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sexta-feira, outubro 03, 2008

José Luiz Bittencourt

José Luiz Bittencourt

“Resta esse diálogo cotidiano com a morte,
esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada”.
(O Haver, de Vinícius de Morais).

Gosto de olhar a vida não apenas pelo conceito da História, mas pelas medidas e aspectos da Geografia. A História nos põe no tempo; a Geografia situa-nos no espaço. Para mim, o viver não se limita ao ontem, ao hoje e ao provável amanhã, mas ao chão, ao céu e aos horizontes. Como eu, muitos são os que entendem a vida assim. Especialmente os praticantes dos chamados esportes radicais, como pára-quedismo, alpinismo, rapel, surf e suas variantes. São pessoas fascinadas pelos horizontes e ávidas de vencê-los. É que nos ensinaram que horizonte é a linha imaginária que define a superfície terrestre e o céu. Ou seja, o que nos parece limite. Mas o tempo nos ensinou que não existe esse limite, que o horizonte é sempre uma linha que imaginamos ver e que empurramos para mais além quando tentamos atingi-lo.
O horizonte no Planalto é diferente. É muito fácil vermos o céu na extensão do solo a nossos pés. Nas regiões de montanha, o horizonte fica no alto. E para os que olham o mar, a linha do horizonte torna-se, muitas vezes, difícil de ser vista (quando o azul do céu confunde-se com o do mar). Particularmente, por mais que admire sua beleza, não gosto do horizonte marinho. Dá-me um certo medo: se estou no litoral, olho o mar e penso que roubam-me metade dos meus horizontes. Mar é muito mistério, é desafio que não se vence numa só existência – há que se reencarnar muitas e muitas vezes, até se fazer íntimo, como Dorival Caymmi, o poeta do mar e das areias.
A vida se mede, pois, pela largura, e não pelo comprimento. Pelos horizontes, muito mais que pelos dias e anos. Nilson Gomes publicou, semana passada, que José Luiz Bittencourt era exemplo raro de político inteligente em nossa terra. Talvez tenha sido ele o último dos colegas a sacar um sorriso feliz do meu veterano amigo e ex-aluno do Colégio Pedro II, duas décadas antes que eu descobrisse e me integrasse ao vetusto educandário.
José Luiz Bittencourt deixou-nos de súbito na madrugada de sábado, horas após escrever seu último texto para o Diário da Manhã, nossa tribuna há quase trinta anos. Quase? Não... Mais de trinta anos: afinal, viemos do Cinco de Março, o semanário que foi um bastião de resistência à ditadura. Meu amigo de nascimento sergipano antecedeu-me em fases comuns a ambos: o colégio, já citado; o Cinco de Março, idem; o DM, ibidem, e a Academia Goiana de Letras. Não me cabe biografá-lo, que a edição de domingo passado do DM o fez muito bem. Não tenho, pois, necessidade de trazer a público nada de sua vida, mas apenas das minhas sensações agradáveis por ter desfrutado de tão bom amigo. Vinham deles conselhos bons e oportunos ante algumas dúvidas; dele vinham também palavras de estímulo para o fazer literário, muitas vezes desanimador onde a cultura do braquiária fala mais alto que o valor das letras e da filosofia.
Aos 85 anos de intensa e valiosa vida pública, ele marcou ainda com maior intensidade as relações em família. O marido, pai, avô e bisavô já distribuíra, desde sempre, seu legado: a formação de cidadãos ativos e dotados da consciência cidadã, porque não basta nascer e atravessar o caudal da vida – é preciso viver com intensidade. Intensidade histórica e geográfica.
Estranha-me ouvir dizer que o perdemos. Direi, antes, com realismo, que o ganhamos por oito décadas e meia. Agora, com a missão cumprida, foi promovido. Certamente, prestará serviços valiosos também do outro lado da existência – o lado de lá, além do horizonte de verdade.

3 comentários:

Maria Helena Chein disse...

Li hoje suas três crônicas. Excelentes! Você é um cronista consciente, conhece bem o momento presente ( e também o passado), com seu estilo próprio, que leva o leitor a querer ler de verdade, a sentir compaixão, ou revolta, ou amor, de acordo com o que você propõe. Trânsito, Reserva de Mercado e José Luiz Bittencourt são textos muito bons, que deveriam ser conhecidos de todos nós.
Mande-me todas. Ok? Um grande abraço.
Maria Helena

Maria Helena Chein disse...

Li hoje suas três crônicas. Excelentes! Você é um cronista consciente, conhece bem o momento presente ( e também o passado), com seu estilo próprio, que leva o leitor a querer ler de verdade, a sentir compaixão, ou revolta, ou amor, de acordo com o que você propõe. Trânsito, Reserva de Mercado e José Luiz Bittencourt são textos muito bons, que deveriam ser conhecidos de todos nós.
Mande-me todas. Ok? Um grande abraço.
Maria Helena

Weder Soares disse...

Amigo Luiz, suas palavras vestem de zelo e carinho a imagem do nobre "josé Luiz Bittencourt" que permaneçam transformando gestos em verdadeiras ideologias de vida. Deus lhe abençõe amado escriba. Um forte abraço com carinho e estima Weder Soares.