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sexta-feira, novembro 24, 2006

Nomes da África

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(Especial para a revista HOJE)

Começo com um poema emprestado:


NEGRA

negra a melanina
o pigmento
a raça resistente e bela

negra a força dos pelos
crina e a cabeleira
a noite e a lua nova

negra a profundeza do mar
a pupila dos olhos
a menina

negro é o infinito
o imenso universo
o segundo

negra a morte
o fim de tudo
o princípio

negra eu
desejo e mistério
ébano luminoso

branca eu
acaso genético
coração Zumbi

negro o pensamento
onde se formam as cores
e de onde vem a luz.

*********
Lílian Maial, carioca de boa cepa, concebeu esse poema e, no rodapé da página, reforça (como se fosse necessário): “Pelo Dia da Consciência Negra e o fim do racismo subliminar que ainda sobrevive entre os homens”. E mais: "O homem não pode falar de amor, enquanto gritar diferenças" (são frases dela própria). Pelo poema e pelos adereços, desnecessário é apresentar Lílian Maial; mas quem a quiser bem conhecer, pesquise-a no Google. Ela é uma das mais atuantes poetas brasileiras. Morena e bela, tem olhos azuis feito um abuso; mas beleza de olhos não está na cor da íris, e, sim, na essência da alma. Por isso Lílian é bonita. Quem duvidar, que leia seus contos e poemas.

Falar de consciência negra não é apenas exibir a pele e ostentar orgulho, mas conhecer-se sob a luz da História. E a História, que se faz à luz da Filosofia, não estimula preconceitos: ensina-nos o caminho da prática do respeito.

Respeito foi o que não se praticou na História da colônia Brasil e do Brasil livre (?), império escravista. Mas nós, filhos desta história, temos de começar, em algum momento, a corrigir o rumo da nossa viagem ao futuro.

Esta Nação, que em breve será duzentos milhões de pessoas, tem em si a forte marca do sangue africano. Vestimos e comemos heranças culturais que fazem do Brasil um país singular, e temos na arte a diferenciação de cores e sons que não se repetem lá fora senão pela nossa própria criatividade.

Mas a História nos conta, em entrelinhas, horrores maiores que os das algemas, troncos e pelourinhos. O pretexto cristão impediu aos imigrantes involuntários de pele negra o exercício regular de sua religiosidade, mas o negro reagiu com o sincretismo.

Não bastasse essa violência, nossos antepassados brancos tiraram-lhes também os nomes e impuseram-lhes o que os religiosos católicos obrigaram: Conceição, Joaquim, Maria, José, Antônio, João, Clara (ironia ou sacanagem?), Teresinha, Pedro, Cipriano, Rita... Sempre um nome “cristão”, como se aquelas fossem atitudes cristãs.

É óbvio que essa crueldade não foi uma prática luso-brasileira, não; foi uma unanimidade entre todos os que escravizaram negros africanos. Nos Estados Unidos e no Caribe, também, desapareceram os nomes originais das levas de incontáveis seres trazidos para o trabalho escravo.

O estranho é que, no caso brasileiro, repetem-se com certa postura de exótico, nomes de origem indígena: Tainá, Moacir, Jaci, Guaraci e muitos outros; e nomes de tribos tornaram-se sobrenomes. Mas tal não se fez com os negros: a eles, emprestou-se o sobrenome do senhor seu dono. Não que isso signifique uma atitude benevolente, mas uma marca de propriedade. É como se, em lugar da combinação de letras e algarismos, as placas de automóveis tivessem nossos nomes.

O triste é que, mesmo durante o regime da escravidão, já era impossível corrigir essa agressão. Como em todo crime de estelionato, agiam com rapidez e eficiência para apagar vestígios.

Nesse caso, pior do que nos demais, o poder público era cúmplice.

8 comentários:

Sonetos & Rabiscos disse...

Luiz,
parabéns pelo blog, amigo poeta! Belíssimo este poema da Lílian e o seu artigo complementa bem.
Grande abraço,
Nathan

Márcia disse...

Conheço e admiro o trabalho da Lilian Maial, e este é realmente um poema q diz de uma alma sensível e inteligente.

Gostei da dobradinha, parabéns pelo texto!

Lílian Maial disse...

Amigo querido,

Obrigada pela deliciosa surpresa de ver meu poema em um artigo seu, de alta qualidade. E mais ainda pelos elogios (um tanto exagerados, mas muito gostosos de se receber).
beijo grande,
Maial

Luiz de Aquino disse...

Lílian Maial! Meus exageros não chegam ao patamar de seus textos, menina!
Luiz

Anônimo disse...

Aquino:

Como sempre, suas manifestações literárias, sejam em crônicas ou poesias, são sempre de primeira.
Na abertura do Festival de Cinema daqui de Brasília, eu e o Herondes comentávamos sobre vc e sua produção jornalística e literária de fôlego.
Parabéns!
Guido Heleno

Anônimo disse...

Luiz
belo e grande e sensivel como sempre
eric

Adm.SPP disse...

Luiz de Aquino:

Belo poema da Lilian Maial! Parabéns pelo seu artigo sobre a consciência negra.

Grata por mais este belo momento poético.

De quem são as asas
a entorpecer o arco-íris?
- das flores que voam.

^Chris-Borboleta^

Graciene disse...

Amigo fiz uma homenagem a vc no meu Blog.
Fica calma ok? ainda estou começando a ser blogueira e estou aprendendo.
Saudades