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sábado, abril 26, 2008

O primeiro uniforme escolar no Brasil: Colégio
Pedro II, década de 1850

Uniformes, poder e disciplina


Estranhamente, um assunto que foi parar em telejornal da Rede Globo caiu no esquecimento e no silêncio sem que nenhuma das partes envolvidas se manifestasse. Ou que a mídia registrasse. Refiro-me, mais uma vez, à questão dos uniformes escolares. Repito, aqui, a assertiva de Ana Braga, professora desde a década de 1940, em conselho à diretoria do Liceu de Goiânia: “Para melhorar a qualidade do ensino, restabeleça o uniforme, porque uniforme é disciplina”.

Observem os profissionais que usam roupas apropriadas. Há como que uma mudança de postura tão-logo se vista o uniforme. Isso vale para policiais militares e bombeiros, para profissionais de estética e de saúde, garçons e mecânicos. Sem uniformes, somos todos cidadãos comuns; com eles, investimo-nos na autoridade que nossas funções nos concedem.

Autoridade é conhecimento, ensinavam-nos nas escolas na década de 60 do século passado. Ou seja: autoridade não é falar grosso e quebrar as leis, mas exercer nosso conhecimento com respeito ao próximo. Autoridade não é ditadura. O uniforme tem a função, ainda que visual, da armadura dos cavaleiros medievais: protege e identifica.

O Colégio Pedro II, por volta de 1850, instituiu, pela primeira vez no Brasil, um uniforme, que era uma farda militar simplificada. E tal como farda, o uniforme do colégio, com modificações inspiradas pela época, perdurou até as proximidades de 1960 (usei uma versão mais simples de farda, ou seja, um uniforme sem túnica, mas com gravata e emblema no braço, onde se põem as divisas de sargento). Uniforme do Pedro II
em 1958


Uma pena que o livro “A história do uniforme escolar no Brasil”, não esteja disponível nas livrarias. A obra do jornalista Furio Lonza, a partir de uma exposição coordenada por Isabel Pires e Maria Alice Silvério Lima, foi distribuída “gratuitamente para escolas, coordenadorias de ensino, secretarias de educação e confeccionistas de uniforme” (leiam o artigo “Com que roupa eu vou?”, de Vagner Apinhanesi, no endereço http://www.seuguiaescolas.com.br/espaco_educacional.php?ano=2007&art=10, do qual ele destaca este trecho do livro de Lonza: “Muitos colégios tentaram abandonar o uniforme e depois retornaram, a pedido dos alunos e, principalmente, dos pais. Colégios que, por muito tempo, não exigiram uniforme, como o Porto Seguro, por exemplo, começaram a utilizá-lo nos anos 80 e 90. São poucos hoje os colégios que resistem. Os pais dos alunos acham o uniforme prático, econômico e, principalmente, fator de segurança obrigatória”.

Reclamo do silêncio de estudantes e de pais, de professores e diretores, mas principalmente da Secretaria da Educação. A professora Milca Severino deve, com urgência retomar o assunto,
já que não se recorreu da decisão judicial que determinou a quebra do uso de uniformes nas escolas públicas estaduais. Detalhe importante: os colégios da Polícia Militar estão fora dessa decisão? Pelo que se sabe, há um rigor à antiga (e ao molde da disciplina militar) nessas escolas. Por que a Secretaria da Educação não recorreu ao Tribunal de Justiça? O que se vê é o que a TV Globo mostrou: os meninos “privilegiados” com a não obrigatoriedade do uniforme, sob a alegação de que não têm recursos para adquirir calças de jeans e camisetas, conseguem portar celulares com câmaras digitais e fotografam baixos ventres e até mesmo virilhas de suas colegas para, depois, exibir tais imagens na Internet. Ou seja: a permissividade concedida pela Justiça deu às garotas o “direito” de mostrarem seios e “cofrinhos” e, aos meninos, o poder de explorá-las gratuitamente.

Agora, os pais (das meninas) pedem a volta dos uniformes, cumprindo a constatação “profética” do autor do livro sobre uniformes.

Estou com esses pais. E sugiro, também, que os professores se trajem convenientemente para as aulas; com a libertinagem praticada pelos alunos, há professores que ministram aulas em bermudas e chinelos, num flagrante desrespeito aos alunos, aos pais de alunos e à dignidade do próprio ofício.
Alunos do Pedro II, na década
de 1980




7 comentários:

BETH disse...

Poeta

A questão do uniforme "quebrado" justifica a orgia social que passamos.
A sociedade cruel está fazendo de nossos jovens,verdadeiros anarquistas.

Veja ,num hospital: se todos fossem com seus trajes de "balada",como seria para os usuários.....

Em boas e conservadoras Universidades,os professores dão aulas de jalecos ou de terno e gravata.....

È,Poeta,o mundo está louco e nós,parece que sozinhos,buscamos o bom senso !

Mara Narciso disse...

Também sou favorável ao uniforme. Não o tinha visto antes como fator de segurança. Ótima visão! A portaria das escolas são canais abertos para a entrada de estranhos, mesmo com o sistema de catracas e apresentação da carteira. O uniforme aumenta a dificuldade de invasão.
Mara Narciso

Madalena Barranco disse...

Ah, amigo Luiz... Sem disciplina na medida certa, fica difícil dominar o equilíbrio humano. Talvez uma boa campanha com uniformes mais bonitos conseguisse motivar as pessoas envolvidas na educação, assim como alunos e pais. Beijos.

Marluzis disse...

Excelente crônica, Luiz! Oportuníssima nesses tempos de desvalor.

Você chamou a atenção para algo que me intriga: a abolição do uso do uniforme escolar, apoiada pelos pais de jovens, que freqüentam escolas públicas e que alegam não ter dinheiro para a compra desses uniformes. Ora, aqui está uma ótima relação custo e benefício. Despende-se um maior valor no início, o qual será diluído em muitos meses de uso. Já o hábito de diferentes roupas a cada dia, requer um maior investimento e, entre as meninas, ocorre um verdadeiro desfile de modas: elas não querem repetir roupas.

A partir dessa tomada de decisão, a escola e família deveriam interagir para o alinhamento das novas regras. A disciplina é mais do que necessária, ainda mais numa idade em que seus valores estão sendo construídos. Já a permissividade mal conduzida e não vigiada pode levar a uma formação desvirtuada e equivocada.

Agora, se esses meninos e meninas querem mostrar seus “cofrinhos” ou fotografar as suas intimidades, que vão para ambientes próprios e não nas escolas, que ainda são, acredito eu, templos do saber e conhecimento. Vamos respeitá-los !

Sérgio F. Lima disse...

Grande Luiz Aquino!

Interessante seu artigo. E realmente é assunto para se pensar.

Ao mesmo tempo que sou favorável ao uso de uniformes pelos alunos, sou contra se barrar a entrada do aluno na escola pois o sapato não está nos padrões do uniforme!

Eu sei que há casos e casos...

Mas as vezes a regra passa a ser mais importante do que o aluno!

No Colégio Naval do Rio de Janeiro (no qual lecionei por quase 2 anos) os professores antigos costumavam dizer que depois que foi extinto a obrigatoriedade do terno para o professor, os salários só cairam!

Claro que é uma metáfora! Mas é pra se pensar!

Grande Abraço!

Amarilis disse...

Como leitora de suas crônicas li, "Uniformes, poder e disciplina" Interessante assunto levantas.
Mas confesso que "Olhar para dentro e longe" é encantadora pela linguagem, assunto aborado, narrador onisciente em 1ª pessoa, oportuniza aí, a interação completa entre leitor/narrador/texto .
Parabéns! Continue ESCRITOR!

Anônimo disse...

Na condição de professor, função exerço há mais de vinte anos, folgo em ler o teu maravilhoso e educativo texto (Uniforme, poder e disciplina) e manifesto aqui meu apoio e solidariedade a esta sublime causa levantada por ti... Continui assim meu amigo, como expoente do bom senso e da dignidade humana...
Parabéns!!!

Santino Silva, Cuiabá (MT)