Aos
mestres
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Oração aos mestres... |
Discurso meu em homenagem aos
professores, na
solenidade de entrega do “Prêmio Mais Admirados
da Educação em Goiás 2011”, em 8 de novembro
de 2011, por iniciativa da Contato Comunicação.
solenidade de entrega do “Prêmio Mais Admirados
da Educação em Goiás 2011”, em 8 de novembro
de 2011, por iniciativa da Contato Comunicação.
Neste
mundo pós Herbert Marshall McLuhan, unificado pelo entendimento quase que
universal da pobre língua inglesa, tempo de mercado globalizado e de uma
intrigante facilidade de intercâmbio cultural, mundo em que o tráfico das
moedas substitui sem constrangimento os valores que as sociedades priorizavam meio
século atrás, que motivos sustentam o ideal dos jovens para a corrida de
revezamento do ensino e do aprendizado pelo envolvimento pessoal?
Nós,
os do após-guerra, os das turbulentas décadas de 1950 e 1960, vivemos infâncias
sob a pressão da educação antiquada, a que exigia respeito aos pais e avós, aos
tios e aos irmãos mais velhos e, indiscutivelmente, respeito aos professores.
Soubemos exercer aquele respeito sem que a submissão aos mandos nos
humilhassem. E soubemos respeitar os professores sem prejuízo do aprendizado.
Talvez por isso, muitos de nós sonhamos, sim, com o nobre ofício do ensino em
salas de aulas e, por extensão, em campos e laboratórios.
Eu
escolhi o ensino. Mas vivíamos uma ditadura, e uma professora enciumada do meu
sucesso com os alunos, cuidou de unir-se a um pretenso professor dedo-duro,
valendo-se do clima do arbítrio para induzir-me, pela pressão política e
econômica, ao tão difundido desvio de função. Por não poder ensinar como
professor, migrei-me para a prática das letras de literatura e de jornais.
O
ímpeto do ensino, porém, é como vírus resistente. Jamais me afastei das escolas
e dos estudantes. Nunca me constrangeu o vocativo professor, mas rejeito com
veemência e indisfarçável mal-estar o tratamento de doutor, expressão por
demais vulgarizada em todos os meios, a ponto de os doutores verdadeiros
preferirem o tradicional tratamento dado aos que ensinam. E os verbetes
professor e mestre resumem-se como dos mais dignos e excelsos tratamentos.
Os
que detêm o poder de estipular salários, infelizmente, de tudo fazem para
aviltar o tratamento – e agora não me reporto ao vocativo, mas aos
contracheques dos finais dos meses. No distante 1968, o ano em que iniciei o
que sonhava ser a minha carreira principal, descobri que alguns profissionais
tinham remuneração diária igual àquela que nos era dada ao mês. Hoje, aqueles
das grandes pagas ganham ainda muito mais que os valores corrigidos de quarenta
e poucos anos passados, mas os professores continuam restringidos ao piso de
dois salários mínimos ao mês.
Aquela
senhora professora que aliou-se ao dedo-duro travestido de ensinante no
comecinho da década de 1970 fez-me um favor enorme. Por sua atitude, tornei-me
jornalista e escritor de livros, pois a poesia já vivia em mim. Não fiz fortuna
– professores e jornalistas não existem para fazer fortuna; nem os poetas.
Somos feitos para fazer pessoas, seja na transmissão do conhecimento, seja na
demonstração dos nossos exemplos, seja na arte do verso e na arquitetura dos
sonhos que geram contos e romances, seja no tratamento das notícias de modo a
permitir a construção da opinião pública.
Não
existimos para constituir patrimônio material; nossa meta é o homem de bem, o
cidadão respeitável, a consolidação dos itens da cultura do povo a quem
servimos. Quando gritamos por melhores salários e mais condição de trabalho,
queremos ensinar com a certeza de que há comida na geladeira, há sapatos e
roupas para os nossos filhos e que desejamos ainda respeito e paz para que
possamos continuar fortalecendo a cidadania e construindo homens de bem, ainda
que filhos dos que, por vezes, posam de nossos algozes.
Como
se vê, há inúmeras afinidades entre o repórter e o professor. E a poesia, ponte
sólida entre os meus ofícios da sobrevivência, é a cor do arco-íris, é a
temperatura do lago e a música da cachoeira, a nota forte no contra-baixo das
ondas a quebrar na praia.
Nenhum
dos que se tornam cidadãos evoluiu sem o concurso dos mestres, em alguns
momentos citados como regentes de classes. Por analogia, e tentando aprimorar,
digo-lhes eu que são maestros de almas. E a esta altura da vida, feliz por ter
vivido tanto e com tantas provações e vitórias, agradeço a Deus por me fazer
gente, pelas oportunidades das boas escolas e dos bons mestres, dos alunos que
me sorriem após quarenta e tantos anos do nosso convívio. Agradeço a Deus pela
poesia, pelas informações colhidas e divulgadas, por todos os passos e etapas
percorridos até os diplomas, os empregos, os salários, as pagas de vários
nomes, os versos concebidos e os livros publicados.
Mas
principalmente agradeço a Deus pelos professores que encontrei pelo caminho e
que fizeram por mim o que vocês, mestres de agora, fazem pelos meninos e moços
deste tempo.
Sei
que Ele lhes dá sempre Suas bênçãos.
***
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Entreguei um troféu de "Mais admirado" à profa. Terezilda, diretora do meu Lyceu de Goiânia. |
5 comentários:
Sobre o seu Discurso aos Mestres, crônica do próximo domingo, concordo plenamente com suas homenagens justas e até me sinto lisonjeado, pois também, por 11 anos, laborei com meus alunos e aprendi muito. Somos, amigo e companheiro, também tijolo e argamassa do nosso edifício social. Meus parabéns e meu abraço. Taveira
Caro Aquino, brilhante texto. Emotivo. Parabéns. Abraços, Pedro.
Também agradeço a Deus, pela oportunidade de ter abraçado o professor/poeta/ jornalista. Que Ele o abençoe sempre!
Sabe meu primo POETA... que honra ler este texto e agradecer a Deus por ter como paixão esta profissão e ser reconhecida pelas lindas palavras poéticas de um grande artista como vc...Agradeço tbem em nome dos que não tiverem a oportunidade em ver esta MARAVILHA...
Li sua excelente crônica.
Amigo, creio que, dos nossos passados, temos algo em comum - alvos de inveja e implicância sem claras justificativas.
Suponho que meu caso foi bem mais drástico e complexo do que o seu. Que pares, ou alguns subordinados - os de índoles animalescas - sintam inveja e ímpetos de ataques sobre o invejado é até aceitável. Mas ser destruído por inveja e despeito de crápulas portadores de status bem mais elevado... isso já não é animalidade, ultrapassa as raias da monstruosidade. Entretanto, existem casos assim - e todo o estrago que causam às suas vítimas fica por isso mesmo, dado o corporativismo existente entre essas unidas bestas humanas, que infestam todos os ambientes e instituições de regimes tirânicos, de ontem, hoje e sempre.
Vejamos - atualmente, o conceito de q tudo vai maravilhosamente bem se resume nos índices de tributos arrecadados. Do caos na educação e da bestial criminalidade crescente nenhuma preocupação, lá por cima. Nada dizem.
O motivo é simples: essa situação não os afeta. Pelo contrário, o pavor do rebanho desarvorado, preocupado com a própria segurança física, facilita a descarada ação dos corruptos e seus chupa-meias, que manipulam os cofres públicos dos três níveis estatais, paralelamente aos achaques e chantagens que praticam.
Até!
J. Martines Carrasco
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