Páginas

domingo, dezembro 07, 2008

Minha mão ao outro

Minha mão ao outro

Pesquisando escritos antigos, achei o texto abaixo, que suponho não ter sido publicado. E achei-o oportuno para estes dias em que Santa Catarina não nos sai dos olhos, da memória e das dores:


“Sai, cada dia, de ti mesmo, e busca sentir a dor do vizinho, a necessidade do próximo, as angústias de teu irmão e ajuda quanto possas. Não te galvanizes na esfera do próprio eu” (Emanuel).


Ao perdermos uma pessoa querida, dói-nos a dor da ausência prenunciada. Damos de nós a angústia, um sentido de solidão que nos assola e um teor de remorso pelo não-dito, pelo não-feito, pelo não-vivido sobre o amigo, irmão, filho ou pai.
Mas Jesus nos deixou dito: “Que os mortos enterrem seus mortos”. A frase, como tantas outras da Divindade, chega-nos misteriosa, enigmática, mas aos que estudam a doutrina espírita explica-se: aos que passam para o plano espiritual, cabe o cuidado dos que lá estão; a nós, os que restamos em matéria na Terra, compete-nos o zelo pelos que aqui estão.
Não por acaso, chegou-me, há poucos minutos, uma mensagem em texto bem escrito, ornada de cenas em fotos, dando conta da humanidade em miséria: 54,7% dos que estão vivos vivem em extrema miséria. E, todos os dias, morrem de fome e inanição cerca de vinte mil pessoas.
A informação é insuspeita: vem da Agência Central de Inteligência, o órgão de informação e segurança dos Estados Unidos, e resultou de estudos (no ano de 2000) relacionados com a globalização da economia − um eufemismo cínico para a consolidação da hegemonia do capital estadunidense perante a humanidade.
Se isso não bastasse, há um agravante: o custo para se manter essa globalização está integralmente atribuído aos mais pobres.
Cumpre-nos a tomada de consciência, pois, sem ela, nenhuma ação acontecerá em favor da solidariedade ao próximo. Ao capital compete gerar emprego e renda com o intuito de minimizar a dor do outro; e ao indivíduo, ação de caridade a acatamento ao próximo. Fechar-se na armadura do conforto cego e da omissão cínica é ir de encontro à lei natural.

* * *

O texto acima tem uma data: 22/11/06. Ou seja, dois anos passados. O aniversário do meu pequenino texto coincidiu com o segundo dia de dilúvio em Santa Catarina. As chuvas ainda ocorrem por lá, mas em intensidade bem menor; é o momento de se contabilizarem as perdas, de pessoas e de bens. E os prejuízos morais e emocionais, como a perda daquelas coisinhas que se somam à memória para se chamar “a nossa história de vida” (pequenos objetos, livros, quadros, fotografias, escritos etc.).


E o momento dessas análises chega junto com um sem-número de críticas. Como a de um amigo meu de infância, que cobra ações da parte de instituições e entidades ligadas ao social, como a União Nacional de Estudantes, os movimentos de Sem-Terras, dentre outros (estes foram nominalmente citados). Ouvi calado porque, conhecendo meu velho amigo, sei que não se dará por vencido: mas eu lhe digo, por estas linhas, que o silêncio das entidades estudantis se dá por nossa culpa. Nós, que fomos forjados em lutas sociais em grêmios e na resistência à ditadura militar, não precisamos ser provocados para dizer “presente”; mas criamos uma geração de omissos, de jovens egoístas cuja paisagem não vai muito além do próprio umbigo (grande parte deles ornados de pírcins).


Como a belíssima moça que, na última quinta-feira, cobrou-me por furar a fila no banco. Disse-lhe a minha idade, e um senhor dois anos mais velho que eu declarou-se disposto a permanecer na fila, abrindo mão de seu direito legal; e a moça entender ser aquilo uma forma de apoio, “aconselhou-me” a nunca sair de casa para ir a bancos ou a qualquer lugar onde há filas, porque, segundo ela, “nem toda lei é justa”.


Respondi à altura, principalmente quando ela disse que poderia mentir que estaria grávida para não ficar na fila, ou seja, para se beneficiar da lei, ela poderia mentir. Será que ela me achou com cara de jovem? Sugeri-lhe estudar cidadania.


Essa moça, belíssima e muito jovem, talvez massageie a própria consciência depositando alguns reais em contas de assistência aos flagelados de Santa Catarina. Mas jamais sujaria as bem tratadas unhas dos belos pezinhos na lama que a Natureza usou na revanche às agressões humanas.


Que Deus se apiede daquela moça e lhe permita vir a ser uma sexagenária. Talvez, então, ela venha a entender o que é viver em sociedade.



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

7 comentários:

Mara Narciso disse...

Pensei sobre como seria um texto dessa moça sobre o mesmo fato. Será que saberia pelo menos expor o que sente na linguagem escrita? Tenho lido muitos textos dos com mais de quarenta anos. Gosto muito e me identifico com grande facilidade. Então ocorreu-me ver os outros lados, não por discordar do que foi dito, pois se fosse não titubeatia em me posicionar. Mas sim porque os jovens andam muito intolerantes e arrogantes. Sabem, mas fazem de conta que nunca serão velhos. E que um dia realmente sejam, já que alguns não terão essa sorte.

Aos que nos deprezam digo: se não querem envelhecer, que morram jovens, porque senão um dia serão velhos.

Faz bem em protestar Luiz, e faço coro a você!

LUCIANO BYRON disse...

A sensibilidade de Luiz é notória! Palavras suaves para abordar um tema tão "doído". Só mesmo um autor sensível como ele para analisar a citada tragédia com tamanho teor racional humano!
Bom texto!

Irinéa Maria disse...

É, amigo Luiz, somente agora, diante dos meus "sexaninhos" de vida, percebo a intolerância dos jovens, das filas, dos negros, dos judeus,dos políticos, dos desafinados....
E sem nenhuma soberba, me sinto superior a eles!
Tenho-os como seres desajustados, estressados e incoerentes.
Aos sessenta, sou light, espiritualizada e muito feliz!
E eles?

Deolinda disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Já avisei poeta, que com essa face de poeta ainda iria se ver escomungado das filas!
Devia ter dito a dita cuja que ficar na fila é para quem pode, quem não pode, vai todo lampeiro na boca do caixa.
Adorei!

Madalena Barranco disse...

Luiz, querido amigo,

Solidariedade é o combustível da palavrinha mágica: caridade, que fica ainda mais bonita se for ornamentada com mais outras duas palavrinhas: amor e respeito. Seu texto coincidiu com o desastre... Tudo tem um motivo por mais doloroso que seja... E essa moça da fila? Que coisa mais decepcionante descobrir que uma jovem pensa e age de forma tão atrasada!

Beijos.

Fátima Paraguassú disse...

Participar ao vivo do IV Encontro de Mestres do Mundo na Região do Cariri, fez aumentar minha admiração pelos mais velhos, fez aumentar meu respeito e admiração por aqueles que detém o saber.O Governo do Ceará diplomou e reconheceu seus Mestres. Aqui ouvimos uma bárbarie de uma moça que não respeita os direitos de alguém que tem um pouco mais que a sua idade.Nem deveria questionar se um abriu mão dos direitos e outro resolveu aproveitar.O descaso, o comodismo está estampado em nossos rostos. É mais fácil acusar. Enquanto aponto o dedo para meu próximo pelos desmandos e desrespeito com o meio, alivio incoscientemente minha máxima culpa.Por que me importar, estão morrendo pessoas tão longe de mim? para que diminuir o uso de sacolas plásticas? para que mudar minhas atitudes, todos morrerão um dia?!
Dia após dia desmorona nossa casa e não nos damos conta que podemos ficar literalmente sem teto.E aí, o que vai resolver sermos donos do mundo?
Que bom Luiz voce provoca reflexões.

Maria Helena Chein disse...

É, amigo Luís, tantos precisam de ajuda e é tão pouco o que podemos dar, no entanto, é esse pouco de cada um que, somado, gera um muito. O importante é fazermos alguma coisa pelo irmão que precisa realmente de nós outros.
Tanta desolação temos visto em Santa Catarina, perdas dolorosas que fazem a gente chorar junto. Quanta tristeza, meu Deus, quanto infortúnio!
Mas depois dessa crônica, leio a outra e que delícia! Essas crianças lindas e inocentes, com uma inteligência e imaginação que nos enchem de alegria e paz. Meu Deus, aqui eu Lhe peço um mundo melhor, muito melhor para essas criaturinhas.
Grande abraço. Tenha um Natal iluminado com sua família, com todos que ama.
Maria Helena





Maria Helena