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quarta-feira, outubro 15, 2008

Das nádegas ao luar

Das nádegas ao luar

Perambulo pelo xópin, vejo vitrinas e curto lembranças. Lembranças memorizadas do que vivi ou do que vi em cinema, livros, revistas e outras mídias. Observo, como sempre, essa moda ridícula das calças de cós baixo;certas mulheres deixam à mostra a cicatriz da cesariana, outras, o cós da calcinha, algumas sequer as usam. Há as que escolhem a nova onda, os vestidos na linha "saco", moda em 1960; mas fingem esquecer que existem escadas rolantes, e gesticulam no sentido de encostar a barra (ou bainha) da saia na parte alta da coxa, porque saia nenhuma atinge as proximidades dos joelhos.
Conservador à antiga? Não: saudosista de um tempo em que um pedaço de joelho tinha a magia de despertar desejos;agora, nem mesmo os desenhos criativos das depiladoras são mistério. Então, há que se buscar outros atrativos, ou instrumentos de provocação. Atualmente, a mulher tem que ser mais inteligente que suas avós. É que, hoje, como disse a poetisa e cronista (maravilhosa, por sinal) Martha Medeiros, o ponto-gê é no ouvido. Bem, ela disse isso sobre a mulher, mas o homem moderno, o homem sensível, também transportou dos olhos para o ouvido o botão de partida (isso que os americanófilos dizem ser "start").
Mas, voltando aos xópins, vale a pena andar à toa. Especialmente quando o xópin não está cheio de meninos correndo, ameaçando o sossego. Um xópin em reforma, por exemplo. Mas tem que se ter cuidado: os operários da reforma andarilham pelas ruas internas como se os automóveis fossem miragem, quero dizer, como se os carros parassem por mágica tão-logo eles, esses trabalhadores, surgem.
Também anda bom andar pelas ruas de Goiânia. De carro, não; há os imbecis que gostam de dirigir em alta velocidade, ultrapassar pela direita, pôr duas rodas do carro na calçada, inventando uma quarta fila, avançar sinais, trafegar na contra-mão etc. É que a Superintendência de Trânsito não quer fazer concurso para nomear os 700 agentes que faltam em seu contingente (que, hoje, é inferior a 150). Alguém explica?
Então, gente, andar a pé... Curtir as flores que enfeitam a cidade. Ainda existem algumas quaresmeiras floridas (não entendi, elas ficaram floridas todos os meses de 2007). Os ipês já retomaram suas verdes folhas, mas as chuvas-de-ouro douram as copas e salpicam o chão. E as patas-de-vaca associam-se às buganvílias enquanto os flamboyants já ensaiam seus floridos de fogo (que lhes dá nome). As praças, que nos primeiros anos da administração que se encerra, ficaram órfãs das petúnias, voltaram a ostentá-las. Ainda um tanto timidamente, mas estão de volta.
Digam-me, agora, que nem tudo são flores. Eu sei, eu sei. Já escrevi e descrevi longamente sobre os instantes de não-flor de Goiânia. Lembro-me que, nos primeiros anos da década de 1970, a Prefeitura dizia, em seus cartazes, que "Aqui, a Primavera tem 12 meses". Ninguém duvida: nossas ruas estão aí para provar isso. As mesmas ruas onde os vândalos, como em qualquer lugar do mundo, impõem suas pichações e a depredação do bem de todos – como os jardins, os bancos, as lâmpadas e os telefones.
Tudo o que estou lhe dizendo (nestas linhas), leitor estimado, é a minha alegria de, nestes momentos, algumas vezes por semana, integrar-me com o sentimento das pessoas (é que temos um conceito engraçado de povo: qualquer um de nós costuma pensar que povo é "todo mundo menos eu"). Ao escrever, imagino que deixo de ser eu-só para ser eu-e-todo-mundo. Tento passar para o texto o sentimento cidadão, o sentimento de felicidade e de ansiedade que toma conta de cada um de nós. Só que não podemos, nenhum de nós, radicalizar o "status" de cidadão no clamor pelo que não se fez. Então, nossa indignação ante os desmandos do poder deve, sim, ser moldurada pela cor das flores, pelo aroma da dama-da-noite, de preferência com o ornamento prateado da lua-cheia, essa que enriquece o céu justo nos dias do meio deste outubro. E é sob a lua-cheia que Leda(ê) Selma traz-nos mais um livro, sob os auspícios do amigo empresário Melchior Luiz Duarte e cercada por centenas de amigos apreciadores do bom texto.
Mas, então, vamos cobrar melhorias dos poderes constituídos. Mas cobrar com energia. Com a energia que conquistamos em torno das cachoeiras, num lago rico de peixes ou à luz do luar que nos dá paz, esperanças e poesia.
Sem poesia não adianta cobrar. Podemos receber, mas não saberemos compreender nossas vitórias.

7 comentários:

Regina disse...

É por isso que te amo meu poeta....

FELICIDADE SEMPRE POR PERTO disse...

“Educai as crianças e não será necessário punir os homens” : há algumas crônicas atrás,li esta referência.
Pense...Os modismos, apesar de existirem e serem inevitáveis na conturbada cabeça da população brasileira, existe e "exige ",que os momentos doces,do olhar pela janela ou andar na rua,nos chame atençao,tanto quanto, as marcas das calcinhas. E olhe, que nem sempre as marcas das calcinhas são das melhores (rs)!
Mas ,o desencanto no olhar, a falta de capacidade de apreciar a vida , de deixar rolar lágrimas ao ver a natureza pura,fuida de amor, de significativos desenhos naturais,justificam a alma dos poetas.
Xopins são artificiais !
Escolas reformadas são campanhas políticas....
Nada hoje,é suficiente para que os homens de amanhã sintam orgulho dos seus ontens (será que ainda existirá ,nos corações,o ontem?)
Daí: "os olhos que realmente vêem são os olhos do poeta",o resto....infelizmente, fica para depois......
Parabéns!

Placidina Lemes de Siqueira disse...

"Migão", quando eu crescer eu coloco num AUT DOOR o Meu REVELAÇÕES DISCRETAS. Os poemas Meus: O PONTO G DO TRATADO DE ECOLOGIA, O ÚLTIMO PIO NO CERREDO; seus: O CERCO, ALMAS DA CIDADE, DAS NÁDEGAS AO LUAR (com suas 2 leituras KKKK!!!!) e vários de Leda, Cárita, Spíndola, Lena Cossa, Célia, Modesto, Mendonça, Fernandes, Bittencour, Beth, Beth, Augusta, Aidenor,Malu, Bira, outros e outras... quem sabe, se a sola do meu pé aguentar, eu mesma os porei mesmo junto a "abobrinhas" e outras abóboras, num canteiro de obras??

Beijos em Aidê, sua filha Meiriane e netos...e hoje é dia de Santa Terezinha do Menino Jesus.

Abração...
Placidina

Maria Helena Cheim disse...

Poético, florido, enluarado, com muitas observações instigantes, como a calça de cós baixo (também sou contra: no corpo jovem e bem feito é bonito, porém esse tipo de cós pode deformá-lo; e no corpo mal feito é um horror). Fala do lançamento do EU, HEM!?, de Lêda Selma, que eu, Luiz adorei, porque me senti feliz com as pessoas queridas por perto.
Gostei muito de sua crônica. Li-a com prazer.

Abraços.
Maria Helena

Ritelisa disse...

Fiquei com saudades dos meus passeios a pé pela bela Goiânia.

Iraci Araújo Jorge disse...

Luiz querido,

Estou aqui me deliciando com as suas crônicas e sentindo-me muito "amiga-irmã" de muito coisa sentida e dita por você. E a propósito, lembrei-me de uma frase do Drummond que diz, mais ou menos assim: "Um bom poema é aquele que parece estar lendo a gente e não a gente a ele"
Um beijão
Iraci

sinesio disse...

Sua crônica "Predador do amor", me lembra um poeta obsceno, muito chegado à adulteração da poesia alheia. O fim do doce do chiclete (fim do amor)lembra o tal poeta: "Foi infinito enquanto estava duro. O amorleceu."