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segunda-feira, outubro 13, 2008

A alma das cidades

É provável que muito pouca gente saiba disso, mas a alma das cidades passa, inevitavelmente, por suas escolas. Não é apenas seu comércio, sua comida, sua música e seus poetas que lhe dão essência, não. As escolas são quase tudo na vida das comunidades. Elas são os templos vivos e dinâmicos das sociedades.
Recentemente, o noticiário da tevê mostrou que, no setor Urias Magalhães, um sujeito de seus 40 anos, passando-se ora por médico, ora por publicitário, aliciava meninas (adolescentes), levava-as a motéis etc. e tal. Curiosamente, nenhuma das garotas deu sinal, em suas famílias, do assédio e do possível (será apenas possível?) conúbio em cada caso, que, parece, deu-se sem violência. Ou seja, as meninas molestadas (?) não se sentem vítimas. O caso só veio ao público porque a direção e os professores detectaram alguma irregularidade e chamaram a polícia. Ou seja, a escola cumpriu seu papel.
Emociono-me quando passo nas cercanias do Liceu. Já verti lágrimas reais numa mera visita à sede secular do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Imaginem como me senti ao realizar, para estudantes da minha Unidade Tijuca do mesmo colégio, dois saraus em que falei poemas, contei histórias da minha época de meio século antes e cantei cantigas de referência, fazendo coro com os atuais estudantes.
Para mim, naquela primeira metade dos anos de 1960, o Liceu era a minha morada de saber; os demais colégios eram concorrentes, rivais, adversários, conforme o momento. Mas sempre eram berços de possíveis novos amigos, parceiros da vida futura, como nos certificamos, depois, nos anos universitários.
Não sei se é necessário que me explique: sou apaixonado por escolas. Se foi efêmera minha vivência de professor em sala de aula, eterna é a paixão que me conduziu à Faculdade de Filosofia, sem qualquer outra intenção ou tentativa, enquanto a maioria dos colegas corria para os cursos de Direito, Engenharia, Medicina, Odontologia, Arquitetura etc. Emociono-me, sempre, com as histórias escolares, desde a história das escolas até os casos e causos de alunos, professores e outros funcionários educadores, desde os severos e sempre amigos inspetores de alunos até os de serviços gerais.
Entristece-me, pois, saber que algumas escolas importantes da vida goianiense tiveram suas colunas educacionais abaladas e desapareceram da lista dos educandários públicos. Sei que várias gerações de ex-alunos preservarão até a morte suas lembranças dos verdes e felizes anos colegiais, mas fica em mim a triste sensação de inutilidade diante da falência de tantos esforços. Já me manifestei contrário a que pelo menos três estabelecimentos com tradição na cidade e no Estado fossem transferidos da Secretaria da Educação para a Polícia Militar. É que, sem desrespeitar o direito que tem a PM de manter escolas, contesto o veio que destinava educandários aos quartéis. O que existe já está de bom tamanho: educar é missão de educador, e não de militares policiais.
Dito isso tudo aí, quero fechar estas lucubrações com o comentário ouvido de um médico neurocirurgião, dos quadros do Hospital de Urgências de Goiânia (HUGO). Ele se mostrava muito feliz com os resultados positivos que o "seu" hospital registrava, salvando um sem-número de vidas de acidentados a cada hora: "Sabe porque o HUGO dá certo? Por que, lá, atendemos todo mundo, indiscriminadamente. Se atendêssemos apenas pobres, não teríamos condições materiais de sobrevivência. Portanto, é por atendermos também os ricos que conseguimos essa façanha".
Claro! É o que falta na rede pública de ensino: antigamente, isto é, no meu tempo, todos estudávamos nos colégios públicos – pobres e ricos. Mas houve um momento na história em que os ricos tiraram os filhos dos colégios públicos. Não fosse isso, nenhuma escola estadual ou municipal teria se fechado em Goiás. Ou no Brasil.

7 comentários:

Vania Rosa disse...

Amigo Poeta

Esta é uma preocupação, minha também, e que deveria ser nacional. Entristeço-me ao ver não só o desaparecimento de tantas instituições, mas do abandono de outras tantas.
Você descreveu bem o sentimento que tínhamos em relação à escola e o quanto nos marcou as passagens por ela. Lamentavelmente, não vejo hoje entre os estudantes este orgulho de estar em determinada instituição educacional. Parece que estudar hoje virou um fardo a ser carregado e não a possibilidade de novas descobertas.
Bem, estendi-me demais.
Beijo grande

Placidina Lemes de Siqueira disse...

Amigão, que coisa boa, ver você falar em escolas. Será que, nas faculdades estão lendo...? Olha, quando o João me permite, tenho visitado escolas; posso encaminhar-lhes seus textos, talvez até já os tiveram em mãos.
"ESCOLA É MEU HABITAT". Outro dia estive na FANAP. Levaram-me; fiquei na sala dos professores enquanto os alunos preparavam "a festa"; disse à coordenadora que não se preocupasse comigo que, após os sessenta e quatro, eu me "imberno" na sala dos professores...

...braço imenso...

Placidina

Carmem disse...

Caro amigo,
concordo sim, com suas palavras mas não podemos deixar de abordar o fato de que o interesse dos alunos está ligado diretamente, ao professor e a forma como apresenta o que tem a ensinar...o mundo evoluiu, as noticias hoje são globais e algo que aconteça é sabido quase que instantaneamente e acredite, há poucos dias fui a um aniversário, do filho de uma professora com " duas matriculas" e a faixa de comemoração trazia um " Aniversário" com dois SSSSSSSS...inacreditável! São estas pessoas que ensinam nossos filhos ou melhor dizendo nossos netos...No meu coração trago as poesias e as regras gramaticais transmitidas por um Professor PEDRO COUTO... doce, meigo e sábio!!!
Abraços,
Carmem Amelia

Dourivan Lima disse...

Ótima crônica, como sempre, Luiz.

Entre outras coisas, também me incomodo com essa história de passar o comando de escolas para a polícia, que já enfrenta em todo o País dificuldade para formar bons profissionais para seus quadros (esta segunda parte já é minha opinião pessoal, sob a qual você não tem qualquer responsabilidade).

Abraço.

Luiz de Aquino disse...

Dourivan, pemita-me assinar junto. Sua opinião sobre o preparo profissional dos policiais empata com a minha, sim.

Maria Helena Chein disse...

Luiz, foi bom saber de sua paixão pela escola, pela educação. Muito lúcidas e carinhosas as reflexões, ao mesmo tempo que você mostra indignação por certas decisões governamentais.
Abraços.
Maria Helena

Márcia disse...

É fantástico ler suas escritas.. descreve-as de forma simples poética,tão realista que nós trasportamos ao texto,chegando a sentir o hambiente e seu conteúdo..
É uma maravilhosa viagem!
Beijos!