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quinta-feira, dezembro 15, 2011

Educação em Goiás: "Muito barulho por nada"


"Muito barulho por nada" (*)


Divirto-me vendo jovens xingando-nos – a nós, os idosos – de velhos. Ninguém quer morrer… mas esses jovens, parece-me, querem viver muito e continuar jovens. Isso é tão impossível quanto uma mulher ficar meio grávida. Eu, particularmente, gosto muito da minha idade; sempre tive uma alegria enorme ao fazer aniversários e, assim, acumular informações que transformo em conhecimento. A isso, algumas pessoas chamam de experiências, e experiências podem ser as que nos são passadas (e que processamos) ou as que vivemos.

De todas as minhas experiências, orgulho-me, muito, das que adquiri no exercício dos trabalhos a que me dediquei, como profissional ou como amador. E ao longo da vida fiz-me, no início, cobrador de títulos, vendedor de livros em domicílios, bancário... E “escolei-me” para ser professor e jornalista, aprimorando o prazer de ler e escrever, de saber conversar e orientar os mais moços, tanto como professor quanto como pai, e como arauto dos fatos, na condição de jornalista em funções de repórter, fotógrafo e editor.

Ainda nos tempos de universitário e professor na rede estadual e escolas privadas, o salário “pró-labore” no Estado equivalia a 150% do salário-mínimo da época. Mais tarde, como jornalista, tínhamos um piso salarial equivalente a oito vezes a base salarial. Hoje, um professor é remunerado, na rede pública, com cerca de dois “mínimos”, ainda que, para ser professor, exijam o diploma de formação superior e aprovação em concurso público.

Por estes dias, o governo de Goiás anuncia, com muita pirotecnia (é uma metáfora, claro) que cumprirá o piso nacional para os professores – mas, em troca, revoga as gratificações por especializações e institui 10% a mais para quem tem Mestrado e 20% para os que têm Doutorado.

Eu li direito? Eu ouvi direito?

Estranho; estranho muito mesmo! Quanto custa, em prestações mensais, um Mestrado? E um Doutorado? (As maiúsculas são intencionais e dispensam explicações) E o custo pessoal, o tempo que se rouba do lazer e das obrigações familiares, não conta? Dois a três anos no Mestrado para acrescentar pouco mais de 130 reais no contracheque? Ou cerca de 250 pelos quatro a cinco anos de doutorado?

Estranho muito, também, as autoridades da Educação festejarem o fato de cumprirem a lei que manda pagar um piso. Deveriam cumprir isso silenciosamente – e sem cortar as gratificações existentes.

Festejam o fato de instituir-se em Goiás as eleições para diretores de unidades escolares. E falam em meritocracia – o que me parece antagônico. Nos distantes tempos dos diretores nomeados, havia, sim, indicações políticas, mas os diretores demonstravam competência ou perdiam o cargo. A eleição cria um clima de campanha em que (ninguém me contou; eu vi e ouvi!) professores candidatos disputavam os votos oferecendo benesses como a liberação dos uniformes – medida “conquistada” pelos alunos por medida equivocada de uma autoridade judiciária (isso acontece em quase todas as escolas públicas; menos nas da Polícia Militar) – até a tolerância do atraso em duas aulas. É uma nítida compra de voto não em espécie ou bens materiais, mas por uma intenção antecipada de prevaricação.

Piso salarial de pouco mais de 1.300 reais! Um disparate!... Festejar isso? Festejem coisas melhores – como a restauração da dignidade de escolas como o Lyceu de Goiânia (que deve voltar a ser integrado ao da Cidade de Goiás, respeitando a História), o Instituto de Educação (que, comenta-se por aí, já está sucateado e, a qualquer momento, será alienado para que ali se erga um grande condomínio residencial vertical, para que – aí, sim – as grandes construtoras festejem!), o José Carlos de Almeida (antigo Grupo Modelo, pioneiro na cidade) e o Pedro Gomes, de tantas glórias!

Devíamos festejar a instituição da jornada integral, tanto para alunos quanto para professores. Um piso salarial três vezes maior que isso, com jornada de 40 horas, numa só escola; aí o professor elaboraria projetos e planos, daria aulas, faria avaliações e correções e não precisaria ter dois ou mais empregos e, por seu poder aquisitivo, seria melhor situado na sociedade – ou seja, recuperaria o respeito que, antes, a sociedade brasileira dedicava aos mestres.


(*) Com licença, William Shakespeare...

 * * *

14 comentários:

Klaudiane Rodovalho disse...

Adorei!!!!Muito obrigada!
Quanta barulheira, não é? Ontem estava no Centro Livre de Artes quando apareceram dois estudantes de Ciência Polìtica de Belo Horizonte. Segundo eles a situação em Minas também está idêntica; coincidência ou não, em ambos os Estados o comando político é do PSDB; Minas passa por uma greve de três meses e a indignação é geral... como pode alterarem uma Lei que garante as gratificações?
Apenas na Educação é que vivenciamos achatamento de proventos.

Ivonaldo disse...

Parabéns pelo excelente texto, esclarecedor e que toca na ferida da educação pública. Precisamos de mais pessoas influentes que escrevam isto, senão nossos governantes extinguirão a educação pública gratuita. Obrigado pela colaboração na luta!
Prof. Ivonaldo F. Duarte

Tatiele disse...

Ótimo texto. Sou professora da rede Estadual, sou mestre e a sensação que fica é de impotência, de indignação e de nojo dos deputados, do governo,pois, eles estão retirando nossos benefícios e apresentando para a população uma mentira:dizem que pagaram o piso, não! quem está pagando o piso são os professores, pois, tiraram nossas gratificações para aumentar os vencimentos, a maioria dos professores tinham gratificação no mínimo de 30%. Obrigada por fazer esse texto, o li e chorei por ele expressar o descaso do Governo não com os professores apenas mais com a educação, com os alunos, com o povo goianiense.

Sueli Soares, RJ disse...

No "País do Futebol e do Carnaval", quem está preocupado com a Educação? Somos meia dúzia de três ou quatro sonhadores que ainda praticam o "jus esperniandi", visto que os multiplicadores do conhecimento (ou professores), cansados, descrentes e desacreditados, por amor apenas labutam... e labutam. As relações interpessoais (professor/aluno), que eram estabelecidas "olho no olho", estão cedendo vez ao contato meramente virtual, sem a afetividade imprescindível a formação integral de qualquer ser humano.
Para que valorizar o professor, se os recursos tecnológicos são mais baratos? Em breve, estaremos só trocando informações e acariciando um robô... já até escolhi o nome do meu: MAGISTER!

Fernando Quintella disse...

Texto digno de se emoldurar e pendurar na parede de todas as escolas deste pais, sejam governamentais ou privadas. Você registra a voz da consciência, Poeta. Só teremos o Brasil desenvolvido quando devolvermos a dignidade ao magistério, com salários decentes e respeito aa autoridade dos mestres. O resto eh conversa fiada. Com ou sem doutorado.

Mara Narciso disse...

Na contracorrente sem medo e boa argumentação, como sempre. Disseca toda a situação, com direito e revisão histórica de valores. Destaco a frase lapidar: "Deveriam cumprir isso silenciosamente". Fez e aconteceu, e que essa pregação tenha frutos.

Jô Sampaio disse...

Gostei muito do tema, aliás, gostamos. Li sua crônica na UEG, UnU de Porangatu, juntamente com vários professores.
Todos, sem exceção, perplexos com a atitude que o Sr.Governador tem tomado com relação à Educação desde que
assumiu seu atual mandato. Será que ele sabe que os funcionários públicos em sua esmagadora maioria votaram nele?
Ademais, a educação, no estado em que se encontra, levar mais uma
pancada dessa??!!
Jô Sampaio

Fatima Rosa Naves disse...

Brilhante texto. Um dos pilares para a solução dos problemas da educação no Brasil está em seu último parágrafo, simples, factível, necessário e que é o sonho de todo profissional da educação no Brasil. Ótimos os comentários dos leitores.

Alejandro Arce Mejia disse...

Salve, Luiz de Aquino! Grande nome da literatura goiana, com sua poesia neo-romântica espiritualmente saudosista e fisicamente intimista, com seu jornalismo que é verdadeira prosa poética, sempre bradando pela nossa educação e pela nossa cultura!Grande abraço!

Filosofia na Escola disse...

Parabéns pela lucidez de suas palavras. Peço sua autorização para utilizar este texto nas manifestações do movimento que estamos organizando contra os disparates desse governo contra o professor. (http://www.facebook.com/groups/mobilizacao.professores.go/)

Abraços

Conceição Lemos disse...

Muito bom mesmo o texto. Nós, que somos ou já fomos professores é que sabemos a dimensão de suas palavras. Em palavras, você pintou divinamente a situação da Educação no Brasil e, principalmente e Goiás. Parabéns!

Shirlene Álvares da Silva disse...

Luiz de Aquino, vc é fantástico! Adorei a forma criativa como expôs o que estamos vivendo. A Educação tem que ser discutida, ponderada, vivenciada, repensada, e todos os dias, porque somos seres mutáveis e precisamos utilizar nossas reflexões para ir adiante. Fico perplexa como anda a governabilidade do nosso país no tocante ao professor-educador.

gleicinha disse...

SÁBIAS PALAVRAS MEU CARO!

Osvaldo disse...

Li outrora um fragmento de um poema da sagrada escritura dos violeiros: "Quem tem o mel, dá o mel; Quem tem o fel, dá o fel; Quem nada tem nada dá. Quando li o texto de Luiz de Aquino me pus a comparar: Nesse contexto quem tem o mel é o próprio Luiz de Aquino com suas sábias palavras, Quem tem o fel é nosso gorvernador Marconi Perillo e quem não tem nada a dá .... Adivinhem? Pensaram? Isso mesmo! Thiago Peixoto