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sexta-feira, março 29, 2013

Faleceu Mauro Borges, aos 93 anos


Em 1999, era eu editor do semanário Gazeta de Goiás. Nessa condição, entrevistei o eterno governador Mauro Borges - essa peça jornalística está também no meu livro "Deu no Jornal", publicado em 2000. Transcrevo-a para que meus amigos leitores conheçam um pouco desse grande estadista que organizou o sistema administrativo de Goiás, enfrentou os militares em 1961 quando da Campanha da Legalidade e, em 1964, foi deposto pelo primeiro presidente do regime militar.  Em 2002, tive o privilégio de trabalhar com ele, coordenando o processo editorial de seu livro Tempos Idos e Vividos - Minhas Experiências (memórias). (Luiz de Aquino)



Entrevista com Mauro Borges

(26/09/1999) 

Como era, para um garoto em 1930, ser filho de um governador em Goiás? Como era sua vida no começo da Intervenção Federal?
Eu estou escrevendo um livro de memórias, e a primeira parte dele é justamente a minha infância em Rio Verde. Nem todas as crianças tiveram uma infância marcante, que influenciou tanto a sua personalidade, como foi o meu caso em Rio Verde. Rio Verde era uma cidade com aspecto muito interessante na época, era uma cidade pioneira, com uma frente de desenvolvimento... uma cidade mais ou menos faroeste, com uma vida bem parecida com a daquelas cidades do Velho Oeste americano: uma cidade de gente armada. As brigas eram sempre muito sérias. Meu pai era médico e sempre me chamava: "Mauro, vamos visitar os meus doentes, venha comigo". Tínhamos um fordinho-de-bigode e íamos ver os doentes dele. Lembro-me uma vez em que visitamos seis casas. Em quatro delas, os doentes eram feridos à bala. Pode ter sido uma coincidência, mas era sempre assim. Realmente, era um povo muito valente, muito independente. E, você sabe, a questão do meu pai (Pedro Ludovico Teixeira, interventor federal em Goiás de 1930 a 1945, período em que construiu Goiânia para ser a capital de Goiás), do meu avô Antônio Borges e do Ricardo Campos. Eles é que levantaram a bandeira do Sudoeste Goiano contra o governador de então, que era chefiado pelo senador Antônio Ramos Caiado. Essa ação começou com um jornal chamado Sudoeste. Não era mais uma questão, digamos assim, de caiadismo, não. Isso era uma coisa geral no Brasil. Era uma época de influência dos grandes líderes locais, a que o pessoal se habituara a chamar de coronelismo. Mas isso não era só em Goiás, era no Brasil todo, era uma coisa da época, tanto assim que a Revolução de 30 foi em :grande parte para mudar isso. As mulheres não votavam, imaginem! Elas não tinham o direito de votar, e aquele tempo está tão próximo, não é?. É um absurdo. Mas isso,  eu quero frisar para não parecer que seja rastro de má-vontade com os Caiados, com o caiadismo, isso era uma coisa generalizada no Brasil todo e Goiás não era exceção. Havia isso, uma política brava, com aspectos gerais de prepotência em todo o País. Por isso havia muito uso da força, da pressão política etc. Bem, nós reagimos: meu pai reagia, meu avô, os amigos dele. Quando de eleição, apesar de proibido, todo mundo ia armado, com carabina a tiracolo, revólver na cintura aparecendo... era regime de luta ostensiva. Interessante é que isso acabava atingindo as crianças também. A luta política se passava com os adultos e os meninos herdavam e mantinham a mesma atitude. Eram grupos de crianças brigando umas com as outras... Então, eu vejo um passado muito interessante. Meu pai caçava quase todo fim de semana, tinha canil, cachorros presos em quantidade, e ele ia caçar de caminhão, com aquela cachorrada, essa coisa toda. Era um ambiente, sob certos aspectos, medieval. Essas grandes caçadas não existem mais. E nós fazíamos parte daquilo tudo, aprendíamos a atirar muito cedo. Eu, com oito anos de idade, ganhei de meu pai uma espingarda de nove milímetros. Portanto, era um ambiente de faroeste, na verdade. Todo mundo era lutador, todo mundo era valente, e essa criação me atingiu, é claro. Assumi tudo aquilo que as outras crianças também assumiam, mesmo quem não tivesse vocação para a coragem acabava tendo muita coragem. A infância em Rio Verde me marcou, porque quem não era valente não se estabelecia. Qualquer líder político tinha que lutar. Tínhamos brigas grandes, os nossos pais lutavam lá por cima e nós, os meninos, aqui em baixo, um grupo contra o outro, etc. O que realmente acontecia é que nós ficamos aguerridos, essa é a expressão exata. Todos sabiam atirar, andavam armados, todo mundo de canivete, faquinha na cintura (risos)... Era muito interessante. Eu tive influência disso tudo, inclusive até para a escolha da minha profissão de militar.


Como se deu a opção pela carreira militar?
Eu decidi ser militar em parte porque a Coluna Prestes passou por lá. Eu a chamo de Coluna de Miguel Costa, ou de Luís Carlos Prestes. O Luís Carlos Prestes naquela época não tinha nada de comunista, o comunismo, para ele, veio depois de 1930. Bem, fomos preparados psicologicamente para o futuro, para outras lutas que vieram. Para nós, essas lutas não eram novidade porque assistíamos isso desde criança. Elas influenciaram muito nas decisões graves que eu tive de tomar durante o curso da minha vida. Tudo isso não foi mais do que reviver os tempos de infância. Certa vez, vi minha mãe na porta de casa e um tenente com o pelotão, um tenente da polícia, bêbado, com um revólver na mão, dizendo que ia matar meu pai. Ele dizia: "A senhora pode se considerar viúva, eu vou matar o seu marido”. Eu era menino de nove anos e via aquilo tudo, ficava escutando, porque o pensamento que vinha na minha cabeça não era o de chorar nem de pedir pelo amor de Deus. Pensava: "Como é que eu vou fazer para impedi-lo, aonde é que eu vou, com minha espingarda, para dar um tiro no tenente?” Esses pensamentos nunca eram de entrega, de concessão, mas que vinham às nossas cabeças de crianças como providências de luta armada que nós íamos fazer, e isso marcou muito o futuro da gente, de todos nós. Era um ambiente geral de luta. Quem não tinha capacidade para lutar não se estabelecia politicamente.

Então o Sr. se dispôs desde de garoto a ser militar?
Eu dizia assim: "Vou ser militar ou caubói (risos). Mas uma coisa interessante é que a Coluna Prestes passou próximo de Rio Verde duas vezes, e numa delas entrou um grande amigo, Atanagildo França, uma espécie de irmão de meu pai, tão grande era a amizade entre eles. A coluna Prestes era dividida em vários destacamentos, e no primeiro dia em que ele entrou em combate, quando houve um ataque na fazenda Zeca Lopes, pertinho de Jataí, o primeiro brinde que recebeu foi um tiro de fuzil no peito que transfixou-lhe o corpo. Ele estava muito mal quando Siqueira Campos se aproximou e disse: "Que falta de sorte a sua, logo no primeiro combate, você sofre um ferimento tão grave. Você não vai poder acompanhar a coluna, vai ter que ficar." Atanagildo respondeu que não ficaria: "Eu vou de qualquer forma, nem que seja para morrer em cima de um cavalo". E foi. Daí a uns vinte dias, ele estava bonzinho já, já lutando. Não havia penicilina, não havia antibiótico naquele tempo. Aquela era uma época diferente, de muito idealismo e coragem. Atanagildo merecia ser mais lembrado em nosso Estado pela sua participação nas 1utas, que eram lutas, na verdade, de fundo político. Quais eram os objetivos da Coluna Prestes? Eram justamente melhorar as condições políticas, de representatividade, por eleições mais livres, pelo voto secreto. Não havia voto secreto naquela época. Imagine um sujeito pobre, desvalido, lutar abertamente contra os poderosos. Como é que ele ia sobreviver das perseguições? O voto secreto era de absoluta necessidade, assim como o voto feminino. Então a coluna lutava pela melhoria das condições políticas, por maior eficiência contra a corrupção. Corrupção já existia naqueles tempos.

Mesmo sendo militar, o Sr. acabou desempenhando algumas funções fora da caserna; na Estrada de Ferro, por exemplo. Depois elegeu-se deputado e, mais tarde, governador... Qual era a sua arma?
Infantaria. O que acontece é que fui para o Exército com uma vocação muito grande, quase compulsiva. Eu gostava da vida militar, sempre gostei, gostava muito do Exército. Fui até o posto de capitão absolutamente dentro das atividades militares, depois fiz curso de Estado Maior. Estado-Maior era o curso de maior importância no Exército, era uma espécie de PhD, e nós éramos os oficiais mais jovens, eu e o coronel Petrônio, que era meu companheiro de estudos. Depois é que eu realmente comecei a mudar um pouco e fui ser diretor da Estrada de Ferro Goiás. Meu pai, que já havia estado no governo, foi eleito nas eleições de 1950. Em 1951, ele tomou posse, a mesma coisa que aconteceu com o presidente Vargas. Eu já tinha feito o Curso de Estado-Maior. O País estava em calma, não havia guerra, e, como eu tinha feito um curso de terceirização de transporte ferroviário, achei bom que pudesse ir para Estrada de Ferro de Goiás. O nome que era “de Goiás”, mas ela era uma estrada de ferro federal. Aí eu poderia dar uma contribuição para o desenvolvimento do meu Estado, e foi o que fiz, e realizei um trabalho grande Acabei mudando a sede da estrada de Araguari para Goiânia. Foi uma luta muito grande, e realmente merece um livro bonito. O pessoal de Araguari reagiu, assim como a política mineira, de todo o Triângulo Mineiro. Eu prestigiava a cidade de Araguari e não iria mexer com os funcionários, mas transferir apenas os necessários. Não ia tirar de lá as oficinas, instalações grandes, não ia querer trazer para Goiânia tudo aquilo, mas só a gerência, a administração. Porque realmente a estrada tinha o nome de Goiás mas servia muito pouco para Goiás, era uma estrada atrasada e os interesses maiores ficavam ali mesmo em Araguari e não no Estado de Goiás. Trabalhei três anos na ferrovia, conheci muita gente na área. Entusiasmei-me com a missão, a estrada era muito necessária, naquela época não existiam essas grandes rodovias asfaltadas, esses grandes caminhões, tudo dependia da ferrovia e a ferrovia não estava preparada para isso. Eu fiz outra estrada, praticamente, porque eu desenvolvi um trabalho muito intenso, quase que dobrei sua capacidade de carga. Essa é uma história interessante: eu arranjei um camarada aposentado, o Sr. Garcia, da Sorocabana. Ele era um velho ferroviário, ficou sendo meu professor, porque eu não tinha experiência de ferroviário. Quando precisamos de alguma coisa, e não tínhamos dinheiro para comprar, por que tudo era caríssimo, ele sugeriu: "Pede ao diretor da Sorocabana., eles têm inúmeras locomotivas encostadas. Quando elas começam a ficar velhas, eles arranjam outras". Aí eu pedi e ganhei tudo emprestado, equipamentos que nunca mais voltavam (risos): trem noturno para passageiros, uns vagões especiais... São muito interessantes essas passagens. Mas eu ia à luta, corri muito risco nessa ocasião, o pessoal (de Araguari) não se conformava de perder a sede.

Isso foi na primeira metade dos anos 50...
Isso foi em 1951. Fiquei uns tempos e, depois, quando o Getúlio se suicidou, em agosto de 1954, eu pedi minha exoneração e voltei ao Exército, fui servir no Rio Grande do Sul.

Sua esposa, Dona Lourdes, era gaúcha. Quando o Sr. se casou?
Logo que eu sai da academia militar, que naquele tempo se chamava Escola Militar do Realengo. Eu me casei com 24 anos e ela, 16.
(No dia 15 de fervereiro de 2000, Mauro Borges completou 80 anos de vida. O jornalista Nilson Gomes, do Diário da Manhã, entrevistou-o rapidamente, enquanto amigos lhe ofereciam uma serenata: Qual foi o cargo mais importante que o Sr. ocupou?, perguntou-lhe Nilson. O ex-governador respondeu sem vacilar: “O de marido de Lourdes”).

Como o Sr. conheceu Dona Lourdes?
Santa Maria é um grande centro estudantil, tinha muitos colégios e é uma cidade central do Rio Grande do Sul, que é estado de fronteira com o Uruguai e a Argentina. Fui servir lá no 7º Regimento de Infantaria, foi quando a conheci e logo me apaixonei (risos).

Ela era de São Borja?
Ela era de uma cidade vizinha de São Borja. Os parentes dela tinham uma fazenda, nas cabeceiras do Rio Itu, é o rio que corta o Uruguai e a fazenda do presidente Vargas, da família Vargas. Chamava fazenda do Itu, era o mesmo rio. Ela tinha um parentesco, um pouco distante, com Getúlio, que se chamava Getúlio Dorneles Vargas, e ela, Maria de Lurdes Dorneles Estivalet. Pois é, ela era parente do Getúlio, o presidente. Mas eu não vou te falar mais não, senão você vai furar meu livro (risos).

O Sr. chegou a servir com o presidente Getúlio?
Sim, eu tinha servido dois anos em Foz do Iguaçu, que era uma guarnição especial de fronteira, lugar de sertão, não tinha luz não tinha nada. Depois de dois anos na guarnição especial de Fronteira, tive o direito de escolher o lugar onde servir. Escolhi Petrópolis, que tem um clima muito bom, é perto do Rio de Janeiro... E foi justamente logo depois que eu me casei. Eu fui dar guarda lá no palácio e me apresentei ao Presidente. Ele tinha a guarda pessoal, mas nós éramos a guarda do Exército, mais armada, em maior número, por que já tinha havido um incidente grave, eles tentaram matá-lo, naquele Palácio (Palácio da Guanabara) perto da Rua Paissandu, no Rio. Havia realmente uma necessidade da guarda para atingir toda a área do palácio. Eu fui me apresentar a ele, como é da praxe militar: o presidente precisa conhecer o comandante.

Ele passava temporadas em Petrópolis, ou só fins de semana?
Passava mais de três meses. Quando começava a esquentar no Rio, ele ia para Petrópolis. Algumas vezes voltava em março, mas de outras, só saia na véspera do Dia do Trabalho (primeiro de maio). Essa tradição de Petrópolis não era dele só, vinha desde os imperadores D. Pedro I e D. Pedro II. Por isso, já havia o palácio (Palácio Rio Negro) lá. E, realmente, Petrópolis é um lugar muito agradável. Moramos dois anos lá, o meu primeiro filho, Mauro Jr., começou a engatinhar lá em Petrópolis.

São quantos filhos? E netos?
Eram cinco, agora são quatro, faleceu o Pedro. Tivemos quatro homens e uma mulher. E já tenho 11 netos.

Como foi a sua decisão de entrar para a vida política propriamente dita?
A vida política preliminar foi quando do meu tempo na Estrada de Ferro Goiás, quando deixei a função militar. Foi a primeira incursão fora do Exército, mas havia já um período de lutas muito intensas aqui em Goiás, desde quando o Jerônimo Coimbra Bueno (candidato da UDN, União Democrática Nacional) foi eleito – o PSD (Partido Social Democrático) perdeu a eleição eu não me lembro se foi o Juca (José Ludovico de Almeida) o candidato, mas ganhou o Coimbra; havia muita violência na época, foi assassinado o capitão Getulino (Artiaga), eu fiquei muito preocupado com a segurança do meu pai. E havia a criação de Brasília, aquele movimento... Eu tinha vontade de participar. Ali eu fui fazer parte da comissão da Novacap, o chefe era o Israel Pinheiro. Eu tinha uma atividade fiscalizadora e podia prestar bem este serviço, não só para Goiás mas para o país. Eu me entusiasmei muito com isso e fiz um bom trabalho, também no sentido da transferência da capital, no sentido da escolha do local lá em Brasília, etc. Aí eu tomei gosto pela política e resolvi, depois, ser candidato a deputado federal. Tive bastante sucesso, fui o mais votado (1958). A Câmara então era no Rio de Janeiro, ficamos um ano lá e depois fomos inaugurar o Congresso Nacional em Brasília (21 de abril de 1960).

E em 1960, o Sr. foi candidato a governador.
Aí eu vi que teria chance de disputar o governo do Estado. Meu pai era um homem de muito prestígio, o PSD era um partido forte e o problema era justamente ser o candidato do PSD. O meu competidor era um homem que tinha bastante prestígio (Juca Ludovico), já havia trabalhado com meu pai antes, já havia sido governador. Não foi muito fácil, mas eu era bem mais jovem, tinha mais fôlego e, ao final das contas, fui eleito bem. Aí, pus em prática os conhecimentos do Estado-Maior. O fato é que eu aprendi a planejar. Eu fiz a campanha simultaneamente com a preparação do planejamento: "Se eu ganhar, o que é que eu vou fazer?" E comecei a pedir a colaboração do povo, de me dar por escrito as necessidades, e isso me ajudou muito. O povo ficava entusiasmado em participar do plano e isso ajudou demais a ganhar a eleição.

O Sr. foi o idealizador, no Brasil, das Secretarias de Planejamento.
Fui. Quando cheguei ao governo, fiz a primeira secretaria de planejamento do Brasil. Não só fiz o plano, como trouxe uma turma inteirinha da Escola Brasileira de Administração Pública, da Fundação Getúlio Vargas, para me ajudar, porque eu desenvolvi uma ação administrativa muito ampla. Tive que trazer muita gente de fora porque, naquela época; havia uma certa dificuldade... Não havia as universidades de hoje, não havia preparação para arranjar gente de nível elevado. Não era muito fácil, porque não havia escolas superiores, era só curso de Direito. Era necessário, mas não era suficiente. Havia também o déficit de dinheiro, porque eu arranjei muita gente de fora; falta de material humano com alta qualificação, havia falta de gente... E fiz o plano. E plano é plano, está sujeito a modificações. Muitas vezes, esses órgãos que criei, mais de vinte órgãos específicos, eram de tal importância que a estrutura do estado não era adaptada, preparada para executar esse volume enorme de ações no campo da educação, dos transportes, da infra-estrutura, das coisas essenciais e do desenvolvimento. O Estado não tinha condições, então eu tive que trazer muita gente, veio essa turma da Escola Brasileira de Administração. Quer dizer, eu fiz uma renovação, nós demos uma sacudida de terremoto em Goiás.

Alguns ficaram. O Sr. lembra de alguém especificamente?
Muitos ficaram. Sim, lembro, mas eu posso esquecer, eu não quero citar nomes. Alguém pode dizer a você:  "Não lembrou que eu fiquei também?"... é complicado (risos).

E não se pode furar seu livro.
Mas o fato é que... só para falar no campo da educação, nós tivemos que fazer três centros de treinamento de professores, porque uma grande parcela dos professores eram semi-alfabetizados, eu não sei se eram semi-analfabetos; tem aquela coisa.


Era Catalão, Morrinhos...
É, era Catalão, Inhumas e lá na ponta do bico do papagaio, lá naquela virada, eu esqueci o nome (Tocantinópolis, hoje no Estado de Tocantins). Eram três grandes obras, obras enormes, chamava todas as professoras, elas tinham um entusiasmo enorme, que emocionava a gente porque elas não tinham chance, eu tive que trazer professores de Minas Gerais para poder ajudar esse volume enorme de estagiários, para melhorar as condições. Então eu tinha que trazer muita gente de fora, era um problema imenso no campo educacional, gente muito boa, que não faz rodeios, me ajudou muito naquela época, muita gente... eu não quero citar nomes que a gente esquece... o Consórcio Rodoviário
Intermunicipal, o Crisa, esse negócio que eu fiz foi o primeiro que existiu no Brasil, depois a quantidade de Estados aí que nos copiou exatamente porque foi uma solução para melhor... e a Esefego (Escola Superior de Educação Física de Goiás), que hoje é uma faculdade de Educação Física e Fisioterapia, nós fizemos uma quantidade de coisas enormes, como a Efomargo (Escola de Formação de Operadores de Máquinas Agrícolas e Rodoviárias), começaram a agir com propósitos políticos, o pessoal estava atrás de uma vaga política e acabou que a escola se desmoronou, uma escola formidável! Goiás é um estado que se desenvolveu muito rapidamente, a agricultura e não tinha gente para operar os tratores modernos, eu criei uma escola para isso, a escola de tempo integral você ia lá em regime militar, todo mundo de uniforme, de macacão para trabalhar, disciplina forte. Eles, os fazendeiros, acabavam procurando os alunos da Efomargo para trabalhar nas fazendas.

Desses órgãos, qual o que se pode chamar de a menina dos seus olhos?
O Consórcio, o Crisa (Consórcio Rodoviário Intermunicipal S. A., que, com a reforma administrativa promovida pelo governo de Marconi Perillo em 1999, passou a integrar a Agência Goiana de Obras Públicas). Quando eu fui convidado para participar da inauguração (do espaço cultural com o nome de dona Lourdes Estivalet) eu fiquei muito honrado e todos... Quer dizer, não tinha nada, era só uma secretaria. Só no campo da agricultura, eu criei a Caesgo (Companhia Agrícola do Estado de Goiás), a Casego (Companhia de Armazéns e Silos do Estado de Goiás), a Efomargo – uma porção de órgãos. A Caesgo é essencial para guardar os cereais. Onde ó que se ia pôr os cereais? Tinha que botar no asfalto, cobriam com lona a produção em cima das ruas asfaltadas... E por aí foi um sem-número de coisas. No setor de saúde, eu tive que organizar a Osego (Organização de Saúde do Estado de Goiás), a Iquego (Indústria Química do Estado de Goiás)... não adiantava dar a receita sem dar o remédio, o pessoal era pobre, então foi criada uma alternativa para dar o remédio para o pobre e por aí foi. Eu criei sabe quantos órgãos, desses que terminam em GO? Iquego, Metago (Metais de Goiás S. A.)... ela descobriu o fosfato de óxido de Catalão, a maior jazida de amianto do mundo, que é em Minaçu, e tantas descobertas que nós fizemos. Então, esses órgãos que eu criei foram marcantes nas suas necessidades e por aí foi. Então, realmente foi um governo... parece que eu tinha a intuição de que, não ia demorar muito, eu ia ter choques, dificuldades. Eu entrei em choque com a revolução (de l964) e saí, perdi os direitos por 14 anos e, então, eu tinha que trabalhar depressa, ali parece que eu tinha uma intuição... Como eu dizia, eu entrei rachando, com toda força, para fazer o plano e depois executar o plano com rapidez, com quatro anos de governo. O Consórcio tinha que fazer 2.000 km por ano de estradas intermunicipais, eu já tinha mais de 10.000 em quatro anos. Quer dizer, eu atingi as metas um ano antes do prazo.

A sua posição diante da crise da renúncia do Jânio Quadros pode ter influenciado na indisposição dos comandantes militares de 1964?
Ah, sim, sem dúvida nenhuma! Aquele golpe que foi dado na revolução, em 1964, era para ter sido feito naquela época. Mas acontece que a reação de (Leonel) Brizola e a minha atrapalharam a mudança e ela não pôde ser deflagrada de um modo concreto. Mais foi... Digamos assim, ela estourou em 64.

Gostaria de saber a opinião do Sr. sobre algumas pessoas. Leonel Brizola?
Brizola é um homem de grande coragem pessoal, inteligente. Mas eu acho que ele sai um pouco fora dos limites da audácia, da coragem, e passa a ser temerário. Há uma diferença entre valente, bravo e o que faz coisas dentro de uma viabilidade, mas há aqueles que passam além disso e, sem medir as conseqüências, pode causar um desastre. É um temerário. Vai mais além da coragem.

Juscelino Kubitschek?
Era um homem extraordinário! Ele e o presidente (Getúlio) Vargas foram os maiores presidentes que o Brasil teve.

O professor Gomes Filho costumava dizer que se Pedro Ludovico não tivesse construído Goiânia, Juscelino não construiria Brasília.
Ah, é verdade. Sem dúvida, Goiânia foi essencial para construir Brasília.


Miguel Arraes?
Eu o acho um homem até complicado... não posso fazer um juízo dele, é difícil interpretá-lo.

Jânio Quadros? 
Muito inteligente, muito dinâmico e capaz, mas também com um certo desequilíbrio entre a realidade e o sonho.


Como nós podemos interpretar aquela renúncia atualmente?
Eu diria que ele teve uma sede de poder total. Ele tentou uma forma (de golpe), sem preparo suficiente, e deu nisso: ele renunciou mesmo, mas a intenção era ter mais poder para continuar melhor.

Pedro Ludovico – o homem, o político.
Bom, tenho muitos trabalhos parecidos com os de meu pai. Eu acho que ele era um homem idealista, puro e de grande cultura filosófica; corajoso, de uma coragem pessoal muito grande. Era um homem de conhecimentos muito amplos, havia jornalistas que iam entrevistá-lo e estranhavam, porque ele tinha uma fama de homem valente e em tudo parecia um coronelão daqueles tempos, mas não era. Era leitor de Espinosa (ele lia muito filosofia), de história antiga... Ele sabia tudo de Roma, de Esparta, de Atenas, do Egito; tinha grande conhecimento histórico e, sobretudo, era um grande pai.

Esses ingredientes – coragem, cultura, equilíbrio – faltam aos políticos atuais? Quem é o político de hoje que reuniria esses predicados?
São homens realmente marcantes, com coragem; esses homens têm que correr risco, não podem ser tímidos. Risco de não acertar bem, risco de morrer... Risco de uma porção de coisas.

O Sr. acha que a era dos estadistas acabou?
Acabou não, mas ele (o tempo) sofre hiatos. O presidente da República (Fernando Henrique Cardoso) é um homem intelectual, mas não ó um líder carismático; ele não tem carisma, não tem a energia dos grandes construtores, como era o caso do Juscelino; era o caso do meu pai, Pedro Luduvico; como era o Getúlio. E ele é um grande intelectual, digamos assim.

Quem é bom político em Goiás?
Eu acho que tem muitos políticos competentes, inteligentes. Eu acho que o Marconi (Perillo), pelos contatos que tenho mantido com ele, acho que é um homem extraordinariamente bem dotado de inteligência e capacidade de direção, quer dizer, ele pode não ter tido uma formação de chefia, estudos especiais. Mas ele tem uma grande vocação de chefia, ele já tem aquelas qualidades inatas, ele sabe dirigir, sabe comandar, é enérgico e inteligente. Ele é impressionante; pela idade, ele é fora de série. Eu acho que vai fazer um bom governo para Goiás.

 
Ex-governador Irapuan Costa Júnior, Mauro Borges Teixeira (de bengala), governador Marconi Periilo,  eu discursando e Leoni Teixeira, no Palácio das Esmeraldas, quando do lançamento do livro de memórias de Mauro Borges, Tempos Idos e Vividos - Minhas Experiências.

8 comentários:

Mara Narciso disse...

Homem inteligente e espontâneo. Curioso como a pessoa entende estar fazendo o melhor, sob todos os aspectos. Imodéstia não lhe falta. É certo ter inúmeros detratores, que julgam seus feitos por um outro prisma. Você conseguiu algumas confissões interessantes, Luiz. Feliz resgate. Quando alguma capacidade rara se vai, todos lamentam. De que ele faleceu? Quando a uma penitência é grande, a família sente alívio, embora não exponha isso.

Romildo Guerrante disse...

Ótimo documento histórico, recupera a importância de um governador visionário, que sonhou com um Goiás muito maior. Sonhou e fez um estado moderno, vencendo as oligarquias que, sem sua ação, seria muito menor.

Silvio Mello disse...


Amigo Escritor Luiz de Aquino...
Só de vc citar que ele foi contra a Ditadura Militar, como eu, que quase fui para DOI/CODI, eis aí uma pessoa que eu admiro, sem conhecê-lo...!!!

Silvio Mello

Joãomar Carvalho disse...

Luiz,
muito boa a idéia de republicar esta entrevista, da qual não me lembrava
mais (vou distribui-la para alguns amigos e para meus alunos na PUC).
Em geral, sempre gostei muito de ler tudo sobre MB. Cheguei a ter uma
experiência pessoal com ele, como assessor de imprensa, quando ele se
preparava para concorrer ao governo de Goiás, pelo PDC, sem chance de
ganhar. Coincidiu com meu curto tempo - dois meses apenas - de Secretário de
Comunicação na gestão do Daniel Antônio.
Antes de ir para prefeitura (ali na praça Civica), a gente se reunia na
casa dele, em frente ao Centro Administrativo. Chegamos a montar no comitê
dele uma boa estrutura de comunicação (jornais, rádio e TV), mas aí pintou
ciumeira dentro da própria assessoria e decidi sair. Tenho guardada a carta
de agradecimento ao meu trabalho. Um documento. Foi uma experiência pessoal
e profissional muito boa. Mas ele já é um bom "fantasma" para todos que
sentaram e ainda vão se sentar na cadeira de governador de Goiás, pois foi
insuperável e, principalmente, será sempre um grande inspirador.
Não fui me despedir dele....e ainda não havia me refeito da morte de
outro ser humano maravilhoso, que foi o Padre Pereira.
Abs,
Joãomar

Maria Helena Chein disse...

Luiz,
que menino danado é você. Publica oportunamente esta entrevista que nos faz relembrar/conhecer
fatos da vida do grande Mauro Borges e da política de então. Morreu uma das figuras mais humanas
e representativas do Brasil. Parabéns, Lu, por seu excelente trabalho.
Bjs.
Maria Helena

Gilberto Mendonça Teles disse...

Obrigado, Luiz, pela infausto notícia. Abraço,
Gilberto

adriane carvalho disse...

Luiz, o quão é importante o resgate desta matéria neste momento histórico. Sou admiradora do Presidente Mauro Borges, que como poucos, passou por esta jornada, agregando valor à humanidade. É rico este material que nos leva a conhecer um pouco este grande estadista e que nossa juventude sequer vislumbrou a riqueza de sua existência.
Que Mauro Borges seja amparado e assistido em seu retorno à Pátria Espiritual e que os familiares recebam o conforto e o entendimento necessários para atravessar esses momentos difíceis da separação. Ainda que tenhamos a certeza de que a morte do corpo físico nada mais é do que uma passagem de regresso ao lar, as saudades são inevitáveis. Paz e Luz a todos!

Adriane Carvalho disse...

Luiz, o quão é importante o resgate desta matéria neste momento histórico. Sou admiradora do Presidente Mauro Borges, que como poucos, passou por esta jornada agregando valor à humanidade. É rico este material que nos leva a conhecer um pouco este grande estadista e que nossa juventude sequer vislumbrou a riqueza de sua existência.
Que Mauro Borges seja amparado e assistido em seu retorno à Pátria Espiritual e que os familiares recebam o conforto e o entendimento necessários para atravessar esses momentos difíceis da separação. Ainda que tenhamos a certeza de que a morte do corpo físico nada mais é do que uma passagem de regresso ao lar, as saudades são inevitáveis. Paz e Luz a todos!