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sexta-feira, junho 30, 2006

A chuva molhou meus olhos

Corria normal o dia, quinta-feira na primeira semana de inverno, neste Paralelo 17º de latitude Sul, mais precisamente em Goiânia. Às quatro da tarde, senti uma dor persistente no lado externo do pé esquerdo. Quis voltar para casa, não pude. Desvencilhei-me do compromisso por volta das cinco e meia, mas a tarde caía rápida, com a dureza de densas nuvens acinzentadas, permeadas do vermelho que antecede o crepúsculo nestes tempos, no Planalto Central.

Faltavam, pois, longos minutos para o crepúsculo, mas a tarde se recolheu, fazendo nascer mais cedo a noite sem estrelas. E um vento frio agitava as copas das árvores, as que ainda não foram descobertas pelas serras implacáveis dos zelosos jardineiros da Prefeitura. O trânsito flui normalmente e, lento, um velho carro vende pamonha pelas ruas.

Chove. Coisa inusitada, em pleno São Pedro. Lembro do poeta Dionísio Pereira Machado, que se regozija com a chuva de inverno. Diz ele, como bom sertanejo do cerrado, que essa chuva vislumbra o encaixe de cigarras embriões nas cascas das árvores e possibilita, então, seu canto alegre quando chegar a Primavera.

A noite promete frio, mas faço algo tão incomum quanto a chuva no inverno do Planalto: vou ao cinema. Incomoda-me, na Alameda Ricardo Paranhos, um longo alinhamento de cones plásticos, tentando delimitar uma pista para caminhantes noturnos. Contam-me que a Superintendência Municipal de Trânsito pretende mexer na estrutura viária da Alameda, reservando uma pista para a prática esportiva. Um atentado ao fluxo regular de veículos, e totalmente desnecessário se nos lembrarmos de que, a duas quadras, está a pista do Parque Areião.

Mais uma excrescência da administração urbana. Novamente, mudanças radicais no quotidiano da cidade, complicando a vida do cidadão. O que mais nos falta, no espaço e na competência da SMT, são placas indicativas, mas o que se pretende, mesmo, é complicar para ser lembrado. Vejamos: mexe-se no sentido viário das ruas 103 e 105; ou seja, inverte-se de novo o fluxo. Para quê? E, já que perguntei, porque não se pode atravessar a Avenida T-4 no cruzamento com a Rua T-62? O alcance à Praça T-25 permitiria fluir até a Avenida 85, mas criaram-se obstáculos para impedir a travessia. E não se consegue entender a parafernália.

Enfim, a sala do cinema, no xópin. Há quantos anos não entro ali? Nem lá, nem em qualquer outro; não gosto daquele ritual de esperar, entrar na fila, comprar o ingresso, a pipoca... Mas fiz tudo isso, com o prazer de pagar meia-entrada porque atingi a maioridade plena e tenho alguns privilégios. Não concordo com meia-entrada, porque ocuparei o mesmo espaço de qualquer adulto comum, mas é a lei. E também não concordo com as alíquotas dos impostos, mas a lei manda. Fazer o quê? Tenho de pagar impostos, furar fila e pagar meia-entrada, após dois chopes enquanto esperava.

E então, com os pensamentos mais leves e uma ligeira fome, volto à casa. Confiro os bares, estão vazios. Não, não foi a chuva, que esta foi breve e fraca; o friozinho que se vê nesta noite, quinta-feira véspera de grandes jogos pela Copa do Mundo, a perspectiva de um sábado mágico para enfrentar a França...

Inevitável sonhar. Confiro recados no computador e as chamadas por telefone.
Pesquiso uns papéis de urgência, confiro algumas fotos, ouço um cedê de boa música brasileira (um doce poema cantado) e me proponho a dormir feliz.

Pelos recursos da informática, espalho poemas e esperança. Mando flores em palavras e peço bênçãos confortantes, renovo alegrias, evito as más notícias, essas que nos perseguem impiedosas.

É noite, madrugada. E o dia, eu sei, há de acordar mais tarde. Feito eu.

10 comentários:

Herondes Cezar disse...

Não sei se sou bom leitor. Mas tenho notado, ultimamente, que você vem usando suas crônicas como exercícios para suas criações mais elaboradas, na poesia. Tal como Beethoven fazia com suas sonatas para piano. Se assim for, vá em frente, pois está dando certo.

Beatriz Pacheco disse...

Me encanta te ler... Tua prosa, é uma linda poesia...
Com carinho, Bia

Jade disse...

Luiz
Adorei, seu blog e seu texto.
Colocarei nos meus favoritos.
Grande abraço,
Jade Dantas

Anônimo disse...

Luiz, não tenho cultura para fazer comentários bonitos, citando os grandes grandes escritores, e pensadores, pois não devo falar so-
bre o que, ou quem não conheço, ou conheço pouco, ou seja, meus conhecomentos são só para comsumo, próprio, rsrsrs...Mas uma coisa eu sei, sei que adoro ler você, seus escritos me encantam, e quanto mais te leio, mas quero te ler...
Você tem a capacidade de pegar um final de tarde, e transforma-lo em
uma "Peróla" gostosa de se ler.
Luiz, meus parabéns, e vá em frente, seu caminho, ou missão, é
mesmo colorir o mundo com suas palavras, e colorindo o mundo, você
colori nossos dias, você os tira do marron, do cinza...E transforma-os em coloridos vibranttes.
beijo. L.G.f

arantespoeta@hotmail.com disse...

Um dia a crônica é poesia Luiz AQUINO,que "manda beijos em palavras",no outro dia é ensaística,num outro, qualquer dia desses a crônica é crônica,e/ou crônica: uma piadinha de muito bom gosto,e a vida continua amarga,fria e que se dane,ou zidane a frança e os franceses.

abraçojoão!

Marley disse...

Aí Luiz... adoro seu romantismo... essa percepção diferenciada do cotidiano das pessoas. Beijos
Marley

Marta disse...

A chuva molhou teus olhos ... e acredito q o teu coração tb ...
Vc transforma a prosa em poesia e vice-versa, com a mesma facilidade com que uma florista brinca com flores nos arranjos que cria ... sem qq diferença pois os teus "arranjos" tb exalam perfume.
Fiquei feliz em te ler, aliás, vim aqui só prá te ler e deixar um abraço.

Anônimo disse...

Belissima crônica ! Parabéns !

Lúcia disse...

Luiz,
Depois de ler o seu texto, fiquei até com vergonha de deixar um recado. Não encontraria palavras tão inteligentes...
Adorei! Espero aprender com as suas palavras.
Beijo

Amiga sel disse...

É uma delícia ler você.. Me vi dentro desta tarde de chuva...
Obrigada poeta!


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