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sexta-feira, outubro 27, 2006

É na cara!

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“Acorda amor. Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão, que aflição
Era a dura, numa muito escura viatura
Minha nossa santa criatura
Chame, chame, chame lá
Chame, chame o ladrão, chame o ladrão”.
(Acorda, amor, de Chico Buarque)



Esta crônica tem epígrafe. E epígrafe chique, em momento elevado do genial Chico Buarque, em plena ditadura militar. E aí, algum leitor mais distraído ficará pensando: “Por que um texto assim, de uma tão marcante música dos anos-de-chumbo?”. E eu antecipo a resposta: a Polícia Militar de Goiás (claro que não é ela toda: são os gatos pingados mal-intencionados que se sentem super-homens porque vestiram uma farda, ao modo legítimo do arbítrio que marcou o tempo dos generais ditadores e, sejamos reais e honestos, de civis pós-ditadura que, saudosos do excessivo poder, continuaram usurpando direitos e violando a Lei e a Ordem).

Uma viatura, noite de sexta-feira, dia 20 de outubro. Goiânia já em festa pelos 73 anos do lançamento da Pedra Fundamental. Mas os soldadinhos, aparentemente recém-incorporados, investidos da autoridade dos mal-formados, mandaram parar uma velha Fiat Elba. Tão velha que sequer paga IPVA. Mandaram que descessem e pusessem as mãos sobre o carro, abrissem as pernas, etc. O condutor do veículo perguntou: “Por que fomos abordados?”. Um soldado alegou que estavam a 120 km por hora; o condutor alegou que entregaria o carro de graça a quem conseguisse fazê-lo andar a 80 km/h. E, disposto a apresentar-se (a documentação já estava em poder do PM), disse que era “funcionário público, como você”.

Foi o bastante: o jovem soldado desferiu uma humilhante porrada na cara do rapaz, com uma “legenda” exemplar: “Não se compare comigo!”. E decidiu levar o moço e seu acompanhante, algemados, no porta-malas da viatura, para o 8º Distrito, no Setor Pedro Ludovico. Um policial dirigia a viatura; o outro, ilegalmente, dirigiu a Elba até a delegacia. O motorista, com o rosto marcado pela tapona do PM, não teve permissão, dos militares, para usar telefone, o que configurou outra atitude arbitrária dos soldados. Mas o delegado de plantão recusou-se a receber os presos. Os soldados alegaram, para a autoridade, que os levaram para a delegacia por que “fizeram manobra perigosa” na Avenida 85, e que os deteve na esquina das Avenidas T-63 e T-4.

O delegado mandou que lhes retirassem as algemas, argumentou que não havia razão para a detenção e orientou o jovem agredido a dirigir-se ao Instituto Médico Legal para exame de corpo de delito. Eles deviam voltar ao 8º DP para fazer o TCO, mas a mesma viatura seguiu a Elba até o IML e seus ocupantes esperaram que os moços saíssem (já era madrugada). E os obrigaram (o que é o poder da viatura, da farda e das armas, hem!) a dirigirem-se ao DETRAN, onde o PM agressor, ou seu comparsa (desculpem: companheiro), lavrou um auto de infração por manobra proibida, ou algo parecido. Será que o soldado tem autoridade para isso? Ora... Se tem pra bater, pode tudo! Até criticar o delegado em ocorrência interna da PM.

Não quero comentar, apenas narrar. E recordar. Porque era assim que agiam “eles”, os ditos “homens” da repressão. Agrediam a bel-prazer, inventavam verdades (sim, porque um soldado tem um predicado sobre “outros mortais”, que é uma tal de “fé pública”), prendiam a arrebentavam. Um moço, com formação superior, leva um sopapo na cara e os fardados ainda...

Senhor Comandante-Geral! Senhor Secretário da Segurança Pública. Senhor Governador! A população cidadã, desarmada e indefesa, não pode continuar vítima desses vândalos fardados.

Por favor...

8 comentários:

Deolinda disse...

Caro Luiz,
Recem chegada em Goiânia e acostumada a preventivamente correr quando avistava tanto a policia quanto o bandido no Rio de Janeiro, isso nos idos de 85, acabei educando meus filhos para ficarem alertas quando a policia aparece. Nunca se sabe de que lado vai estar, se do cidadão ou do bandido e nesse caso, se portaram como bandidos e da pior espécie.Credo!

Anônimo disse...

Como será que dormiremos em paz qdo nossos filhos estiverem na rua ? Essa crônica cai muito bem de exemplo aos jovens como Pedro Henrique. Mande no orkut dele ...

Luiz de Aquino disse...

Por favor, identifique-se; como vou saber quem é o Pedro Henrique?

Luiz de Aquino

Luiz de Aquino disse...

Esta crônica, publicada no Diário da Manhã (Goiânia) no domingo, dia 29/10, recebeu alguns comentários que considero dignos de serem lidos também aqui. Confiram:


NEYDSON
lange_expedicao@terra.com.br
Fone:
IP: 201.10.157.240

Obrigado Sr. Luiz Aquino pela matéria,realmente é revoltante o
procedimento de policiais militares durante abordagens. São violentos,
agridem e não dão a mínima chance de diálogo, como aliás foi o caso dos
dois jovens. São policiais covardes que se aproveitam do poder exagerados
que a eles são conferidos para humilhar, agredir e desmoralizar cidadãos
de bem. A população diante do artigo ,se manifesta indignada e faz o seu
comentário, inclusive pede que seja feita reportagem detalhada referente
ao caso e ainda querem saber os nomes dos policiais militares envolvidos.
Diante de informação concreta venho informar que a viatura que abordou os
dois jovens é de número 3513, e os policiais são; Jurandir
França(conivente) e um tal Deivid(covarde agressor), dia 21.10 às 04:20 da
manhã.


(8) Luis Fernando (luizfernando.dantas@gmail.com | 30/10/2006 às 08h54) Quero deixar aqui meus parabéns e um sentimento enorme de satisfação de ler esse artigo tão bem escrito e de uma forma muito corajosa como foi feito aqui pelo escritor Luis de Aquino.Já é de conhecimento de todos a forma com que policiais despreparados, não querendo aqui generalizar, tratam os cidadãos em suas abordagens, que eles próprios costumam chamar de "abordagem de rotina". Fica então uma dúvida, seria então rotina agredir fisicamente e mais ainda moralmente pessoas de bem apenas por querer mostrar uma autoridade e superioridade exagerada?? Bom, mas graças a pessoas como o escritor Luis de Aquino a sociedade se torna cada dia mais consciente de seus direitos e aprende a se defender de abusos dessa natureza. Novamente parabéns ao escritor e abraços a todos que um dia já passaram por tal situação.
código: 12750

(7) Lêda Selma (poetaledaselma@hotmail.com | 29/10/2006 às 23h11) Luiz, mais uma vez, parabenizo-o pela crônica e, mais uma vez, não sei se meu comentário será publicado (paciência!). Sua crônica lava a alma das famílias dos dois jovens agredidos, acenando para uma questão seriíssima: a falta de compostura e de preparo daqueles que são destacados para nos proteger, arvoram-se em "autoridade" e, em nome disso, portam-se de forma arbitrária, truculenta e abominável. É notório que muitos foram os crimes cometidos pelos policiais, nesse episódio, mas o pior mesmo será se a impunidade, que permeia o corporativismo, agasalha e incentiva o crime e a reincidência, triunfar. Se os culpados não receberem punição, novos atos de autoritarismo e barbárie, certamente, serão repetidos. Pelo visto, Luiz, a sorte dos dois jovens se materializou quando eles foram encaminhados ao 8º DP (na noite do dia 20 último), cuja ação do delegado-plantonista, compromissado com seu real ofício e com a consciência do dever a ser cumprido, evitou que males maiores fossem perpetrados. Que as famílias das vítimas levem ao conhecimento dos órgãos competentes a série de abusos protagonizados pelos soldados, e que se faça justiça, após apuração rigorosa e imparcial por quem de direito, ato que se comparará à lisura e firmeza do delegado que, por sinal, merece cumprimentos de toda a sociedade.
código: 12730
(6) Rilde Estival Perilo (ripe@gmail.com | 29/10/2006 às 22h17) O Luiz de Aquino deu seu recado com muita prioridade e por isso o cumprimento pela denúncia. Mas e os nomes dos PMs? E do Delegado que agiu com tanta correção? Até quando nossos filhos estarão à mercê desses maus policiais?
código: 12727
(5) Norberto Aguiar Sampaio (nas234@hotmail.com | 29/10/2006 às 18h41) Parabenizo o Luiz de Aquino pelo artigo de elevada importância. Sua denúncia é o retrato do que acontece na PM que não raras vezes usa do "poder" da farda para agredir, intimidar e humilhar. Lamento pelos jovens agredidos e todos nós esperamos punição aos bandidos. Por que não foram revelados os nomes dos policiais?
código: 12725
(4) Luiz Henrique Pontes Curvello (lupe@hotmail.com | 29/10/2006 às 18h15) A cada dia nos chocamos mais com as ações da PM que usam a farda para o abuso de poder. Sugiro ao DM que faça uma matéria sobre o assunto, que levante a questão do abuso policial e conclame a sociedade a repudiar isso assim como a PM a punir os culpados. O Luiz de Aquino fez muito bem a denúncia (excelente artigo), mas o tema merece uma abordagem muito maior.
código: 12721
(3) Nádia Maria Rezende Filgueira (nmrefil@gmailo.com | 29/10/2006 às 17h51) Fiquei chocada com a ação da PM no caso dos dois rapazes, episódio muito bem exposto na crônica excelente do Aquino, embora isso não seja novidade, pois a polícia sempre abusou do seu "poder". Deixo uma pergunta: eles serão punidos? Tenho minhas dúvidas francamente. No fim, os agredidos ficarão com as marcas na alma para o resto da vida e os agressores fardados continuarão cometendo arbitrariedade, protegidos pela farda, isso sim.
código: 12720
(2) Carlos Dutra R. Filho (cadufi@yahoo.com.br | 29/10/2006 às 17h42) Parabéns ao Luiz de Aquino por denunciar um fato tão grave de abuso de poder e despreparo dos soldados da PM. Que eles sejam exemplarmente punidos para alívio da sociedade e da família das vítimas. Parabéns também ao delegado-plantonista do 8º DP pela posição firme e capacidade de discernimento.
código: 12717
(1) Jaqueline Rodrigues Lemes (jaquerlemes@bol.com.br | 29/10/2006 às 11h02) Acho que este caso vai ter a repercusão e o desfecho que todos nós esperamos. O jornalista e escritor está certíssimo ao fazer a denúncia, pois estamos já no terceiro milênio e práticas deste tipo são abomináveis, não condizentes com quem tem o sacrosanto dever constitucional de defender a sociedade. Por acreditar nos comandantes policiais de nossa capital, acredito na punição exemplar dos envolvidos, pois assim sendo, a organização policial continuará merecendo o crédito respeitoso de todos nós. Parabéns, Luiz de Aquino!
código: 12705

Maria Esther Torinho disse...

Como se já não bastassem os crimes, o vandalismo anônimo ou nem tanto, o PCC e outros, ainda temos os vândalos fardados. Que país é esse?
Abraço

Norma Leitte disse...

Querido amigo, é uma pena saber que esta narração não vai chegar aos ouvidos ou olhos de quem deveria. Olha conheço muito bem a "autoridade" de muitos fardados, a falta de respeito com a família, o abuso de poder, tanto na hora de uma "revista" quanto na hora da "perseguição" que por pouco não provocam tragedias no trânsito de Goiânia. Sua narração é um desabafo e talvez uma sementinha que precisa de muito adubo para se tornar uma planta forte a acabar com esse autoritarismo imbecial da Polícia Militar em Goiás, fazendo justiça a raras exceções dentro da tropa. Um grande abraço!

Anônimo disse...

É Luiz...
Ainda bem que temos vozes como a tua, que ainda gritam ante as violências! Aqui em Porto Alegre, na semana passada, uma senhora bateu em um caminhão, pelo deslizamento do carro, em um dia de chuva. Chamados os PM, mandaram que ela desse uma ré, e encostasse o carro no meio-fio. A senhora, nervosíssima, ligou o carro, sem verificar que a marcha estava engatada. Por óbvio, o carro deu um solavanco e apagou. Mas, com este movimento, a roda passou por cima do pé do PM! Resultado?! Algemaram a senhora e a levaram para a Delegacia, por "agressão à autoridade"! Bem, como a imprensa estava junto e procurou defender a senhora daquele vexame (sair algemada e colocada no camburão), foi inventada uma história incrível de agressões da senhora contra as ditas "autoridades"... Incrível como a imaginação deles é fértil! Uma franzina senhora, "agrediu com intenção de matar", a três enormes PM! Pode isto?!
É Luiz, vou morrer e não vou ver tudo! Terrível!

Luiz de Aquino disse...

Gostaria que o(a) leitor(a) de Porto Alegre se identificasse...

E, ainda a propósito desta crônica, o DM de hoje (31/10/06) publica a seguinte carta:

"Polícia
Quero cumprimentar Luiz de Aquino pelo brilhante artigo (É na cara, 29/10) pela denúncia contundente contra os abusos cometidos contra dois jovens durante uma abordagem feita por soldados da PM, semana passada. Foram várias as arbitrariedades, inclusive notadas pelo delegado de plantão do 8º DP, que agiu corretamente ao coibir as ações abusivas dos policiais, que algemaram inexplicavelmente os jovens e agrediram fisicamente um deles. Até quando nossos filhos ou quaisquer cidadãos correrão risco ao serem abordados pela PM? E o que acontecerá aos agressores? Haverá sindicância e posterior punição ou mais uma vez o corporativismo prevalecerá? Atenção, Batalhão da PM e Corregedoria: a sociedade está de olho em vocês. Esses aspirantes a bandidos merecem punição. O cidadão os paga para serem protegidos e não para serem agredidos.
Carla T. Moraes, via e-mail".