Cadernos inacabados
Sabem a expressão “pinto no lixo”? Pois é, sou eu neste cantinho de sete metros quadrados que apelidei de “Sala José J. Veiga”, com placa e caricatura do homenageado, assinada pelo talentoso Almir. A este espaço, Mary Anne chama de escritório; Francisca, a moça que nos assiste em casa, evita até mesmo entrar aqui, deixando por minha conta os cuidados menores com a organização (?) e a limpeza dos livros e objetos que entulham este quartinho que os arquitetos apelidam de “reversível”. Pois bem! Há dois dias, resolvi reorganizar três prateleiras com discos (cedês) de músicas, fotos e textos. O resultado...

Bem, o resultado foi bom; essas pranchas – duas em vidro e uma em madeira e fórmica, ganharam um ar de organização e localizei, ao mudar muitas peças de lugar, nada menos que dezessete blocos e cadernos de anotações, todos eles parcialmente usados. Não incluo nessa conta as agendas de endereços, que tal como estão, já se constituem, por si mesmas, em arquivos valiosos. Mas esses blocos e cadernos, ah! Quanta surpresa, quanta lembrança boa! Anotações de reportagens, de entrevistas, de compromissos a cumprir, de pagamentos a fazer e alguns feitos, muitos poemas... Sobre poemas, são cadernetas em brochura ou espiral, a maioria delas instrumentos indispensáveis nas viagens, pois, quando a leitura me cansa, troco o livro pelo caderno. Alguns desses poemas integram livros já publicados, outros aguardam afinidades para livros futuros.
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| Indispensáveis nas viagens |
E os nomes? Nomes e telefones, e-mails e endereços físicos, muitos de pessoas queridas que, de um contato simples por qualquer razão, tornaram-se amigos de muitas ocorrências, encontros, alegrias e confidências. Mas aqueles de quem são nos lembramos, dos quais esquecemos totalmente o motivo da anotação; e geralmente nenhum esforço mental traz de volta o momento que nos esclareceria a dúvida.
Ao folhear os vários cadernos e blocos e descobrir tantas maravilhas do passado, busquei separar os que vão para a estante, ao lado de outros quase tantos similares, e sobre a mesa, ao lado do monitor, os que voltarão a ser utilizados no quotidiano. Ficaram treze para este uso, os demais alinharam-se aos que para mim já são história. Um registro digno: de todos, apenas quatro foram comprados; os demais chegaram-me como brindes ou presentes.
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| Brindes sempre bem-vindos... |
E justo no dia seguinte, participei de uma reunião em que discutimos vários tópicos de um projeto de trabalho; um dos itens foi justamente que brinde oferecer; a decisão, unânime, foi por bloco de anotações – coisa indispensável a qualquer profissional. Evidência incontestável: apesar dos “note books” ligados, todos tínhamos blocos e cadernos em que anotávamos o que achávamos necessário.

E, o principal nisso tudo aí, para mim, é constatar que a tecnologia pode evoluir o quanto for possível, nossos lápis e caderninhos serão sempre indispensáveis. Cadernos não carecem de tomadas e pilhas, lápis não ressecam o grafite, não estouram nos bolsos, permitem que apaguemos os erros, não dependem da gravidade como as canetas esferográficas. E se nos são indispensáveis, eles são, entre si, companheiros inseparáveis. Daí a lembrança de sugerir, sempre, brindes como canetas esferográficas, lápis e... caderninhos (repórteres adoram blocos verticais, em espiral, com espessura farta o bastante para durar; e que, em brinde, venham preferencialmente em dupla).
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Muitas anotações, mas até as páginas em branco
sugerem saudade; ou novas notas... |
Ih, eu falava dos cadernos inacabados e, como sempre, divaguei! E retomo o tema para confessar duas coisas: a primeira delas é que sempre me preocupo em tomar nota do que acho necessário; em pelo menos metade das vezes deixo de anotar. E do que anoto, boa parte fica nas páginas desses cadernos que se confundem com livros na estante. Certa vez, porém, buscava um livro e deparei-me com um envelope grande, cheio de folhas avulsas; eram contos e começos de contos, dos tempos ainda da máquina de escrever. Ao digitá-los para salvar em disquetes (era 2001), acabei por reescrevê-los, já revisando; nasceu aí meu livro “A noite dormiu mais cedo”, premiado na Bolsa Cora Coralina (prêmio literário anual que desapareceu na Agepel da gestão passada), com prefácio do saudoso Antônio Olinto (da Academia Brasileira de Letras) e apresentação de Brasigóis Felício (da Academia Goiana de Letras.
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| Capa de "A noite dormiu mais cedo" |
A outra confissão é, talvez, mais grave: em 1988,comprei um gravador para, quando em viagem, anotar as ideias que tinha sobre textos enquanto dirigia; jamais fiz isso. Desde então, tive três gravadores, dois deles de microfitas (um desapareceu misteriosamente) e um eletrônico – que jamais usei, está aqui sobre a mesa, ao lado dos indispensáveis cadernos inacabados.
Leitores, isso não define a importância entre objetos tecnológicos e tradicionais; mostra apenas o meu modo de ser. Concordam?
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| Luiz de Aquino, jornalista e escritor. |