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segunda-feira, abril 07, 2008

A História, essa que escrevemos


A História, essa que escrevemos

São muitas as vezes em que me surpreendo a olhar para dentro de mim. Isso acontece sempre que os fatos ou fatores externos parecem-me adversos. O tempo e a idade ensinaram-me a sopesar ações, atitudes e olhares, e essas coisas chegam-nos de modo tão insignificante... É que nos conhecemos melhor a cada dia. E a cada dia nos sabemos menos perfeitos do que nos imaginávamos antes.

Há mais de quarenta anos, menino aprendiz de profissional no intencionalmente falido Banco do Estado de Goiás, aprendi algo importante demais a partir de uma frase simples: “A maior preocupação dos imbecis, elevados à categoria de chefe, é ostentar autoridade" (Dante Veoléci). Foi meu colega Fábio José da Silva quem a datilografou, ante a prepotência de um chefete (hoje falecido) a intrometer-se em conversa nossa. E aí... Bem, a gente cresceu; e aquele chefe, sem mudar sequer os tons discretos de seus ternos, morreu.

Aqueles eram os primeiros anos de uma ditadura de duas décadas e meia. Tempo bastante para asfixiar nossa juventude, impedir-nos um crescimento livre, como deve ser todo crescimento. Vimos o regime acabar quando já éramos quarentões e nossas oportunidades morriam na praia dos anos maduros. Depois, vimos o poder da União remunerar (ou estimular os Estados a fazer o mesmo) com as tais “vítimas da ditadura”, desde que o pretenso beneficiário provasse ter sido detido por horas, ao menos, em nome das liberdades suprimidas. O erário paga, que os daquela decantada “esquerda” são ágeis na manipulação de fatos e até mesmo provas.

A nós, vítimas evidentes da supressão das liberdades, nada foi oferecido. E nós sequer pleitearíamos benesses sob tal chancela. Triste foi ver falsos ícones arvorarem-se de heróis. E os parlamentos referendarem tais excrescências em nome de uma História ainda não escrita.

Nós, vítimas reais do silêncio e de um total cerceamento das oportunidades, construímos silenciosamente os dias futuros da Pátria. Ouvimos, sem expressar nossas dores, o clamor das mães sem filhos e das viúvas proibidas de chorar. Somamos esforços porque sabíamos do que nos era tirado, e víamos as famílias subtraídas de seus mais queridos.


Guardamos palavras e falas várias. Marcaram-nos por sermos solidários à voz dos torturados, ao choro das mães que pediam por seus filhos e pe(r)diam seus filhos. A nós eram negados os degraus da ascendência profissional, bem como o pleito natural às melhorias no trabalho: “Cale-se, ó inútil! Ou te qualifico comunista!”.

Foi-se o tempo das lutas e veio uma anistia ininteligível, a que poupou os da tortura e permitiu impunidade aos que cometeram abuso de autoridade e mataram em nome do arbítrio. E os que tínhamos por heróis na resistência mostraram-se frágeis de postura porque não disseram mais da luta, mas trataram de usufruir benesses inexplicáveis.

Houve os que trocaram as cores das camisas e as formas dos emblemas. Aliaram-se aos algozes, beijaram mãos que lhes feriram a pele e penetraram entranhas porque pelo poder tudo se justifica. A coragem de sorver fartas doses de cachaça em fins de tardes foi tomado como gesto de afronta aos títeres e rasgar sutiãs equivaleu a portar metralhadoras nos assaltos a bancos como ação de guerrilha urbana pela retomada das liberdades.

Ah! Triste memória nacional!


Felizmente que se faz a História! Dizem que esta, a História, é feita pelos vitoriosos.

Contesto: a História, a verdadeira História, esta é escrita não pelos que venceram. Quem a faz, “in fine”, são os que sabem escrever.


5 comentários:

Saramar disse...

Luiz, sua crônica é emocionate e verdadeira.
É constrangedor e revoltante ver tantos falsos heróis usufruindo que não é justo nem moral, apesar de ser legal.
O idealismo trocado pela ganância é outra mancha na história brasileira. Dificilmente poderá ser explicada para nossos descentendes, senão como vergonha.

beijos, boa semana para você

Mara Narciso disse...

O fato histórico é um só, mas tem dois aspectos: o forte e o fraco. Caso os militares fossem contar a história diriam estar certos por trucidar os comunistas, os erejes. Estes ao contar se diriam certos em sequestrar diplomatas, já que seria em benefício de uma causa nobre, a esquerdização do país, coisa que atemorizava boa parcela de gente.

Assim, toda e qualquer anistia, até mesmo a ampla geral e irrestrita como foi a nossa, é duplamente condenada. A proposta foi esquecer tudo, e privilegiar os perseguidos de esquerda. Houve perdas de ambos os lados. Quem perdeu parentes quer justiça. Quem não recebeu amparo também. São tantos os lados. Melhor não haver retaliações.
Mara Narciso

Malena disse...

Oi Luiz. Passei pra te deixar um oi e perceber a coincidência: escrevi ainda há pouco sobre Anita Leocádia.
Enfim, coincidências.

Beijos

Madalena Barranco disse...

Olá Luiz, sua crônica é tão real que chega a doer pela indignação que algumas atitudes de gente que vive e não sabe que existe, provocam naqueles que observam e registram os fatos através da escrita... Eu ainda não havia atentado para o fato de que os vencedores não fazem a história. Obrigada pela reflexão. Beijos.

Anônimo disse...

Luiz, o que houve com a gente, foi tão sério e doloroso que até hoje tenho dificuldades de lidar e entender. Concordo com vc pois são as pessoas que sabem escrever que me fazem olhar prá trás e com muita dor refletir sobre aquilo tudo. Ainda há pouco, consegui a duras penas pelo descaso da emissora, assistir a mini série Querido Amigos e me vi retratada em vários personagens e situações. Não há como ouvir o Milton em Coração de Estudante e não chorar por tanta coisa que a vida nos tirou. Não haveria dinheiro que pagasse esta perda mesmo porque os verdadeiros idealistas desprezavam o dinheiro e as pessoas que aceitam essas propinas governamentais mostram de cara o quanto nada tem há ver com as verdadeiras vitimas da ditadura. É meu amigo, dói muito e nunca vai sarar...
Lilia Levy