidos pêsames, caro amigo Luiz de Aquino; há um vazio em sua alma com a perda de seu amado pai. A vida é um caminho de mão dupla, a gente vem e a gente vai na trilha da fé e da esperança. Há o consolo de que, pela conduta de seu Israel, como grande exemplo humano, ao lado da esposa e dos filhos, Deus há tê-lo no Paraíso, sempre e eternamente. Fé, amigo, é a Palavra!

Eliane Alcantara disse...

Deus está em festa com a presença do seu pai, meu amigo, embora a falta, eu sei, ainda doa aqui. Meus sentimentos aos familiares e uma oração por todos.

Luiz Poeta disse...

Do seu pai fica principalmente um abençoado legado para todos nós: a excelente pessoa e poeta que é você.

Thiago Martini disse...

Do seu pai fica principalmente um abençoado legado para todos nós: a excelente pessoa e poeta que é você.

Maria do Rosário Cassimiro disse...

Caro amigo Luiz. Estou, já há uns dois dias, querendo falar com você. É aquela alegoria do barco que a gente vê saindo de um porto, vai indo e sumindo no horizonte até desaparacer. É aí que ele, o barco, já está chegando ao outro lado, ao lado do seu destino à vista de outras pessoas. Só que a gente não o vê mais. Lá, do outro lado, ele, o barco, vai chegando ao que a Igreja chama de "visão beatífica". É o que aconteceu com o seu pai. Está junto à visão beatífica, junto de Deus. Fica você também com Deus. Abraços fraternos de sua amiga MRCassimiro.

Sueli Soares (Magé, RJ) disse...

A lembrança do pai que com dedos mágicos produzia sons metálicos, encantando o filho... Filho de memória privilegiada e de palavras que fluem... Amiga que de longe se emociona...

Anônimo disse...

Caro Poeta Luiz de Aquino,
Quero externar meus mais sinceros sentimentos a você e sua família neste momento. Eu sei muito bem o que é o tamanho de uma perda como essa. Após perder meu pai, passei muitos dias olhado pro céu, olhando pro celular e quase
ligando como fazia sempre pra ele, nem que fosse pra ouvir somente um inesquecível "como vai filho?". Não pude mais fazer isso, não pude mais abraçá-lo, não pude mais
dizer que o amava, não pude mais sentir aquela felicidadezinha de saber que ele estava ali vivinho. Mais a vida é continuação, sempre, caro Luiz. E nós somos a continuação deles, como nossos filho também o são. E, assim, Deus poderá iluminar seu caminho, nobre Poeta, e você, sendo a continuação de tudo de bom que seu pai representou na sua vida.
E Israel de Aquino era uma grande luz em Caldas Novas, uma grande luz que vinha acompanhada das belas notas musicais do seu bandolim e do seu violão. Israel de Aquino não morreu, ele é imortal da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas! Não morre mais! É luz santificada pela música viva!
Alejandro Arce Mejia

Suzana Alde disse...

Meu caro Poeta Luiz de Aquino, aceite meu abraço de puro afeto nesse seu momento de despedida. É difícil, doído, bem sei, mas agradeço-lhe dividir conosco a sua dor na arte virtuosa e ensinamentos de seu querido Pai.

Edmar Oliveira disse...

Aquino, receba meus sentimentos e de minha família. Imaginamos sua dor. Foi uma grande perda. Mas preciso ressaltar que até em momentos como esse, de tristeza e saudade, quando poderíamos supor você sem forças para digitar belas palavras, fomos surpreendidos por mais um lindo texto de sua autoria, amigo. Escrito com a alma. Um grande abraço, amigo. Que Deus lhes console.

Urda Alice Klueger disse...

Que lindo e que triste, companheiro! E que privilégio ter um pai de 89 anos! O meu partiu tão cedo, aos 62...
Grande abraço,
Urda.