A
luz do dia chegou filtrada. Nuvens espessas, com espessura de quilômetros,
prometem assustar-nos com temporais. Por isso, e só por isso, os raios do Sol
negaram-nos o brilho sobre as cores das coisas, do azul de céu, das águas e do
verde, das ruas e das peles das pessoas (nos olhos, não; o brilho dos olhos
vem, quase sempre, de nós mesmos; vem de dentro).
Nada,
em nossa vida, é igual; nada se repete. Um dia é um conjunto imensurável e
indizível de fatos e imagens, de sentimentos e de sonhos e – vou repetir – nada
se repete. Nem mesmo o tom do bom-dia com que nos saudamos em casa, na rua, no
trabalho... Ao longo da vida, revisitamos lugares, revemos pessoas, renovamos
ações e gestos, palavras e pensamentos – mas tudo é diferente a cada instante.
É aquele sempre recordar Heráclito e sua observação sobre o homem e o rio.
Este
ano, 2011, dá-me a idade em que o algarismo 6 faz sombra, dobra-se para
reafirmar um sessentão; ou sexagenário. Reli livros, escrevi muita coisa –
sempre peças pequenas, nenhum compromisso com um grande livro, nada...
participei outra vez da coleção Goiana em Prosa e Verso, idealizada e realizada
pelo amigo e irmão Kleber Adorno, em parcerias nobres da Prefeitura de Goiânia com a Editora da PUC de Goiás e a Editora Kelps. Vi meu pai
despedir-se devagarinho da vida, até a apoteose na véspera do Dia da República
– mas vi nascerem filhos de muitos amigos, netos de avós felizes.
Preocupei-me,
mas ocupei-me muito; tive instantes, muitos deles, de apreensões, mas tive também
os de alegrias e regozijos. Como disse, lancei novo livro, escrevi em livros de
alguns amigos, fui citado em outros. Este 66º ano deu-me razões de sobra para
crer que a vida é linda!
Reencontrei amigos (bom te rever, Brasigóis! Goiás é sua casa, berço e lar, não
é mesmo?), descobri e revelei novos autores.
Deixei
de ir ao Rio de Janeiro para os encontros tradicionais de ex-alunos do Colégio
Pedro II. Estive muito poucas vezes no Liceu (Lyceu de Goiânia). A Pirenópolis
também não fui tantas vezes quanto era do meu desejo. Nada a lamentar – seria
injusto para com os prêmios que Deus me dá. E por não reclamar, sinto-me ainda
mais premiado: um telefonema de Fernando Antônio Castro Quinta, outro de Pedro
Dimas e mais uma festa acontece: um grande grupo de ex-alunos do Liceu –
adolescentes de 1970 – reúne-se para recordar. Convidam ex-professores,
escolhem a noite de sábado, 10 de dezembro, e o local é o Bartolomeu – do
também ex-aluno Pedro Vasco. Ouço dizerem que convidaram os professores da
época:
–
Todos aqueles alunos que você punha pra fora de sala estarão lá – informou-me o
Fernando Antônio.
Fiquei
ligeiramente apreensivo: será que pensam em vingança? Claro que não!, mas eu
não perderia a chance de brincar com isso... Bem! Eu gostaria muito de documentar
esse encontro, mas escrevo antes que ele aconteça, obviamente. Lembrei das
caras daqueles garotos e garotas, do uniforme em disciplina impecável, da
alegria do pátio, da inevitável ironia dos alunos... Tanta coisa linda e boa!
Hoje ostentamos rugas, cãs (cabelos brancos; explico porque a palavra é quase
desconhecida)... Aliás, e a propósito de cabelos, hoje somos pessoas de cabelos
brancos, cabelos tingidos e sem cabelos – mas o importante é estarmos felizes.
Por
me sentir assim, e evocando a águia que simboliza o colégio secular, escrevi:
Esses meninos sob a Águia...
Era um tempo de homens rudes,
mulheres doces - seres severos…
Tempo de nós muito jovens.
Sonhamos crescer, lutar... Quem sabe?
Alcançar liberdade – palavra
perigosa,
vigiada e guardada a chave.
Meninos grandes de uniforme bege e branco;
jovens mestres de
jaleco, pastas, livros
e giz ante o quadro escuro...
Quadro negro, quase sempre verde...
Lousa, massa e cimento
berço
de textos e contas – lições.
Calça cáqui, sapatos pretos, saias medianas;
meninas de meias
brancas, muito alvas
– rigor religioso, aquele!
No peito, a águia! Vigia solene,
asas abertas ao voo
viagem no tempo a vir!
E o sentimento de fé e sonhos. Marcamos:
– sine die, seja sábado e noite,
mas em quarenta anos (ao
menos).
* * *
Luiz de Aquino - moço professor de 1970, feliz outra vez entre vocês!
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Lyceu: nosso templo de aprendizado, lembrança imortal, berço de amizades... |
5 comentários:
Luiz, nobre escriba, que encanto pousar em suas linhas e sorver as delicias de suas letras. Lyceu... que canta em minha alma e faz das lembranças versos de tantos amanheceres. Me alegra o coração, poder fazer parte de seu tempo. Um grandioso abraço meu amigo!
Weder Soares)
http://retoquesdalma.blogspot.com/
Meu caro poeta Luiz De Aquino,
É linda sua crônica !!!!Não posso compreender vc poeta ,fora do convívio das salas de aula,vc tem alma de professor !!!Que lindo poema!!
Caro amigo,
“Outra vez sob a Águia” inicia soando magnífico poema-filosófico e se conclui com versos de lembranças e saudades.
É! é isso aí. É a força da realidade... A quem nasce artista, o sexagenário 6 pode produzir alguma sombra no tempo,
mas não ofusca o cetro do talento. Ao contrário, dos recônditos das décadas vividas emerge, a cada dia mais reluzente,
o manto do meu poeta, Luiz de Aquino.
Votos para que o mestre prossiga, por anos e anos, servindo-nos, com seus cálices de exuberante arte poética.
Saudoso abraço deste seu admirador,
J. Martines Carrasco
Rasgou minha alma com essas recordações, Luiz. Bateu fundo e deve ter mexido com muitos mais. Apareceu-me o meu querido professor Afonso Celso Guimarães, nome de rua, aqui perto de casa. Era professor de física e morreu de câncer no pulmão, naquele tempo em que não se ousava falar-lhe nem o nome. E mal havia uma quimioterapia genérica. Ele fumava Minister e eu também. Detalhe: ele me pôs para fora da sala de aula duas vezes. Explico: amava um colega, e estávamos atrapalhando a aula. Parabéns pelos recordos e que o encontro tenha sido tão lindo quanto a crônica e poema.
Brilhante, meu querido, inicia poeticamente, como sempre deveria ser, e depois fecha com um poema, que sintetiza uma promessa de uma época, talvez uma idéia para o agora:
“No peito, a águia! Vigia solene,
asas abertas ao voo
viagem no tempo a vir!”
Muito bacana. Espero que os inspiradores tenham lido.
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