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sexta-feira, janeiro 07, 2011

Marcela Temer, a Dama


Marcela Temer, a Dama


De repente, a moça se tornou evidência inevitável em todos os veículos noticiosos do país, ou, pelo menos, nos que não têm como preencher devidamente seus tempos (nos casos de tevês e rádios) ou espaços (jornais e revistas). De repente, porque um deputado federal por São Paulo, que por duas vezes, ao menos, se fez presidente da Câmara Federal, presidente de seu partido (o maior do país) e que foi candidato (e venceu) a vice-presidente da República revelou ao mundo que é casado!
Até parece que Michel Temer, presidente licenciado do PMDB e vice-presidente da República, empossado no primeiro dia deste mês (e deste ano), escondia sua esposa! Até parece que a moça só se mostrou no momento da posse, ao lado da primeira mandatária, Dilma Rousseff. E só então a imprensa mundana, mais desocupada do que aparenta, descobriu que Temer tem mulher e filho, e que a cônjuge é jovem e bonita.
Cônjuge é uma palavra feia; muito feia. Só perde para “esposa” e sua equivalente masculina, sobretudo quando pronunciada em tom melífluo, com fingido e respeitoso carinho demonstrado por quem fala. Esposo, esposa diz respeito ao momento das núpcias; o mesmo que nubente, nubentes... ou esponsais; depois da cerimônia, o certo é mulher e marido.
Voltando a Marcela, a Sra. Temer, o susto dos repórteres sem ocupação ficou por conta da beleza e da juventude da mãe de Michel Jr. )ou será Michel Filho?). E aquele longo intervalo: 43 anos tinha o político quando nasceu Marcela, que viria a ser Miss. O homem Michel encantou-se com os predicados físicos de Marcela; certamente é um homem inteligente e sagaz, e vislumbrou outras qualidades na moça. O resultado foi o que todos já sabem e não merece mais descrições.
O que merece atenção, de fato, é a ociosidade dos profissionais da imprensa. Facebook, Twitter e outros sites sociais estão repletos de pessoas desocupadas, gente que vai ter o que fazer ao longo dos próximos três meses, quando as tomadas diárias da TV Globo com o seu BBB substituírem o tema preferido dessa gente. Mas que jornalistas empregados em grandes estruturas  gastem tempo e espaço com especulações e maledicências sobre o vice-presidente e sua musa, ah!... isso extrapola qualquer limite de bom senso!



É inveja, claro! Os homens, com inveja indisfarçável do septuagenário substituto de Dilma; as mulheres, com inveja de Marcela. E entre as mulheres a inveja deve ser muito maior. O que não falta no Brasil é mulher jovem e bonita. Aliás, e repetindo Ziraldo, “Não há como alguém ser feito nessa idade” (disse ele em Goiânia, durante uma entrevista a mim para o Zeferino, jornal de humor do Jorge Braga, lá por 2004); o humorista referia-se a adolescentes, mas Marcela, naquela época, era um pouquinho mais que adolescente; mas já era casada com o deputado Temer.
Inveja feminina, dizia eu, e muito mais apropriada que a dos homens. Desconheço homem mediano que não tenha namorado, alguma vez, namorado uma mulher bonita; mas são muito poucos os homens casados com mulheres bonitas. Na hora da definição ante o futuro, não é a beleza física que conta, todos sabemos disso. Mas as mulheres sonham, sim, com um parceiro que seja um príncipe; não sendo possível, que seja ao menos meio príncipe; ou barão: educado, gentil, cavalheiro, decidido, com boa projeção social e... e... O principal: que esteja bem de vida; se for rico, melhor ainda. E se juntar todos esses predicados, vira príncipe, sim!
Um homem rico, maduro, experiente, bem sucedido nos negócios e em sociedade, presidente da Câmara... Pô, esse cara é quase um príncipe! E nas medidas republicanas, ele é o primeiro na sucessão. Quer melhor? Temer talvez não seja um exemplo de beleza para as mulheres, mas reúne, sim, itens indispensáveis para a escolha de dez entre dez mulheres contemporâneas.
Então, gente, eis aí, de novo, o abuso das regras comezinhas de comunicação: afinal, queremos liberdade de expressão para que mesmo? Para mostrar que essa moça é bonita? E daí? Interessa-nos saber se ela, na parceria conjugal com o homem mais poderoso da República (claro: a pessoa mais poderosa é a Dilma; ele é a segunda pessoa, mas o primeiro homem), vai gerir algum programa social de relevada importância, como inaugurou a Sra. Darci Vargas, mulher do poderosíssimo Getúlio; e Dona Gercina (em Goiás), durante os períodos de poder de Pedro Ludovico. A mulher do presidente Lula preferiu ficar de braços dados com o marido, não se manifestou como elemento capaz de atuar na sociedade brasileira.
Espero, sinceramente, que Dona Marcela cumpra esse propósito. Afinal, suponho-a bem preparada intelectual e socialmente, por meras evidências; o convívio com o marido certamente a mantém a par da realidade brasileira; as línguas (ou ínguas) da futilidade, repetindo o tom e as intenções da campanha eleitoral (tal como vimos nos e-mails enviados por eleitores e simpatizantes do principal candidato de oposição em 2010) chegaram ao disparate de afirmar que a moça deu um golpe do baú, que ela é isso ou aquilo (isso mesmo: entendam aí as palavras que estou evitando, mas elas chegaram nuas e cruas em alguns e-mails e pela falta de um nível ao menos respeitoso, removi da minha lista os remetentes de tais notas).
Neste últimos 60 anos (isso mesmo: sessenta), desde quando li o primeiro livro da minha vida, interrompi a leitura de inúmeras obras por encontrar trechos, palavras ou ideologia que não acrescentava nada ao meu conhecimento. Assim tenho feito, também, com os jornais e os noticiários de rádio e tevê: desprezo a notícia. Jornalistas são profissionais de quem se espera nível superior – e esse nível não é, necessariamente, o de escolaridade; Nelson Rodrigues, por exemplo, sequer concluiu o ginasial, ou seja, o que hoje chamamos de Ensino Fundamental. Mas era Nelson Rodrigues, superior! A muitos, a gente vê, não basta um diploma de faculdade – o aprendizado e o senso crítico passaram ao largo.
Até agora, não me consta que alguém tenha realizado, com a mulher do vice-presidente, uma entrevista de peso e (ou) profundidade intelectual. Neste caso, caímos na mesma figura da entrevista com jogador de futebol: há pouco mais de um ano, um comentarista de futebol entrevistava uma jovem e bela repórter de campo; a moça, sorridente e bem embasada, respondeu à primeira pergunta de modo a demolir a anta que a entrevistava; perguntou o cara: “Entrevistar jogador é difícil, não é? Eles sempre respondem igual”, disse ele; e a moça respondeu: “Sim, eles respondem igual, mas é porque os repórteres perguntam sempre igual”.
Fiquei com vergonha por ele; mas o despreparado, certamente um desses que sempre “perguntam igual”, não percebeu a força da jovem e iniciante colega.
Enfim, é isso! Espero que Marcela Temer reapareça no noticiário, mas como a parceira que o Brasil precisa para atuar no quadrante social do novo governo, já que a presidente Dilma não tem marido e, se o tivesse, talvez ele não fosse preparado para executar projetos nessa área – coisas para as quais as mulheres, ainda que não formadas na área, costumam realizar com maestria.

* * *

Luiz de Aquino – jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

7 comentários:

Anônimo disse...

Talvez não seja falta do que fazer de certos jornalistas,mas sim, o impacto que a beleza de Marcela causou nesta Corte Tupiniquim, pois estavamos acostumados a ver primeiras damas discretas, mas simpáticas como Mariza Alencar. Discreta , mas intelectualisada até no vestir, como Ruth Cardoso, piruadada como Dulce Figueiredo e finalmente,a "apeterecada"botocada" Mariza Letícia, que mais parecia uma pamonha amarrada, um múmia...

Luiz de Aquino disse...

Novamente, solicito que se identifique sempre que enviar um comentário.

E agradeço, sensibilizado e feliz, sua opinião. Porém, e por ser jornalista há 43 anos, devo esclarecer-lhe que já não vivemos o tempo em que o profissional de comunicação deve ser culto; o de hoje, na faixa dos 20 e 30 anos, é muito diferente; falta-lhes conhecimento de história, de geografia, noções básicas de filosofia e sociologia, escrevem e falam muito mal e emitem opiniões disparatadas.

Na terça-feira passada, posse de Iram Saraiva como presidente da Câmara Municipal, um radialista com uniforme e gravador, comentou, ao término do discurso: "Erudito demais; assim não dá". Eu gostei, pois Iram, homem culto, na mesma faixa de idade que eu, foi suscinto em sua oratória, rico em exemplos e frases de efeito, e citou poucos notáveis. Ou seja, fez um discurso culto e inteligível, mas o coitadinho do radialista chamou aquilo de "erudito demais".

São esses os repórteres que se deslumbraram diante da moça bonita. E existem sites na Internet tentando incluir a mulher do Temer entre as que devem posar para a Playboy e ter fotos de nudez divulgadas na grande rede.

Chegamos a isso!

Anônimo disse...

Caro Luiz
estou contigo e não abro.
Eric

Mara Narciso disse...

Voz dissonante e bonita defesa dos homens idosos com mulheres jovens, Luiz. Enquanto elas são vistas como caçadoras de fortuna, eles são colocados como a voz da experiência. A mulher sempre está em desvantagem. Não sou partidária de casamentos com grandes diferenças de idade. Há, decerto, interesses não publicáveis. Tenho na família alguns casos de homens e de mulheres mais velhas com cara-metade jovem. Espero apenas, que, quando Dilma arrumar marido, e se ele for 43 anos mais novo, ou seja, um rapaz de 20 anos, sendo ela uma mulher de 63, todos deem a ela as mesmas considerações recebidas pelo senhor Temer.

Heliany Wyrta disse...

Vivemos num mundo de superficialidade e visão rasa sobre a vida,sobre o amor...
Fora que adoramos entender a vida dos outros,mas não conseguimos dar conta da nossa.(E as vidas anteriores a esta, o que sabemos?)
A idade...
o sexo...
o dinheiro...
a aparência...
é isso que realmente importa?

gracas pinto disse...

Parabéns poeta mais uma vez, a crônica sobre a esposa do Temer está excelente e sobre a educação dispensa comentários, quanto os amigos jornalistas ralmente muitos precisam rever suas posturas e as escolas de formação também.

Lílian Maial disse...

Interessante artigo, bem escrito, oportuno. Vale comentar apenas que pior ataque de machismo, de homens e mulheres, seria o inverso dos sexos. Já imaginaram se fosse uma mulher de 70 anos, poderosa, casada com um homem de 27 anos? Conseguem perceber o "furor" que causaria? Seriam os comentários menos rudes? Seriam melhor fundamentados? A independência da mulher e seu devido lugar na sociedade ainda estão engatinhando...