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segunda-feira, novembro 22, 2010

Ainda a estátua... (espero que seja a última carta ao DM sobre o tema)


Os chupins da cultura


Senhor Editor,

A estação das águas demora-se pelo tempo, não define de vez sua presença definida de raios e ventos, trovões e cheias... Sobretudo nesta cidade de infra-estrutura sempre questionável e obras que dão boa aparência sem a existência da base firme. O resultado é céu azul de alvas nuvens poéticas – mas é poesia da Natureza, apenas. Nas ruas, há árvores e flores em profusão, para alegria dos viventes e encanto dos visitantes.

Os viventes de Goiânia são nativos filhos de migrantes interioranos; ou filhos de adventícios de outros estados e nações. Hoje, temos uma grande parcela de jovens investidores em agronegócios e coisas da vida academia, bem como de ofícios de serviços variados e indispensável. Somos uma babel de costumes e todos nós, jornalistas, sabemos que as enquetes com o populacho sobre datas cívicas nacionais ocasionam respostas engraçadas – não fossem ridículas.

E quanto às figuras da nossa pequenina história? A cidade festejou, há menos de um mês, 77 anos do lançamento da Pedra Fundamental, que, segundo os mais velhos que eu dotados de boa memória, encontra-se sob a cruz de pedra que um prefeito udenista, no princípio dos anos de 1970, removeu de seu pedestal. Aquela cruz, no meio da Praça do Cruzeiro (também conhecida como Germano Roriz), marca o local onde seria construída a Catedral Metropolitana, mas um legado do Cônego Trindade (uma quadra na Rua 10, entre a Rua 19 e a Rua 20) ensejou a nova localização, mais central.

Em Goiânia, de tantos sotaques exóticos a somar-se aos nossos interioranos, forma-se uma nova cultura que, nas próximas décadas, mostrará suas origens e a ação das raízes deste Planalto Central de flores e cerrado. No corre-corre da remontagem das coisas, na busca por se consolidar a nossa cara ante o Brasil e o Mundo, há muita coisa fora de lugar. Mas tudo o que aqui acontece repete um Brasil de acertos e muitos erros.

Um dos erros que nos envergonham: o fato de se repetir aqui o mal-feito de todas as torcidas organizadas. Em Curitiba, ano passado, a torcida conduziu à interdição do estádio do coxa-branca; aqui, a torcida do Goiás Esporte tenta fazer o mesmo, ao agredir o trio de arbitragem e o técnico Luiz Felipe Scolari, forçando a barra para que seu próprio time perca o privilégio de ter o Serra Dourada como seu estádio de mando.

E assim como acontece no meio esportivo, no segmento das coisas das artes também ocorre aquilo de “um jabuti no alto do pau”. Foi assim quando o governador Alcides Rodrigues dispensou Nasr Chaul para entronizar Linda Monteiro; com ela, vieram outros ovos de aves estranhas, e essas caras são notáveis nas páginas do DM desta sexta-feira em que o jornal nos dá conta da não inauguração da estátua eqüestre do maior vulto de Goiás em todos os tempos.

Vivo em Goiânia desde 1963 (sou filho de Caldas Novas, mas vim do Rio de Janeiro para Goiânia, empurrado por uma pneumonia renitente). Aqui, é inevitável acompanharmos o andamento dos políticos. Vi muitas ações e atitudes como fruto de um esforço para apagar o nome e a memória de Pedro Ludovico – essa, a da estátua, foi apenas mais uma. O que os estranhos no ninho não percebem é que, ao tempo em que alguns ativistas do meio cultural buscam agir de modo a lustrar sempre seus pobres umbigos, como isso de se instalar a estátua à vista do quarto de dormir de um escriba, há também os que discordam do esforço em benefício próprio – e estes estão sempre de atalaia; e outros virão com o mesmo espírito de vigilância.

Estendo minhas mãos e meus braços a todos os que se manifestaram neste esforço de resgate da dignidade. Não existe isso de se jogar a culpa no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – a  posição da equipe de Salma Saddi, na Regional do Iphan em Goiás, foi bem clara. Não podemos admitir que Pedro Ludovico Teixeira seja visto de modo menor que o Monumento às Três Raças (até esse nome é errôneo; em se tratando do bicho sapiens, somos apenas uma raça, não existe isso de branco, índio e preto).

Festejemos, pois, a decisão que restaura a dignidade do fundador de Goiânia, em sua memória. Aguardemos as ações do governo que se empossa no limiar de 2011 para apagarmos e mancha que o time do primeiro andar do Palácio Pedro Ludovico tentou impor às nossa goelas.


* * *

Luiz de Aquino
Escritor, membro da Academia Goiana de Letras

sexta-feira, novembro 19, 2010

Ego feliz


Ego feliz



Este é um texto de saudade. Saudade só, não: é um texto de saudade, de presença e de compromisso com o amanhã, caso esse futuro tenha planos para mim. É que, caso o tenha, sei que é do meu dever retribuir. Ih, parece que ficou confuso! É assim: junto com essa saborosa obrigação de agradecer a Deus pelo novo dia que nasce, bem como render graças também no momento do sono, é preciso responder à chamada do tempo, feito aluno no grupo escolar ou soldado na formatura matinal.

Sendo assim, basta que haja um novo dia para que eu renove compromissos. E nesta sexta-feira em meados de novembro, encontro entre as mensagens do correio eletrônico duas informações: a primeira, de Adriano Curado, confrade na Academia Pirenopolina, dando notícias de seu novo blog, uma verdadeira confissão de amor à terra de Mestre Propício e de Jarbas Jaime: http://cidadedepirenopolis.blogspot.com/.

Adriano enfatiza a nossa Academia, recorda os tempos de sua fundação, conta das primeiras reuniões e do brasão. E, agora, traz-nos uma página especial sobre o artista plástico Pérsio Forzani (que, no ano que vem, festejará conosco seu 80º aniversário) e me presenteia com a publicação de um poema da minha lavra em louvor de Pérsio. Beijos procês dois, meus confrades e amigos!

O outro e-mail, postado poucos minutos após o de Adriano Curado, vem da escritora Clara Dawn, talentosa confreira nas páginas do DM com suas crônicas que nos deixam com uma vontade enorme de ler um romance de sua autoria. Clara publicou, no site da União Brasileira de Escritores de Goiás (a nossa UBE), uma crônica que escrevi justamente sobre Pirenópolis, suas ruas, seu luar e as memoráveis serenatas que foram e ainda são sal e pimenta nos meus textos, no meu coração: http://www.ubebr.com.br/post/cronica/luar-sobre-ruas-tortas-por-luis-de-aquino.

Agora, um pedido de desculpas aos colegas do DMRevista: estou com um atraso de vinte e quatro horas no envio da minha colaboração para este domingo. Foi intencional, escrevi muito estes dias (gastei muito espaço da página de Opinião do Leitor) mas os assuntos avolumaram-se na minha cabeça, quero dizer, estou com muitas opções para a crônica de hoje, mas esses dois eventos alegraram-me o coração.

Atualmente, e sobretudo após ser presenteado com o título de Cidadão Pirenopolino, meu envolvimento com a terra natal do meu pai tem sido mais próximo do que sempre; e no tocante à minha cidade-lar, Goiânia (desde 1963), também ando mais imbuído dela: ganhei título honorífico de Cidadão Goianiense e com uma feliz coincidência: os dois diplomas foram emitidos em datas imediatamente subseqüentes ao meu aniversário (o primeiro em 17/09/2009 e o segundo em 16/09/2010; sou de 15).

Bem, os leitores que me perdoem por esta ostensiva visita ao próprio umbigo. A gente gosta de ser lembrado, homenageado, paparicado... Como me fizeram os amigos Iuri Godinho, Euler Belém e Vassil Oliveira, convidando-me para uma entrevista no programa Outra Conversa (da TBC, canal 13 da tevê aberta em Goiânia), gravado na quinta-feira para veiculação às 21h30min de sábado, 20 de novembro.

Agora, chega! Já lambi meu próprio ego, mas o propósito não é exatamente mostrar-me, nem me considerar melhor que os outros. Quero mesmo é agradecer à Clara, ao Adriano, ao trio Iúri, Euler e Vassil... Ah! O Vassil começou a me fazer feliz ao apresentar-me, disse que eu era “esse belo poeta”... Levei ao pé da letra, mas ele esfriou meu entusiasmo ao esclarecer que não aplica a palavra belo à minha condição física, mas ao meu trabalho de “ativista da poesia”.

Enfim, esta foi uma bela semana! Lutas (vide as páginas de Opinião deste jornal de segunda a quarta-feira, ou o meu blog http://poetaluizdeaquino.blogspot.com), contatos e produção (produzi dois poemas novos que agradaram aos poucos amigos a quem os mostrei; mas amigos, sei não, sempre nos vêem de modo melhor, não é? ), tive o realce nos espaços virtuais acima citados e ainda fui destaque na tevê.

É muita amabilidade para um pobre marquês sem brasão... hehehe.


* * *




Luiz de Aquino, jornalista e  escritor, é membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

quarta-feira, novembro 17, 2010

A estátua, ainda...

Mais uma carta, publicada hoje - http://www.dmdigital.com.br/index.php?edicao=8407&contpag=1 -. A inauguração do monumento é prevista para amanhã; sendo assim, reservo ainda alguns temperos para a próxima edição do DM.
Vejam a esta:




Equívocos ou má-intenção?

Além das várias antenas, a Serrinha está cercada de grandes edifícios, o que tornaria a estátua invisível. Onde colocá-la? No topo da torre de concreto? Seu lugar é a Praça de Pedro, mas sem a timidez das cercanias.


Senhor Editor, volto a pleitear espaço e não trago tema novo. É, sim, para continuar a catilinária sobre o descaso que o maior órgão oficial de cultura do Estado, a Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico, dispensa ao homem que, além de idealizar e construir esta cidade, empresta seu nome ao próprio órgão (já disse isso, em carta anterior). E por conta da carta de ontem que volto: acordei um tanto tarde, embalado pela chuva benfazeja, por conta do telefonema do escritor José Mendonça Teles.
“Vocês estão cometendo uma injustiça com o José Mendonça Teles”, disse-me ele, emocionado (costuma referir-se a si mesmo na terceira pessoa); lembrei-me que a injustiça não partiu de mim, pois até transcrevi o texto da crônica de Bariani Ortêncio em O Popular de domingo, 14.
“Pois é”, continuou ele, “eu dei a ideia e agora todo mundo é pai do cavalo”, metaforizou ele, com a cabida ironia. “Convidaram-me para ir lá ver o local, tiraram uma foto em que eu apareço e então vieram com essa história de comissão; essa comissão não existe”, definiu ele. Resumindo a pantomima: não existe, então, essa “comissão” formada por ele, José, e mais Ubirajara Galli e Bariani Ortêncio. Mas foi Bariani quem a citou e Galli silenciou-se, pelo menos até ontem, sobre o assunto.
Historiando: partiu de José Mendonça, no comecinho da década de 1990, a sugestão da estátua equestre de Pedro Ludovico, a ser colocada na Serrinha, evocando o momento em que, a cavalo e ostentando roupa própria de montaria e um solene chapéu de feltro, Pedro vislumbrou a campina. “A Serrinha, quando eu apresentei a proposta, suportaria bem um parque e a estátua, mas instalaram lá tantas antenas que o local se tornou inviável”, disse-me ele. E continuou: “Lutei por todos estes anos para ver a estátua finalizada; Neusinha (Neusa Morais) não merecia passar por tudo o que passou e morreu sem ver seu trabalho finalizado”.
José Mendonça é enfático ao isolar-se do entrevero sobre o local. Ele diz que quer ver essa estátua em lugar de distinção, em ponto digno da grandeza do homenageado, e não “num canto de praça”.
Das entrelinhas, mais me convenço de que a localização é, realmente, um capricho pessoal de Bariani, que quer mostrar, de sua sacada, poder de influência ao estabelecer aquele inaceitável ponto de sua própria paisagem.
Existem, em Goiânia, uma leva de arquitetos e urbanistas que  não foram consultados – e isso indica que houve um capricho da parte do profissional que detalhou a instalação: ou ele aquiesceu às exigências do escritor ou cumpriu cegamente ordens de sua chefe; esta, com tal atitude, passou a pá de cal no conceito de que desfruta da classe intelectual local (é intelectual quem trabalha com o intelecto, o que falta até mesmo em solenes personalidades que ostentam títulos afins).
Entre os arquitetos, Renato Rocha define bem o espaço histórico de Goiânia. E ao ouvi-lo, repercute na memória a frase costumeira da imprensa, por suas várias mídias, que a todo 24 de Outubro lembra que a cidade foi projetada para cinquenta mil habitantes. Rocha destaca que um monumento histórico, aqui, há de enquadrar nos limites do centro histórico, ou seja, a urbe projetada por Atílio Correia Lima. Fora dele, perde-se o sentido, pois a área expandida para além desses limites é o que temos, entendo eu, como “cidade nova” – no nosso caso, equivale à adição de vários anexos mal planejados, com desencontros de vias e seu conseqüente estrangulamento, exigindo complicados arranjos, por exemplo, da engenharia de tráfego.
Acho pertinente José Mendonça Teles reagir, demonstrar seu estranhamento e até mesmo mágoa, se for o caso, por usarem indevidamente seu nome e sua pessoa.
Passa da hora de se dar nomes aos bois. A goianidade agradece.

Luiz de Aquino
Escritor, membro da Academia Goiana de Letras



segunda-feira, novembro 15, 2010

Duas cartas para o jornal

Ambas em torno da questão da estátua de Pedro Ludovico, fundador de Goiânia. 
A primeira foi veiculada segunda-feira, 15 de novembro, no Diário da Manhã; a outra, terça-feira, 16 no mesmo espaço (Opinião do Leitor, pág. 5).


A PRIMEIRA
(publicada hoje, 15/11, em http://www.dmdigital.com.br/index.php?edicao=8405&contpag=1):


Goela abaixo: nunca mais!

Por que razão a Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira teima em plantar a estátua do fundador de Goiânia no quintal do Palácio? Pelo que se sabe, a concepção da homenagem obedece a um plano que previu que a mesma ficaria na Praça Cívica, com a evidência que merece o maior de todos os nomes da história de Goiás.
Já escrevi, em várias crônicas e outras matérias jornalísticas, que existe um espírito-de-porco que tem por meta denegrir ou reduzir a importância de Pedro Ludovico Teixeira Álvares na vida política, administrativa, econômica e social de Goiás. Como não encontram manchas na vida do homem, tentam agora diminuir sua importância.
Transformem o esdrúxulo barracão que serviu de sede para a Prefeitura de Goiânia, demolindo-o e instalando-se ali um Memorial da Cidade, com a estátua em lugar de honra, como merece a memória de Pedro.
Fala-se de uma comissão, constituída de escritores, que participou da escolha do malfadado local, na Rua Oitenta e Dois, em frente à esquina com a Rua Oitenta e Cinco, no quintal do Palácio, lugar onde, como disse o deputado Carlos Leréia, os “coronéis” de antes amarravam as montarias. Diz-se que o local foi imposto pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que não permite uma estátua eqüestre no conjunto “art déco” da Praça – mas o IPHAN permitiu ou permite a desfiguração do prédio do Correio?  E permitiu ou permite o “Três Raças”?
De tanto que se tem falado nisso, veio à tona uma ponta que parece verdadeira: o que há mesmo, envolvendo o IPHAN (não consegui saber da diretora Salma Saddi se é verdadeira a informação), é que a presidente da AGEPEL (a agência que leva o nome de Pedro Ludovico) impôs a localização e a atribui ao órgão federal.
O que se comenta ainda – não posso confirmar a veracidade – é que os escritores membros da tal comissão disseram amém à presidente da AGEPEL, acatando sem contra-argumentar, a escolha feita. E comenta-se mais. Aliás, questiona-se: o que levou a atual presidente da AGEPEL a impor-se no cargo? Tinha-se por certo que Nasr Chaul continuaria presidente por todo o governo Alcides Rodrigues, mas de repente o noticiário deu conta de que a secretária da Cidadania entregou o cargo, a chave do carro funcional e o telefone celular oficial, mas exigiu, na condição de presidente de partido da base, a cadeira da Cultura.
Para o meio, e me refiro à maioria dos militantes culturais do Estado, a troca não foi agradável. Goiás tem dois nomes fortíssimos na gestão cultural, nomes que se firmam por suas ações – Nasr Chaul e Kleber Adorno. Um “estranho no ninho” não foi de bom aceite.
Por outro lado, questiona-se, há anos, a simpatia de que desfruta a sra. presidente: ela consegue, ao contrário de inúmeros (e muito competentes) colaboradores, estar bem com todos os governos. Continuará com o próximo? Ou já se ajeitou na esfera federal, ou mesmo na municipal?
Não preciso enumerar segmentos dentro do meio cultural de Goiás para demonstrar o valor dos nossos artistas; ainda que o Estado seja apenas 3,5% do concerto nacional, nossas ações culturais nada devem aos demais pólos de cultura do país. E a atual presidente da AGEPEL não contribuiu com nada para essa valorização.
No turbulento ano de 1968, na Universidade Católica de Goiás, aprendi, de tanto ouvir e constatar, que autoridade é conhecimento. Acho que essa frase não ecoava na mente de alguns alunos, pois, sabendo que os professores da UCG eram os mesmos da Universidade Federal, os alunos “de lá” deviam, também, ter ouvido a prédica.
Pela imprensa,  lemos que autoridade é quem obteve votos, ou se fez investir do poder de mando e (ou) decisão pelo legítimo caminho do concurso; ou ainda pela caneta poderosa dos que, temporariamente, ocupam tronos; por serem os anos da ditadura, aqueles desde 1964, vimos acontecer arbítrios que atentaram contra a liberdade, a dignidade e até mesmo contra a vida.
Daqueles tempos, algumas vítimas (ou a gente imaginava vítimas algumas pessoas) trocaram de lado e começaram a se sentir tão ou mais poderosas que os de fardas e estrelas. Sim: há pessoas, entre os perseguidos daqueles tempos, que não poderiam mesmo, em regime de exceção, exercer cargos públicos, pois, mesmo em tempos de liberdade -  esta liberdade que nos permite até xingar o Presidente da República – cometem arbítrios como se tudo pudessem. E querem nos forçar a engolir suas decisões arbitrárias, truculentas e inoportunas.
A gente nao quer mais, sra. presidente! Nossas goelas já engoliram o que não era de bom gosto; agora, podemos dizer não.

Luiz de Aquino
Escritor, membro da Academia Goiana de Letras.





A SEGUNDA
(http://www.dmdigital.com.br/index.php?edicao=8406&contpag=1):




Ainda regurgito

Alguém me escreve, via Net, para contestar-me: diz que centralizei na pessoa da presidente da Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico a responsabilidade pela escolha do malfadado ponto onde se instala a estátua do fundador de Goiânia e patrono da Agência de Cultura por ela presidida.
A pessoa esclarece-me que a presidente “apenas” acolheu a sugestão do escritor Bariani Ortêncio: “Ele ligava várias vezes por dia, insistindo na localização da estátua; depois, várias pessoas passaram a telefonar também, e os funcionários deduziram que eram orientados pelo escritor, que mora a poucos metros da Agepel (que funciona no primeiro andar do Centro Administrativo) e mais próximo ainda do ponto escolhido para o monumento”.
Quis duvidar. Mas, aí, vejo a crônica de Bariani em “O Popular” de 14/11/2010. No segundo parágrafo, ele declara (ou confessa): “A escolha do local, aprovado pela Agepel, foi tomada mediante consulta aos historiadores José Mendonça Teles, Ubirajara Galli e eu”.
Os três são membros do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, entidade que congrega notáveis escritores locais, poucos deles geógrafos ou historiadores de fato e de direito. Ali chegaram por questão de honraria, imagino eu. Mas em Goiás as pessoas se apossam de títulos honoríficos a bem-prazer; só não se pode se dizer médico, pois o Conselho Regional de Medicina, vigilante, processa o tal por charlatanismo, no que faz bem.
O IHGG fica bem em frente ao local onde se pretende pôr, para tristeza da família, de Pedro Ludovico, a estátua equestre. O tema, além de ocupar grandes espaços de opinião na imprensa, é assunto obrigatório entre os que se ocupam da história e do urbanismo locais. Na última sexta-feira, na calçada do Grande Hotel, desviei a atenção da boa música do evento para dar atenção a amigos e conhecidos que querem entender melhor essa decisão um tanto falaciosa.
As pessoas querem o fundador em lugar de honra; não é por estar em casa que a dignidade pode ser colocada no quarto de despejo. A sala de visitas é a Praça, em seus pontos solenes. Há pouco mais de quarenta anos, removeram o obelisco para instalar o Monumento às Três Raças (também obra de Neusa Morais). A Praça Cívica, que também leva o nome do fundador de Goiânia (apesar dos protestos de seu mais expressivo amigo, o Prof. Venerando de Freitas Borges), é a sala de visitas da cidade. Essa praça é espaço do Estado, e não da municipalidade – informação essa que escapou a descuidados vereadores que legislaram sobre terreno alheio. Cabe ao Governo do Estado decidir sobre ela e sobre isso já se pronunciou o governador eleito, Marconi Perillo.
No apagar das luzes, será de destacada grandeza a atitude do governador Alcides Rodrigues no sentido de adiar a finalização deste caso. Fala-se muito no custo da estátua – custo esse que, é óbvio, tornou-se maior diante das incontáveis protelações. Por um tempo, houve a total omissão do prefeito (1993/1996), depois a transferência do encargo para o Governo Estadual (na gestão do prefeito Nion Albernaz). As delongas magoaram profundamente a escultora, fui testemunha disso.
Logo após a morte de Neusa Morais, dediquei-lhe algumas crônicas e numa delas sugeri uma estátua em sua homenagem – nenhum escultor local, nenhum artista plástico, nenhuma autoridade política ou cultural respondeu-me; agora, são dezenas os que a usam para acusar as autoridades pela demora.
Na esteira dessas protelações, vem a ocasião: quem nomeou a tal comissão de Bariani, Bira e José Mendonça? E porque os outros dois membros da Comissão concordaram com a escolha de Bariani, que agora tem o privilégio de acordar e olhar para a estátua?
Porque essa comissão, em lugar de escolher lugar tão mesquinho para o monumento, não propõe às autoridades um conjunto de estátuas para ornamentar um jardim das artes na cidade? Teríamos lá Leodegária de Jesus , José Décio Filho, Frei Confaloni, Bernardo Élis, Eli Brasiliense, Léo Lince, Otavinho Arantes, Cici Pinheiro, José Godoy Garcia, Basileu Toledo França, João Bênio, Maestro Jean Douliez, Joaquim Edson Camargo, Belkiss Spenziere, D. J. Oliveira, Dinéia Dutra e tantos, tantos mais como numa festiva calçada de bem-estar e poesia, música e teatro, cinema e formas e cores...
Vá lá – e para dar crédito à pessoa que me contou o fato (confirmado de próprio punho por Bariani em sua citada crônica de domingo) – que a presidente da Agepel tenha apenas acatado uma sugestão. “Ela achou que, acatando a propositura, ficaria simpática aos olhos do meio cultural, onde não desfruta de boa acolhida”. Mas os propositores dessa coisa têm boa acolhida em seu próprio meio? Se provocar, é possível que  obtenham no mínimo um desagravo do IHGG, da Academia Goiana de Letras ou ainda da União Brasileira de Escritores (o corporativismo é forte, minha gente!). Mas não se trata, aqui, de execrar pessoas ou louvá-las, pois ambas as decisões seriam injustas e pessoais. Importante é reconduzir o comportamento para o bem-estar geral, em lugar de fomentar o fogo das vaidades.
Goiânia e Goiás muito receberam das penas de Bariani Ortêncio, José Mendonça Teles e Ubirajara Galli, não serei eu quem os recomenda nem os contesta  - seus escritos, em livros e jornais, estão aí para os atuais e a posteridade. Entretanto, compete-lhes mais: agir de conformidade com seu compromisso ante o futuro. Goiás inteiro, por sua gente espalhada em todo o país e terras estrangeiras, pranteou Pedro Ludovico. O que não dizer da família? Esta indigna-se com uma recomendação advinda da presidente da Agepel:
– À família não cabe questionar o local, mas sim agradecer por termos finalizado esta história.
Será? Pedro Ludovico não é só da família, é certo; é de todos os goianos. Mas, digam-me, neste quesito, quem se torna mais goiano que os descendentes de Pedro?



Luiz de Aquino
Escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

quinta-feira, novembro 11, 2010

Ainda: a estátua no quintal

Ainda: a estátua no quintal



“Vista da parte central da Praça Cívica de Goiânia, vendo-se em 
primeiro plano o coreto e, ao fundo, o Palácio do Governo, 
ladeado pelos edifícios da Diretoria da Fazenda e Palácio da Justiça”.

Isso é a legenda da foto, estampada no nº 21 (Ano III) da Oeste (revista mensal), outubro de 1944. Notem que, bem no centro da Praça, no local onde hoje temos o Monumento às Três Raças, ficava um obelisco. Eram três, esse aí era o central e o maior deles (os outros dois estão lá, sem os quatro cilindros de vidro fosco que protegiam lâmpadas. Esse obelisco, que integrava a arquitetura da Praça Cívica, foi demolido para que “os negrões” ocupassem seu espaço. Como se fizessem falta, ou como se o obelisco fosse nota dissonante.

Era a segunda metade dos anos de 1960, ou seja, a ditadura ainda curtia lua-de-mel (juro que escrevi lua-de-mal... Ato falho?) consigo mesma. Ferir as imagens da cidade, tal como havia sido concebida, passou a ser esporte preferido dos inimigos (ou invejosos) de Pedro Ludovico: demoliram o obelisco; transfiguraram o coreto (mais tarde, os prefeitos biônicos Rubens Guerra e Hélio Mauro, o restaurariam); violentaram o desenho (ou design, como é da moda) dos canteiros centrais da Praça Cívica e Rua 82; desfiguraram toda a Avenida Goiás (Pedro Wilson foi quem cuidou de nos devolver os jardins e bancos ao jeito dos tempos originais); arrasaram o complexo arquitetônico da Santa Casa de Goiânia.   

Mas ainda não acabou... A Avenida Anhanguera, que se estendia desde a Praça A, em Campinas, até sua confluência com a BR-153 (antiga BR-14), era um cartão-postal dos mais notáveis de Goiânia por suas palmeiras de guariroba alinhadas no canteiro do meio. Em sua primeira gestão como prefeito de Goiânia (1966/69), Iris Rezende a estenderia até as saídas para Trindade e Inhumas, mantendo a fila de coqueirinhos.

Era 1998, o último ano da dinastia do PMDB em Goiás. Enquanto a campanha eleitoral absorvia atenções, o governo (de poucos meses) de vice e de presidente da Assembleia daria conta de desfigurar a extensa Avenida Anhanguera, removendo o canteiro central um pouco mais de cem mil palmeiras.

Lembrei-me de Pedro Ludovico, durante missa campal na Praça Tamandaré (era um largo de terra vermelha, sem vegetação, hospedagem de parques e circos), no aniversário da cidade em 1970. Recomendaram ao bispo celebrante que omitisse o fundador de Goiânia pois estavam lá o governador nomeado, o comandante do quartel do Exército, oficiais da Polícia Militar, delegados da tortura, o prefeito biônico... Mas Pedro não aceitou o silêncio: solene e decidido, chegou-se ao altar (não me lembro se havia um microfone; devia haver) e deixou bem claro que não tinha por hábito sair de casa para ouvir desaforo.

O vexame ficou por conta das “autoridades”.

Agora, outras autoridades, desprovidas de votos e de competência, decidem por mais um agravo a Pedro Ludovico: decidem, depois de quase vinte anos de adiamentos constantes, que a (finalmente concluída) estátua eqüestre do fundador de Goiânia seja estabelecida no quintal do Palácio.

Não se justifica, de jeito nenhum! Aquele pedacinho de chão era, sim, o quintal do Palácio das Esmeraldas. Ganhou status de jardim porque o filho de Pedro, Mauro Borges, idealizou e começou a construção do Centro Administrativo. A localização desse prédio tem justificativa: em 1961, quando começou a concebê-lo, Mauro Borges notou que a cidade crescia para o Sul. Imaginou que, num dado momento, algum administrador haveria de estender a Avenida Goiás para o rumo Sul, então o edifício de onze andares foi ali construído para proteger o Palácio (declaração de Mauro Borges ao repórter Benevides de Almeida, da Folha de Goiás, na década de 1970).

Coisas erradas são confirmadas, aqui em Goiânia: as invasões da Rua 115; o antigo Palácio das Campinas (um barracão de péssimo gosto na Praça Cívica, em frente aos Correios); a remoção das características do edifício originais dos Correios (era “art déco”, virou nada); a instalação do Monumento das Três Raças em lugar do obelisco... Enquanto isso, coisas que deveriam ser indiscutíveis viram piada. Como isso de pôr a estátua de Pedro no quintal, no canto que, disseram alguns de uma estranha “comissão de notáveis”, é o único disponível.

Em se tratando de Pedro Ludovico, disponível é o melhor lugar – e o quintal não o é. Seja o local das três figuras símbolo das raças (?). Como também seria de boa iniciativa a reconstrução do obelisco maior, a remoção dos automóveis da Praça Cívica, a demolição do pardieiro que já foi sede da Prefeitura.


* * *


Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras, escreve aos domingos neste espaço. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

sábado, novembro 06, 2010

Senhora Presidente!

Senhora Presidente!



Ao contrário do que parece, não me dirijo, nestas linhas, à Presidente Dilma Rousseff; apenas transcrevo o que, para mim, vem a ser o vocativo correto, ou, mesmo, o tratamento que se deve dar à dignidade da mais alta mandatária do Brasil, tanto no que concerne ao respeito que lhe deve a Nação quanto ao respeito que a Nação deve à Língua Portuguesa. As maiúsculas aqui aplicadas referem-se também ao tratamento adequado.

Falando aos jovens, digo que rola por aí um som ruim e feio: presidenta. Em algum lugar no passado, e vão-se poucas décadas, a palavra presidente ganhou, tanto em português quanto em castelhano, o som destoante com uma desinência esdrúxula: presidenta.

Napoleão Mendes de Almeida, notável gramático brasileiro, em seu Dicionário de Questões Vernáculas, contesta a corrente que impôs a novidade:

 “São em português uniformes os adjetivos terminados em nte, como já no latim havia uma só terminação – ns – para o masculino e feminino dos adjetivos de segunda classe, por cujo paradigmas se declinavam os particípios presentes: prudente, amante, vidente, lente, ouvinte. Ninguém, pelo menos em português, diz hoje prudenta, amanta, videnta, lenta, ouvinta”.

Os defensores da excrescência alegam o apoio de alguns filólogos. Mas nenhum dos que aderiram à nova onda apresentaram sustentação técnica, pelo menos não no nível do que argumenta Napoleão. E alegam a prática. E chego mesmo a supor que, em breve, a fórmula correta só será respeitada pelos que, em graus variados, apreciam a língua culta. E a língua, em suas regras e técnicas, é definida em leis específicas acordadas entre os países que a exercem. Ou seja: o presidente de uma nação lusófona, bem como a presidente de alguma dessas nações que têm o português como língua oficial, são obrigados a respeitá-la, mesmo na linguagem coloquial (a linguagem coloquial não concede a ninguém o “direito” de falar ou escrever errado).

 “Presidenta”, eu tenho dito sempre, é uma “estrela” plantada na bandeira do feminismo gratuito – esse que entende que só por ser mulher a pessoa tem que ser assim ou assado, tem que cometer este ou aquele desatino etc. e tal (entre eles o de se fazer “presidenta”). A teimosia nesse sentido equivale à proposta das fogueiras de sutiãs nos anos de 1960 (fogueiras apenas propostas; não se tem notícia de alguma efetivamente realizada).

Há quem diga que feminismo é o movimento que propõe direitos iguais entre homens e mulheres; isso de impor-se a mulher sobre o homem não é feminismo – é femismo. De minha parte, concordo com o “minerim” da piada:

– Lá em Minas, metade é muié, metade é hômi e é bão dimais da conta, siô!

Entre os defensores da “nova forma”, há quem diga que “ambos os termos são corretos”(mas, insisto, não cita fundamento científico para que “presidenta” seja certo). Ainda que fossem, e havendo as duas formas, fico com a mais bonita: “Senhora Presidente”. Seria como escolher entre cotidiano e quotidiano, mas, neste caso, as duas palavras são corretas – presidenta, não.

Suponho, sim, que o termo acabe pegando. Brasileiro adora novidades e tende a aceitar coisas que, na cabeça do populacho, vira verdade. Como a “máxima” (recorrente a cada época de eleições) de que todo político rouba. Eu continuo na guarita dos que preferem que se imponha o certo. Aplique-se o mesmo quanto às palavras.

Na mesma semana em que o Brasil elegeu Dilma Rousseff sua presidente, a Organização das Nações Unidas divulgou pesquisa de avaliação do Índice de Desenvolvimento Humano; o resultado foi-nos favorável, mas ainda há muito a se fazer para que o Brasil se enquadre entre as nações de melhor IDH no mundo, e o entrave está justamente no processo de Educação.
Falar errado não nos ajuda.


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Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor, membro da Academia Goiânia de Letras. Escreve aos domingos neste espaço.


quinta-feira, novembro 04, 2010

Flores no túmulo de Thoreau

Recebi essa crônica do professor, poeta e jornalista Sinésio Dioliveira e quero compartilhá-la, acompanhada das fotos feitas pelo próprio:


Flores no túmulo de Thoreau
Sinésio Dioliveira

"Estou convencido, pela fé e pela experiência, de que se manter sobre a terra não é uma aprovação, mas um passatempo, se vivermos de maneira simples e sábia". Henri David Thoreau


O poeta e escritor Henry David Thoreau está entre aqueles mortos que permanecem vivos tão logo que a vida, em seu gesto imperativo, exige de volta o corpo que ela empresta a todos os mortais para a travessia existencial, que pode ser, conforme consta na epígrafe desta crônica, uma "aprovação" ou um "passatempo". Por outro lado, existem também (e de modo abundante) aqueles mortos que assim o são sem que a vida lhes tire de cena. 

A causa desses dois fatos está, portanto, na alma de cada um. Enquanto aqueles possuem alma grande, a destes é pequena, menor que um grão de motarda. O fim físico (e óbvio) de todos é o mesmo, só que as palavras iluminadas de alguns fazem com que eles permaneçam vivos. E essas palavras muitas vezes representam alento à alma de muitos que se encontram vivos e de certa forma uma grande ajuda no sentido de que façam de sua existência um "passatempo". 



Thoreau me chegou primeiro em nome, isso num  texto que li sobre meio ambiente alguns anos atrás. No respectivo texto, Thoreau era apontado por seu verdadeiro envolvimento amoroso com a natureza já no século XIX. Posteriormente passei a conhecê-lo de maneira mais profunda. Essa nova fase de relação foi motivada pelo filme "Sociedade dos poetas mortos", dirigido por Peter Weir, tendo o ator Robin Willians vivendo o professor John Keating. 

Esse professor, em suas aulas de literatura, ministradas filosófica e poeticamente, ensinava a seus alunos uma educação voltada para a vida. E nessas aulas, John Keating citava Henry David Thoreau: "Fui para a floresta porque queria sugar a essência da vida! Eliminar tudo o que não era vida. E, não, ao morrer, descobrir que não vivi." Esta frase me levou ao mergulho no livro "Walden, uma vida na floresta".

Minha próxima refeição de leitura é outro livro de Thoreau: "A Desobediência Civil". Em tal livro, que serviu de influência a Mahatma Gandhi, Leon Tolstoi, Martin Luther King e outros muitos, consta algo interessante: "O governo é um artifício através do qual os homens conseguiriam de bom grado deixar em paz uns aos outros; e, como já foi dito, a sua conveniência máxima só ocorre quando os governados são minimamente molestados pelos seus governantes." As ideias libertárias de Thoreau ocasionaram a sua prisão. 

São citados também pelo professor Joln Keating o poeta americano Walt Whitman e o romano Horácio, da Roma Antiga. Este por sua expressão muito conhecida – carpie diem –, que faz parte do poema Odes e significa "colha o dia" ou "aproveite o momento". O professor recomendava aos alunos a confiarem o mínimo no amanhã e que tornassem seus dias extraordinários. 

Sou um tanto desobediente quanto à comemoração de datas, de modo que não tenho hábito de visitar cemitério no dia dedicado aos mortos. Só que, neste dia 2 de novembro, resolvi desobedecer a minha desobediência: aproveitei que estou Boston, na casa de minhas irmãs, gozando minhas férias sagradas, e fui à cidade de Concord, que fica a 30 quilômetros de Boston. Foi nesta cidade que Henry David Thoreau nasceu e morreu. 

Fui tomado de uma emoção maravilhosa ao ver aquele túmulo simples sobre o topo de pequeno morro e com algumas flores em sua homenagem: apenas uma pequena pedra sobre a terra e nela escrito o nome de Thoreau. Sobre seu túmulo e os de sua família havia grandes árvores, algumas com aquele colorido maravilhoso das folhas que o outono americano produz. Achei o local muito compatível para o descanso eterno de Thoreau, que viveu de maneira simples e sábia, o qual em "Walden" diz: 
“Um homem é rico na proporção do número de coisas das quais pode prescindir”.

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Sinésio Dioliveira é jornalista, professor de português e fotógrafo (http://www.flickr.com/photos/sinesiodioliveira/ – oliveirasinesio@gmail.com - http://www.wikiaves.com.br/perfil_canarinho)