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sábado, dezembro 13, 2008

Truculência, overdose e alienação

Truculência, overdose e alienação

Luiz de Aquino 

 

Morreu no Rio de Janeiro o ex-marido da atriz Suzana Vieira, possivelmente vítima de overdose de cocaína. Morreu em Brasília o torcedor são-paulino Nilton César de Jesus, que levou uma coronhada do  sargento da PM  José Luiz Carvalho Barreto. Morreu também a fada Sininho,  que povoou a infância de tantas gerações até uns poucos meses atrás.

A história do ex-policial militar carioca Marcelo Silva, de 38 anos, que foi casado com Suzana Vieira, 66, é cheia de glamour. E, estranhamente, “glamour” é uma palavra que se reveste, muitas das vezes, na lama que se forma na mistura de álcool e pó (no caso, cocaína). Não fosse sua história de vida com a famosa artista, o caso com a estudante goiana de 24 anos e sua morte não alcançariam o noticiário. Mas, a gente sabe, notícia se faz de vários ingredientes.

A cena em que o sargento policial perseguiu Nilton César e desferiu-lhe uma coronhada, seguida de um disparo, deixa claro uma breve (mas, nem por isso, desprezível) série de erros. Primeiro, o torcedor apenas estava na cena do tumulto, ou seja, deu para se notar que ele não oferecia qualquer problema aos policiais incumbidos de manter (?) a ordem. Segundo erro: o sargento usou a pistola como instrumento de ataque, quando o certo seria (seria; não era propriamente o caso) um cassetete. Terceiro, a arma estava engatilhada, ou não teria disparado.

O que se sabe, desde a manhã de quinta-feira, é que a pancada (coronhada) foi determinante para a morte do moço de 26 anos, isto é, não foi o tiro que lhe foi fatal. E o agressor é um policial graduado, e não um soldado recém recrutado ou aluno de academia. Entende-se que, por ser sargento, ele tem condições de comandar um pelotão ou uma guarnição, uma patrulha, uma viatura... Mas quem confia num comandante desses?

Em 22 de fevereiro de 1999, em Caldas Novas, o advogado Reginaldo da Cunha Ríspoli foi assassinado com onze tiros, numa tocaia em que agiram dois pistoleiros. Um deles era sargento da Policia Militar do Distrito Federal. No decorrer das investigações, soube-se que o tal sargento, que continuou “trabalhando” regularmente, tinha outras referências como pistoleiro de encomenda. “En passant”, devo dizer que a Polícia Civil de Goiás finalizou, e de modo muito bem feito, o inquérito, mas o processo continua sem solução porque envolve pessoas de poder (não nas instituições policiais de Goiás, mas... Bem, não é este o tema de hoje).

A partir de agora, e estimulado pela ocorrência de quase dez anos passados, passo a ter medo dos sargentos da PM do Distrito Federal. Parece-me que a farda e as divisas dão a esses policiais uma sensação de poder acima de todas as leis e do bom senso.

E assim, com essa polícia, Brasília quer sediar a Copa do Mundo de futebol em 2014.  Dir-me-ão os incautos que isso acontece em todas as policias do Brasil, e elas são cinqüenta e quatro corporações estaduais em todo o pais. Mas comenta-se que a tal de “banda podre” nas polícias não chega a 5% de seus contingentes. O triste é que os policiais despreparados, tal como os de má índole tornam-se referenciais. Isso é muito ruim. Marcelo Silva, o glamoroso ex-marido de Suzana Vieira, foi expulso da PM, mas Ele não é um caso isolado. Pelo que contou a atual namorada dele, dois soldados da própria PM que o expulsou foram os fornecedores do pó que lhe teria causado a morte.

O cabo e o soldado que mataram Pedro Henrique, aqui em Goiânia, há menos de três  meses, estão em liberdade. O órgão de trânsito municipal de Goiânia tem um coronel como diretor, e ele preferiu montar um batalhão de soldados da PM, pagos pelo Estado de Goiás, para agirem nas funções que deveriam ser dos agentes municipais. Os que mataram Pedro Henrique estão nesse batalhão que, suponho eu, existe à margem das leis e regulamentos da PM de Goiás.

Enquanto tudo isso acontece, a mídia anuncia um filme da Disney que tem no título o nome Tinker Bell. Consultei o Lucas, meu filho de 13 anos, que me esclareceu: “Lembra da Sininho? Pois é! Tinker Bell é o nome americano dela”.

Recorro a 1970, mais precisamente do jornal O Pasquim, guardião da liberdade, e grito “Putz!”, para não gritar “putamerda!”.



6 comentários:

Cristina disse...

Parabéns pelo texto, Luiz! Excelente! Infelizmente a realidade é essa... mas a internet é um democrático meio de comunicação e a nossa voz nunca calarão! Feliz 2009!
Cristina Dumont.

Mara Narciso disse...

Acabo de saber da morte de uma médica ginecologista de São Paulo, chamada Nadir Oyakawa. É de origem japonesa e tinha 53 anos. Era presidente da Sociedade Brasileira de Raio Laser. Cheguei a me consultar com ela.Reagiu a um assalto e foi morta, dentro do carro, na porta de casa e perto de dois sobrinhos. Mais uma cena infame da nossa sociedade podre. A filha chorou desesperada em frente às câmeras de TV. Também cheguei a conhecê-la.

Policiais corruptos ou despreparados, ou os dois, são uma outra face triste da nossa degenerada sociedade. O nome americano de Sininho tem uma horripilância de outro departamento, mas não deixa de ser feio de morrer, ou de matar, para continuarmos no tema.

Anônimo disse...

Infelizmente para que as pessoas se concientizem dos fatos, eles tem que acontecer. Trágico e revoltante, mas pela impunidade é na falta de clareza da Lei, na sua interpretação, que tudo isto ocorre. Hoje somos temerosos de uma polícia que não sabe nos defender e os prisioneiros de bandidos que "sabem" interpretar a Lei, que pelo visto tem favorecido a todos eles. Excelente texto. Parabéns! N@ne

Graça Pinto disse...

Oi, poeta, lí a crônica sobre as aberrações dos policiais e concordo plenamente, nós devemos confiar em Deus a nossa segurança, no entanto até quando vamos continuar pagando as contas desses policiais bandidos, que se dizem responsáveis pela segurança brasileira, o que aconteceu no ES com o Presidente do TJ semana passada, fico me perguntando até quando?

Anônimo disse...

Luiz
a minha realidade é do medo...
parabéns pela sua coragem em escrever...
um grande abraço, Leda

Irinéa Maria disse...

Estou no Canada. Aqui os jornais nao se ocupam com crimes. Ocultam acontecimento de gangs, drogas, assassinatos.
O Brasil divulga em seus telejornais (aqui no Canada)somente desgracas, e me preocupa muito pensar que nao e so de crimes que vive a imagem do Brasil.
Milhoes de pessoas honestas e sensatas, vivem, trabalham, repassam conhecimentos, ajudam,incentivam , e tudo fazem para que nosso Brasil seja uma terra melhor, mais digna...
me surpreendo com essas noticias, mais ainda, por estar fora.
Nao e isso que gostaria de ler. Seria muito melhor, ver o trabalho das bordadeiras, dos artesaos ,dos professores ,medicos,engenheiros, dos incentivos nas comunidades, da independencia dos indios,da vigilancia de nossas fronteiras,do cerco aos traficantes, da humanizacao das prisoes,da resistencia das florestas e nascedouros,atraves da inteligencia ecologica....
Luiz, querido, nao me julgue, apenas me entenda...
bjs nevados