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sexta-feira, dezembro 02, 2011

Privatizem a Educação!


Lyceu de Goiânia: A Prefeitura náo conclui a calçada, o Estado náo valoriza a história do colégio tradicional

Privatizem a Educação!


Alinho-me com os defensores da educação pública e gratuita, em todos os níveis, desde sempre, quero dizer, desde que cursei a Escola Pública (nome que se dava ao Grupo Escolar no Distrito Federal do Rio de Janeiro), o Colégio Pedro II e o Liceu de Goiânia (no meu tempo, apelidado oficialmente de Colégio Estadual de Goiânia).

A Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Goiás – hoje, Pontifícia Universidade Católica de Goiás – foi uma escolha livre, orientada pelos meus professores de Liceu. Naquele momento, e ainda que a Faculdade de Filosofia (hoje, com as devidas mudanças, Faculdade de  Educação) da Universidade Federal de Goiás estivesse do outro lado da Praça Universitária, havia, sim, a nítida preferência pela metodologia dos padres jesuítas que dirigiam aquele centro de formação de professores para o Ensino Secundário (ginasial e colegial).


Naquele tempo, as décadas de 1960 e 1970, professor era profissional respeitado. Naquele tempo, estudar em escola pública, sobretudo nos níveis primário e secundário (tudo o que antecede a universidade) era nobre – a escola privada era para o aluno relapso (aquele que não conseguia passar em exames de admissão e de seleção).

Aí, veio a famigerada Lei nº 5.692. A ditadura dava um golpe de misericórdia no ensino, que não ia lá muito bem, mas piorou o bastante para depreciar de vez o ensino público. Quem lucrou com isso? Ganha um pirulito quem marcar um X ao lado de “Donos de escolas particulares”. Incluam-se aí as redes religiosas – católicas e protestantes – e os barões do ensino. Um cursinho de São Paulo espalhou-se pelo Brasil afora (ou adentro, tanto faz), instituindo no sistema de ensino as franquias, tal como ensinavam fabricantes internacionais de refrigerantes e outras marcas menos populares.


O que viram os quadros-de-giz nas escolas públicas

Dói no coração de qualquer ex-aluno do Lyceu de Goiânia (agora, com Y; mas a gente escrevia Liceu) ver o prédio histórico e seus muros agredidos, sempre sujos de lama e marcas de pichadores. O prédio da Rua 15, construído por Mauro Borges e inaugurado por Ribas Júnior, é o que mais sofre: até os quadros-de-giz são pichados.

Recentemente, participei de momentos literários em três colégios de Goiânia – o estadual Waldemar Mundim, no Jardim Guanabara; e os municipais Geralda de Aquino, na Cidade Jardim, e Trajano de Sá Guimarães, no Parque Amazônia. Três escolas muito diferentes do Lyceu... Na Trajano e na Waldemar Mundim, não vi a marca dos vândalos; na Geralda de Aquino, aonde fui numa noite, não tive tempo para observar esse detalhe, mas se o tem é de menor escala, não me feriu os olhos (nem o coração).

O Colégio SESC Cidadania, em Goiânia.
O Estado tenta escapar da pecha de péssimo gestor de ensino investindo em colégios cedidos para a gestão da Polícia Militar. Nada contra, pois instituições como SESI e SESC mantêm excelentes escolas (meu filho Lucas cursou o que chamo de antigos ginasial e colegial no SESC Cidadania; estou muito feliz por isso, e nesta última semana ele e seus colegas despediram-se do colégio do Jardim América com indisfarçáveis emoções ); congregações católicas e denominações protestantes já são tradicionais no ensino brasileiro. Mas das polícias militares – e não restrinjo isso apenas a Goiás – esperamos segurança; mantenha ela seus colégio, mas é absolutamente necessário que a Educação seja gerenciada e aplicada pelo sistema de Educação – Ministério da Educação e Secretarias estaduais e municipais do ramo.

Mas – repito – o Estado (nos três níveis) tem se mostrado incompetente ou, ao menos, muito despreparado para cumprir o dever de casa. Sendo assim, e usando o argumento do sistema de telefonia, entre outros, que o Estado brasileiro desista de gerir escolas; privatize tudo e crie uma versão para os ensinos pré-escolar, fundamental e médio de modo a assegurar a presença de todas as classes sócio-econômicas no sistema nacional de ensino.

Há mais de 50 anos acompanho as lutas pela qualidade de ensino. Existem ilhas de excelência até mesmo na rede pública (vi o empenho e a alegria de estudantes e professores das escolas Waldemar Mundim, Geralda de Aquino e Trajano de Sá Guimarães, entre outras a que tenho comparecido), mas existem a perseguição pessoal e(ou) política aos que tentam oferecer algo de diferente em alguns educandários (que triste! Neste particular, tenho de citar o meu Lyceu).

O que tenho visto é um certo bem-estar do professorado da rede privada e a incontrolável angústia que predomina entre os mestres da rede pública.

Então, senhores políticos descompromissados com o futuro: assumam sua intolerância para com o certo e saiam do armário dos covardes: privatizem! E, de preferência, nos setores de cultura e educação, confiem nas instituições classistas fora do sistema oficial, como SESI e SESC. Professores são formados nas mesmas escolas, seja para o ensino público, seja para a rede privada. Mas o poder público, no que tange à Educação, está falido. E professor só é desvalorizado se empregado da rede pública.


* * *

8 comentários:

Mirian Oliveira disse...

Sua crônica de hoje está fantástica!!!
Vou repassá-la para meus contatos.
Brigada, querido.
Beijinho com carinho...
Mirian

José Martines Carrasco (Sorocaba, SP) disse...

Bom amigo, Luiz de Aquino, li mais essa sua oportuna e bem elaborada crônica.
Tudo verdade, tanto aí, quanto nesta e em muitas outras cidades por onde tenho passado.
Escolas de excelente padrão de ensino e conceito, em tempos idos, nesta Cidade, atualmente, tbém estão transformadas quase que a escombros borrados por criaturinhas que parece já nascerem delinqüentes.
A degradação ética, comportamental, o crescente e exagerado desleixo com a indumentária, cabelos parecendo jubas inusitadas; a própria pele transformada em bisnagas de tinta, botoques (com nome estrangeiro) atravessados nos beiços, narizes, orelhas; argolas nos umbigos, clitóris, nos bilaus a cada geração mais inúteis... hehehehehe... A audácia de transformar os templos de ensino em pardieiros de viciados; porradas e agressões a professores; assassinatos dos pais para meterem a mão na grana... fóruns do judiciário abarrotados de processos, porque ninguém cumpre nada do que trata e por tantos processos correndo por abuso de autoridade de governantes e funcionários públicos,,,
Barrabás! Onde essa crescente onda de loucura vai parar?
Tenho passado por alguns países vizinhos. Há pobreza, sim!, mas não tem sido causa a tanta degradação e inversão de valores. Na mesmo embalo de degradação social desta Terra de Santa Cruz só um ou dois países da América Central.
Consoante a você, também tenho esquentado a moringa na vã tentativa de detectar a causa de tamanho puído no coletivo das gerações dos últimos 20 ou 30 anos.
Já cheguei até pensar na possibilidade de o dantesco fenômeno estar resultando de trombadas cromossômicas, na formação de grande parte dos fetos humanos deste País. Uma suspeita que não me agrada, pelo que almejo, dado momento, perceber equivocada essa suspeita.
O mais angustiante é que os que mais deveriam sentir intensa preocupação ante o tsunami social crescente, ao contrário, estão preocupados e felizes com a crescente arrecadação de tributos e mais tributos.
Estradas importantes sem pavimentação; outras de pavimentação em frangalhos; mais as necessitadas de duplicação por congestionadas, morosas, transformadas em máquinas de produzir defuntos; escolas, ensino e assistência à saúde em estados calamitosos... O que os bandidos que nos governam dizem é que não há dinheiro para suprir essas necessidades.
Mas como é que para ser roubado por corruptos há dinheiro sobrando? Como é que tem dinheiro para emprestar aos países que sempre tiveram por meta a dominação por meio de guerras, o enriquecimento por saques e estelionatos contra povos mentalmente retardados, sem poder defensivo?
Quem são os que estão sempre produzindo crises e mortandades, senão os próprios que estão pedindo grana emprestada?
Você, outros, muitos apontam para o desastre em andamento. Mas eles, eles, enquanto roubam, riem!
Então gargalho, também, uai, neste imenso picadeiro! hehehhh... Veja só minha batata vermelha em forma de nariz.
Meu querido poeta Luiz de Aquino, não há sistema emocional que consiga manter serenidade, diante de tantas patifarias.
Mas... existem coisas e fatos que me ajudam a sentir gozo pela vida. Por exemplo, às vezes, eu obter de sua preciosa atenção.

Abrço.
J. Martines Carrasco

Mara Narciso disse...

Aqui no norte de Minas, na década de 1970 as escolas públicas eram ótimas e os alunos passavam nos mais difíceis vestibulares, mal saiam delas. Os colégios de freiras e de padres não davam todo esse preparo, eram ditas "fracas" e alguns alunos mais esforçados também passavam no vestibular (meu caso). A Escola Normal (estadual) era excelente e tenho amigos que se formaram muito bem lá. Hoje os professores de escolas públicas ganham mais do que nas escolas privadas, no ensino médio. Em nível superior as públicas pagam mais. Entendi a sua ironia ao pedir a privatização das escolas(e nem estamos em governo do PSDB), mas não acredito que isso possa melhorar coisa alguma.

Marina disse...

Luiz, parabéns pela crônica, como sempre maravilhosa. Despertou em mim a saudade do Grupo Amarelo, dos olhos ávidos por aprender dos alunos do Colégio Estadual Joaquim Alves, aqui em Pirenópolis, onde estudei e ensinei. Querem acabar com ensino público ou será uma forma de discriminação? Seria a política de que o público não tem valor?

Heliany Wyrta disse...

A realidade é cruel! Sua crônica é totalmente verdadeira, mas tem um pequeno porém, quando você diz que o Estado tem se mostrado incompetente em relação aos assuntos educacionais, pelo contrário, amigo, extremamente competentes no plano de sucateamento da educação pública. Você sabe que muitos chefes, diretores, secretários educacionais são donos ou sócios de escolas e universidades particulares? Essa onda de degradação da escola pública é orquestrada justamente por quem ganha para torná-la melhor! A situação é realmente complicada, não?! Cabe a nós desmascaramos a pilantragem que se instalou na educação, por isso gritamos tanto, mas tentam de todas as formas calar nossa voz. Ridicularizam e tratam como baderneiros, professores que lutam para mudar essa realidade catastrófica! Sobre o privatizem a educação,o real problema é o sistema de governo viciado que vivemos. Imagina se o Congresso, as câmaras municipais e assembleias legislativas fossem fechadas, faria falta para a população?! Vai piorar nossa vida? Acredito que não! Eles servem para nada mesmo! E os Ministérios Públicos, servem para quê mesmo? Defender o cidadão e coibir a má gestão? Se acabar com isso vamos estar mais ou menos indefesos? Não! O problema do Brasil é que nada funciona como deveria e o povo é muito pacato! Sonho com o dia em que esse povo vai acordar e largar de ser besta e vai exigir o que é nosso de direito, somos maioria, uai!

Anônimo disse...

Prezado Luiz,

Pois é, da educação fala-se tanto e se
faz tão pouco... É algo de longo
prazo, que exige planejamento, acompanhamento
e valorização continuada dos profissionais
envolvidos.

Grande abraco, Eridanus
(http://ozonioazul-poesia.blogspot.com/)

P.S.: obrigado por seguir meu site.
tentei seguir o seu mas não sei de seu
certo...

Tania Rocha disse...

Caro poeta Luiz,

Sua crõnica carregada de preocupação ,indignação e um sentimento de desesperança é verdadeira e bastante pertinente.Mas eu ainda tenho uma utopia; quero e sonho com uma educação gratuita e de qualidade para todos,onde não precise mais existir a discussão sobre cotas nas universidades.Lamentável mesmo são os governos ,municipais ,estaduais e federal,persistirem no erro crõnico de colocarem à frente da pasta ,pessoas ,cujos critérios de escolha ,seja simplismente a necessidade de atender as bases politícas.Sabemos que existem em Goiás ,professores excelentes ,preocupados e altamente comprometidos com a educação . Porquê então não estarem à frente das decisões importantes para conseguirmos um ensino de qualidade,com escolas preparadas para mudar essa triste realidade descrita no seu texto?Não posso e não quero me conformar com a idéia de que não há solução e que a saida seja a privatização .O estado precisa e deve cumprir o seu papel social mais importante,ajudar a formar cidadãos que possam participar efetivamente de um futuro mais consciente e promissor em todas as áreas .
Abçs ,
Tania Rocha

Anônimo disse...



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