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sábado, agosto 05, 2006

Aliviar a alma

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Primeiro, foi Beth Luz, fonoaudióloga e professora, quem levantou esses versos de Vítor Martins para música de Ivan Lins: “Quero sua risada mais gostosa / Esse seu jeito de achar / Que a vida pode ser maravilhosa”. Ivonete deixou seu preferido, Gonzaguinha: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz. / Cantar e cantar e cantar / a beleza de ser um eterno aprendiz” A chamada era essa aí, com esse título: aliviar a alma. Claro: quem canta seus males espanta − diz o ditado.

Lembrei-me de Orestes Barbosa: “A porta do barraco era sem trinco / mas a lua furando nosso zinco / salpicava de estrelas nosso chão”. Depois, de Braguinha, também conhecido como João de Barro, que poetizou para Pixinguinha: “Ah, se tu soubesses como eu sou tão carinhoso e o muito, muito que te quero”. Miguel veio de Raul Seixas e sapecou “Enquanto você se esforça pra ser um sujeito normal e fazer tudo igual. Eu do meu lado aprendendo a ser louco, um maluco total...”

“Eu queria ter na vida / simplesmente / um lugar de mato verde / pra plantar e pra colher” – lembrou Sílvia, de Gilson e Joram. E aí vieram Fernando (lembrando Bôscoli), Eneida (novamente Gonzaguinha), Corina (Vinícius e Tom), Bambino (cantando Bigorrilho... quem escreveu Bigorrilho, hem?). É uma roda, em ambiente de Internet, de cinquentões ex-alunos do Colégio Pedro II, os vovôs e vovós daquele baile de 3 de junho na AABB da Lagoa, no Rio de Janeiro. Memória é o que não nos falta, nem fatos de infância e adolescência; nós, filhos da lousa, do lápis e das canetas de tinta, agora fazemos do computador nossa ferramenta de reencontro. Mas somos daqueles que “endurecemos sem perder a ternura”, parafraseando o dito atribuído a Che Guevara.

Sim, somos do tempo que era preciso escrever uma carta para se comunicar à distância, porque o telefone era, ainda, um recurso restrito quase que só à própria comunidade próxima. Era o tempo dos carteiros, das cartas e telegramas; tempo em que o Correio era “Correios e Telégrafos”. Hoje, quem se lembra o que é um telégrafo? E Código Morse? E telex?

Havia as músicas: “Quando o carteiro chegou / e o meu nome gritou / com uma carta na mão”. Quanta emoção, gente! Havia o prazer de se receber uma carta, mas também o prazer de escrever. As gerações que nos antecedem curtiram bem isso. Conheci pessoas que se casaram “por correspondência”, isto é, conheceram-se trocando cartas em páginas de correio amoroso de jornais e revistas e, após dois ou três encontros, decidiram-se pela união “até que a morte” etc.

Mas, venhamos e convenhamos, o que mudou mesmo foi a máquina, não o hábito. Correio, hoje, não é mais, como já o foi, instrumento de comunicação pura e simplesmente. Esta semana, fui enviar encomenda (livros, como sempre); amarguei uma fila porque uma jovem senhora resolveu abrir mão da fila do banco e da lotérica para pagar suas contas no correio. E, no outro guichê, um cidadão pagava um montão de carnês do baú (o da felicidade do Sílvio, o grego da tevê).

Mas os hábitos, eu dizia, continuam. A gente gosta de cantar quando se faz uma roda de amigos; a gente gosta de citar versos em músicas e mesmo poemas de livros, desses poemas que não são letras de música. Existe, sim, este prazer também. E enquanto não é possível o encontro para o chope na roda, a gente conversa, e conversa, e conta casos e recorda coisas... Mas conversa escrevendo, como antigamente.

Só que sem caneta nem lápis; e sem papel. A gente escreve teclando à distância; e a roda junta gente de Roraima, Goiás, Paraná, São Paulo, Minas, Rio, Bahia...

12 comentários:

May disse...

Delícia de texto. Quem sai aos seus não degenera.
Muito gostoso de ler...
Parabens Poeta!

Anônimo disse...

Meu amigo poeta,
Adorei sua crônica.
Sabe o que achei mais interessante na nossa brincadeira ? Ela nos deu a oportunidade de conhecer um lado que nossos amigos ainda não nos mostraram: o lado de dentro, o do coração !
Cada música escolhida revela o que vai na alma de cada um de nós. Muito bonito !!
Beijos
Silvia

Anônimo disse...

Linda tecnologia que nos une. Porem ainda há os que nao abriram mao do papel e a caneta e se negam a usar o computador, como o poeta pantaneiro Manoel de Barros e o escritor Ariano Suassuna... E tem outros mesmos goianos que preservam o uso do papel e lapis...

Luiz de Aquino disse...

Corina Mota me escreveu, por imêio:

Meu poeta, amado amigo...estou aos prantos!!!!
A cada poema ou crônica, vc tem esse poder total sobre minhas emoções!!!!
Aliviar a Alma foi um abuso, tb, total!!!!
Tão emocionada estou q não consigo dizer mais palavras!!!
Mas, com toda certeza, só começarei a me acalmar, na ocasião do nosso tão esperado Sarau, onde teremos as músicas, e suas declamações para nosso deleite....
Te amo sempre....
bjs, Corina.

Helena disse...

E continua você a exercitar, bem, o dom de dar poesia ao dia à dia. Fiquei com invenja, leio o tópico que serviu de pano de fundo, mas nunca participei, não decoro letras de músicas... Acho que meu arquivo de memória está muito cheio de leis, artigos, incisos, e por isto mesmo anseio poder parar, ter mais tempo e cabeça livres para passear, orkutear, ler, prosear, amar...
Ah, também curti muito ler você cantar o amor, como sempre, com o tempero picante, na medida!!

Luiz de Aquino disse...

Luiz Bento, leitor do Diário da Manhã, postou, na versão eletrônica do jornal, o seguinte comentário:


Luiz Bento (luiben@ig.com.br | 06/08/2006 às 11h37) Prezado Luiz Aquino, li seu texto, mergulhei no meu passado também. Já cantei todas essas músicas e ainda canto, apesar de hoje, a amargura ser bem maior, pela tristeza de todos nós com aumento das guerras e da miséria, mas tomo a liberdade de inserir abaixo um texto de Alfredo Padovani, hoje secretário de cultura da Prefeitura de Belo Horizonte e que publicou um artigo relacionado com o seu texto no site www.pontenet.com.br de Ponte Nova-MG, minha terra natal, como diz João Bosco Mucci, pertinho de Ouro Preto, onde tem filha de Goianiense que chora de saudade quase todo dia, bem pertinho de voce, nessa secção especial do DM, onde todos nós, articulistas e comentaristas, nos esforçamos para mostrar a todos que o ser humano de verdade ainda existe. Abraços. -------------------------------------- Uma carta está no ar Autor: Alfredo Padovani www.pontenet.com.br Lá estava sobre o móvel da sala, bem ao lado do aparelho de telefone: uma carta. Pude ver meu nome manuscrito com letras de forma, bem certinha e legível. Achei estranho. Afinal, em tempo de e-mail e mensagens no celular, carta de papel com envelope e selo parece ter ficado no tempo. Curioso, quis saber quem teria me enviado uma missiva nessas alturas do campeonato. O nome da remetente era desconhecido. Nem fazia idéia de quem poderia ser. O endereço era de Ponte Nova, de uma rua bem conhecida de minha infância. Sem instrumentos adequado para abrir o envelope branco, usei a chave da porta, que ainda estava na minha mão. “...Ponte Nova, 26 de julho de 2006...” Até ai nada de novo. É assim que todo mundo inicia uma carta. Apressei a leitura e percebi logo que se tratava de uma ouvinte do Antena Regional, programa que eu produzia e apresentava na Rádio Sociedade Ponte Nova. Achei muito estranho, pois afinal deixei a emissora há quase 2 anos. Na carta, uma senhora, moradora de um bairro simples da cidade, revelava a saudade que anda sentindo de minha companhia nas ondas do rádio. Ela e seu marido, ambos aposentados e com os filhos casados e morando fora, tem no rádio e na TV seu divertimento diário e também a força para vencer os dias de quem já viveu bem, contudo não tem opções de lazer e entretenimento. E segue a carta....”meu filho, somente agora consegui seu endereço. Há muitos meses tenho vontade de te escrever. Contar a você que eu e meu esposo sentimos muita saudade do seu programa. Temos saudades da maneira como você dava as notícias do dia, da forma simples de entrevistar as pessoas e até dos sorteios de ingressos para as festas e das camisetas. As nossas tardes já não são mais as mesmas. É claro que continuamos a ouvir rádio. Agora uma outra emissora, mas seu jeito de fazer o programa era todo especial. Você nem conhece a gente, por isso pode estar achando estranho, mas gostaríamos tanto que você soubesse a falta que nós faz. Estamos sabendo que você hoje é assessor de um político importante. Seguiu em frente na sua carreira, mas lembre-se sempre que o microfone é seu lugar”. Confesso que fiquei engasgado, não tive como conter as lágrimas. Essa carta reforça minha opinião sobre a força do rádio. Por mais tecnologias que possam surgir, o velho rádio ainda é capaz de emocionar as pessoas, colocá-las bem mais próximas que a gente imagina. Acho que jamais deixarei de ser radialista. Tô com saudades do microfone e, principalmente, dos ouvintes. Obs: Achei melhor não revelar o nome da ouvinte e nem muito menos seu endereço. Preservar sempre a fonte...não é assim? Até a próxima semana! Visualizada 80 vezes 31/7/2006 16:46:32

Heliane Lili disse...

Muito lindo seu texto Luiz!
Obrigada pela homenagem!
Embora eu não tenha sido citada, minha canção preferida tb lá se encontra!
E vc aliviou nossa alma com seu texto cheio de carinho!
Obrigada amigo!
Obrigada poeta!
Eu AMO VC!

Anônimo disse...

Texto leve e saboroso.
"Aliviar a alma"?Sim
poeta,depois de ver,
ler e ouvir tantas coisas ruins
que estão acontecendo, ler seu texto foi um verdadeiro sedativo, aliviando mesmo a nossa alma.
Letras e canções douradas de uma época Dourada...Ah!! Qaunta saudade eu tenho de...Quando o carteiro chegou...Poeta, cartas podem até estar em desuso por conta da tecnologia...Mas me diga: Escrever e receber cartas ainda é bom demaisssssss!!!Tem mais magia, mais essência, mistérios, tem até aroma, rsrsrsr!
Parabéns Luiz de Aquino, por mais uma vez você nos presenteou com essa pérola de texto romântico e saudosista, rsrsrsrs!!!!!!
Beijos,
Lêida França

Ariadne disse...

Adorei. Amo todas as músicas que você citou. Sobre a tal tecnologia... Não fosse ela, nosso encontro não teria sido possível. Puxa vida! Já se deu conta de que já faz um ano!? Tô bege! Não tinha pensado nisso ainda... Tô ficando velha! hihihi Bjos!

Maria Luiza Simplesmente disse...

Aliviar a alma....na Bahia!! Que bom que vc citou a Bahia!!
Me senti INCLUIDA!!
Amo tudo que vc escreve!!

Anônimo disse...

Aliviar a alma....na Bahia!!
Como eu gostei!
Me senti incluida! Importante!
teclamos de todo lado hj em dia, mas as vezes eu uso minha caneta e minha agenda para deixar meus pensamentos.
Vai lá que m dia o HD pife ou meus arquivos sejam detonados, sei lá..rsrs
Muito legal lembrar coisas boas!!
Beijo de sua fã Maria Luiza, em Salvador viu?

Anônimo disse...

Aliviar a alma....na Bahia!!
Como eu gostei!
Me senti incluida! Importante!
teclamos de todo lado hj em dia, mas as vezes eu uso minha caneta e minha agenda para deixar meus pensamentos.
Vai lá que m dia o HD pife ou meus arquivos sejam detonados, sei lá..rsrs
Muito legal lembrar coisas boas!!
Só tenho inveja de quem vai estar no sarau, snif!
Beijo de sua fã Maria Luiza, em Salvador viu?