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sexta-feira, janeiro 14, 2011

O Dedo de Deus e a Casa de Cora

Panorâmica da Serra dos Órgãos 



 O Dedo de Deus e a Casa de Cora

A Casa de Cora, na margem
direita do Rio Vermelho
Cidade de Goiás, noite e dia...



Escrevo sob a perplexidade das mais novas tragédias tropicais, estas que marcam nossas vidas pela junção de fatores que só tem isso mesmo a nos oferecer. Vejamos: as serras com base de granito, capeadas por um solo sedimentado há milhões de anos, ornadas de verde permitido pelo sol, habitat de animais nativos a viver harmonicamente, tudo regido pelo Dedo de Deus – o pico simbólico que melhor marca a região serrana fluminense.


São Paulo: rua ou rio?


Dias e semanas antes, era São Paulo, a metrópole desordenada, acumulada da ânsia de sobrevida e do sonho de melhorar. Melhorar o quê? Melhorar, apenas! Melhorar já é muito, não carece predicativo. E as rodovias, as pontes, a falta da indispensável vistoria e da manutenção necessária. Córregos que transbordam e superlotam os rios, entulhos de toda natureza a obstruir galerias, a somar-se nos mananciais.

E a serra. Sempre a serra, a encosta, o íngreme talude, o desrespeito às técnicas em nome de uma redução de custos que, em lugar de benefícios, resultam em prejuízos irreparáveis para o povo e num absurdo volume em contas secretas mantidas lá longe...

Brasília; sítio escolhido desde o Século XIX

A sugestão secular que ganhou força no sonho de Dom Bosco e na teimosia de Juscelino Kubitschek mostra-se sábia. Nada de grave no Planalto Central. Os vales de rios que transbordam, bem como as montanhas das florestas que deslizam deviam ser mantidos em sua natureza virgem. Pinheiros e Tietê emporcalhados irremediavelmente; os formigueiros humanos dos morros cariocas; as casas dos ricos, da gente comum e das pessoas muito pobres, encasteladas nas encostas, desafiam a natureza e o tempo em seus dois conceitos.

Em Goiás, sei que o Rio das Almas está cheio; mas Pirenópolis dorme em paz, no recôndito de seus casarões alinhados em ruas tortas ladeira acima; mas o Rio Vermelho regurgita o excesso, transpõe a altura das pontes, lambe alicerces e ameaça a história visual. A Casa Velha da Ponte da Lapa, berço, morada e mortalha de Cora Coralina, resiste impávida. Até quando?

A casa, o rio, a ponte... Tema de muita prosa e poesia

Puxo arquivos e colho um poema. O mesmo que mostrei à poetisa Marilda Confortin, que o pôs na parede da Biblioteca Cora Coralina, na Escola São Miguel, da rede municipal de ensino de Curitiba. O poema é 

A casa nasce das águas

A casa de Aninha, a casa grande  
na beira da ponte, 
dá a mão ao tempo e espera outro século.


Mas a casa está só.  
Não há mais quem lhe varra o chão 
e espane o pó das histórias.

O tacho de cobre não coze mais doces: 
Aninha descansa em São Miguel. 
Não mais as histórias dos becos nem livro de cordel.

Doce Ana doutros anos, 
orça e voz, tempo e tempero.

Foi-se Ana, a cordeleira, cordilheira feito humana, 
canto e coro, coralina, voz menina, canto forte 
cristalina voz poesia.

A casa nasce das águas 
à beira da ponte, à beira do tempo. 
A casa escura das águas.

Rio Vermelho resmunga. 
Rio velho, triste...  
Rabugento, o Rio Vermelho.

Foto: Site Cidade de Goiás (10/01/2011)


Lá longe, na serra fluminense, a Serra dos Órgãos ostenta o pico mais famoso. O Dedo de Deus aponta o céu, mas os homens de duzentos anos não souberam ler o aviso. Invadiram a montanha, feriram a superfície, derrubaram a mata e ergueram casas, riscaram estradas, beberam as fontes dos montes, mas não louvaram o Criador. Em vez disso, desafiaram as leis naturais.

Teresópolis-RJ, Centro, antes das chuvas trágicas

Não é difícil detectar os quatro elementos em ação. Há dois mil anos, a luz noturna sobre a cratera do Vesúvio lembrava fogo; era Pompeia, o vulcão de luz e calor, pedras e pó, e a lava incandescente a sepultar tudo. Na Serra dos Órgãos, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo repetem-se vítimas. Água e terra soterram casas, coisas e pessoas., destroem estradas e pontes, mudam o curso dos mananciais naturais.


E agora, Cora, o Brasil chora uníssono. A Serra dos Órgãos é, hoje, uma Pompeia tropical.

*  *  *

Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.
E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.


17 comentários:

Heliany Wyrta disse...

Oi Luiz,
fico indignada e estarrecida com o que acontece nesse país!
Essas tragédias poderiam ser evitadas.
Não é a vontade de Deus agindo!
Não é o acaso!
A natureza sempre dá sinais claros do seu descontentamento com a forma humana de intervenção.
Infelizmente, as pessoas delegadas por voto direto a gerir nossas riquezas materiais e promover melhoria de vida para todos não demonstram nenhum interesse por estas questões.
Quantas tragédias ainda serão necessárias?
Por isso não acredito mais nessa farsa eleitoral e nem nesse sistema falido de democracia.
Tanta desgraça!
Tanta corrupção!
Tanto sofrimento!
Tanta omissão!

Meu peito dói pela dor de tantas famílias que sofrem nesse momento, no Rio. E , também por ver nossa querida Vila Boa em perigo!

Nada mais a dizer, agora sinto dor e indignação!

Lílian Maial disse...

Muito triste.
EStou desolada.
Beijos

Madalena Barranco disse...

Nem me fale, Luiz querido... As chuvas são naturais, no entanto, falta que o homem respeite a natureza e o governo FAÇA sua parte, porque todos os anos acontece o mesmo problema que acarreta tragédias.

Beijos

Eduardo disse...

gostei do que encontrei por aqui! Se puder gostaria que me visitasse. Um abraço!
http://pensamentosduneto.blogspot.com/

Mara Narciso disse...

Maravilhoso poema de Cora Coralina! Um alerta de que se nada for feito, a qualquer hora, com essa natureza raivosa com nossos impropérios, a casa pode sucumbir, como tantas na região serrana. E para nunca mais.

Bethânia Loureiro disse...

Luiz, tudo muito sofrido!!!
Imagens inesquecíveis...
Que essa fase de 'expiação'
logo passe...
A esperança é recorrer ao Sagrado que habita em nós...
abraço carinhoso

Jô Sampaio disse...

Pelo dedo se conhece o gigante, diz velho provérbio. Certamente o Gigante (Deus), cujo dedo se eleva
aos céus, está dizendo: Não culpem São Pedro pelas trágicas consequências da favelização das encostas,
nem pelo uso inadequado do dinheiro público e, menos ainda, pela falta de mapeamento necessário às
áreas de risco. O cronista Luiz de Aquino leu, na direção apontda pelo DEDO DE DEUS: A culpa
não é dos céus. Mortes e prejuízos, em quase todas as catástrofes, se originam do descaso do poder público.

Klaudiane Rodovalho disse...

Nem imaginávamos, há praticamente um ano, que testemunharíamos uma tragédia pior que a de Angra dos Reis.
Chegou a hora das autoridades se darem conta de que no Brasil também acontece tragédia. Num país de natureza exuberante, discutir Meio Ambiente e Sustentabilidade não pode ser modismo de campanha política, tem de haver ações que impeçam construções em áreas de risco, conscientização das consequências da falta das matas ciliares.
Pagaremos mais caro ainda se não prestarmos atenção na fala da Natureza: para toda ação existe uma reação igual e contrária.

Regina jardim disse...

Arrebentou, Xuxu!!! fantastic!

Noemi Almeida disse...

Crônica realista e muito bem escrita. Parabéns amigo escritor.

Márcia Veiga disse...

É isso aí Luiz, há séculos desafiamos as leis naturais, nos esquecendo que, da mesma forma que ela no dá, subtamente nos tira. Lí seu artigo, por sinal muito bem escrito. Parabéns grande abraço.
Vou compartilhar no meu mural! ok?!

Viviane Vaz disse...

Beleza pura, amigo poeta!

(*) Maria Lindgren - Escritora carioca disse...

Maria José Lindgren Alves

"Cora... O brasil chora..."
Uma texto muito bom mesmo. Obrigada e o meu texto em resposta
Maria Lindgren



A Tragédia Das Águas



O verão, esta época danada para quem mora em país tropical, chegou com ar estranho. Força menor de calor do que no final da primavera e chuva. Em plenas festas de fim de ano, o receio de chuvarada, raios e trovões sondava o ambiente. A chegada do Menino-Deus, causadora sem nenhuma culpa de desvarios das classes medias, venceu as ameaças das nuvens. O Réveillon de Copacabana, ameaçado de ter seus fogos de artifício conspurcados, saiu melhor do que a encomenda. A igreja da Penha se iluminou e encheu de piedosos, agradecidos pela paz no bairro e adjacências. Uma alegria.
Mas, o mês de janeiro, obedecendo aos comandos de nossa impiedosa mãe-natureza, logo que acabou a farra quase obrigatória de muitos, mostrou que não se brinca impunemente com o tempo: nossa bela Região Serrana, logo no dia 11, foi literalmente inundada. Verdadeiro tsunami de água doce.
A televisão, sempre cheia de cócegas para contar tragédia, não se contentara com as imagens aflitivas das cheias do rio Tietê e outros de São Paulo, de triste celebridade, devido ás águas superabundantes das enchentes. Mal deixara de lado as vozes, os tiros e outros ruídos beligerantes do afamado local de traficantes de drogas do Rio de Janeiro, o Complexo do Alemão, “pacificado” a ferro e fogo pelas Forças Armadas brasileiras, fixou suas câmeras e seus comentários em outras paragens, episódios trágicos costumeiros, no próprio estado que a sedia. Um assassinato aqui, um transbordamento de gente nas cadeias ali, um assalto a transeunte ou acidente do trânsito acolá... E deu-se a repetição dos borbotões de chuva a arras ar a bela Região Serrana, como o havia feito com a não menos bela região praiana de Angra dos Reis, em 2010, e com Niterói, não tão bela assim.
Mais uma vez, um absurdo de avalanches despencou dos morros, fez transbordar os poéticos “ rios de minha aldeia”, como dizia Fernando Pessoa, invadiu casas de pobre e de rico. Porque aqui no nosso estado não escaparam as mansões, construídas sem a inspeção cautelosa do solo como qualquer casebre de pobres. Dizem que algumas residências foram feitas por cima de um charco em Itaipava, Petrópolis, do mesmo modo que os mais necessitados no lixão de Niterói. Não sei.
Os comentaristas das universidades, de plantão imediato nessas horas sofridas, inundaram os canais de comentários sabidos sobre o que deveria ter sido feito e não o foi.
- O desconhecimento do terreno onde se constroi é uma das piores causas.
- As margens dos rios, desmatadas sem a inspeção necessária, some com os anteparos para a força das águas.
- Os monturos de lixo, jogados a esmo pela população mal-educada, causam obstrução dos bueiros e outras vias de escoamento nas cidades.
- A necessidade de moradia para os pobres não os faz cautelosos com seus locais de construção de casas e o fazem em zonas de risco.
- As prefeituras não dão contam dos serviços de prevenção às enchentes, não me perguntem por que. (Aqui os entrevistadores do partido no poder fazem o possível para não culpar os governos; um ou outro deixa escapar uma queixa.)
E tome de enxurrada e tome de horror, de gente morta e de feridos. Para desespero da gente que perdeu tudo e, muitas vezes, toda a família. E para o nosso, telespectadores-cidadãos, por nos sentirmos sem armas para livrar-nos de tudo isso.
Até quando, Deus Meu!!!!!!!

Maria Lindgren (*)

Anônimo disse...

Você está certo Luiz.
Dom Bosco e Kubitschek também estavam.Um sonhando, o outro realizando. Com determinação. Nada de grave no Planalto Central, quanto às chuvas, é claro. Enquanto na Região Serrana desenrola-se (ainda se desenrola) a maior tragédia tropical de todo o País, em todos os tempos.
Mas não é só por aqui que acontecem esses descalabros da Natureza, enfurecida diante de tanta agressão! Já faz um tempinho que ela está mandando seus alertas.
"Al Gore", em seu documentário, "Uma Verdade Inconveniente", há quatro ou cinco anos atrás, já enfatizava a gravidade dessa situação a nível planetário. Disseram que ele teve motivações políticas. Que as tivesse! Ele documentava uma VERDADE INCONVENIENTE para os poderosos.Foi muito triste ver um "irmão nosso" o urso polar, por exemplo, embasbacado e atônito, deslizando sobre uma placa de gelo que se derretia, perdendo seu habitat (sua casa)sem saber o que fazer e nem para onde ir.
James Lovelock em seu livro "Gaia: Alerta Final" afirma, com muita propriedade, que a Terra é um "organismo vivo" e que TODOS OS SEUS SERES ESTÃO INTERLIGADOS E SE INTERDEPENDEM" . E o cientista ergue seu tom de alerta, quando afirma que o Planeta está perdendo cada vez mais sua capacidade de auto regulação, diante da interferência desumana dessa industrialização capitalista, tendo a seus serviços uma mídia estimulando ao máximo esse consumismo desenfreado e delirante. E a tudo isso assiste uma África dizimada por outra tragédia talvez mais cruel: a desnutrição, a fome e um quadro de endemia excessiva, também estimulado pela indústria farmacêutica, para testar seus medicamentos. Confira no filme "O Jardineiro Fiel".
Também disseram que o "barulho" que Lovelock fez era uma estratégia de market, no lançamento de seu livro, acho que em Londres.
Passei vinte anos de minha vida naquela Teresópolis linda e querida. Morava ao pé da Mata Atlântica que quase chegava ao meu quintal. E nela, Natureza exuberante, às vezes me embrenhava, mata a dentro, para sentir sua grandeza e me energizar.
Assisti a tudo, pelos tele-jornais, eu também, embasbacada!
Deixei lá muitos amigos. Muito bons amigos! Uns ficarão lá para sempre. Vão virar mata também...
Outros perderam tudo. Famílias inteiras desapareceram!...
Isso acontecia todos os anos, em proporções menores, é claro. Mas nunca nada se fez.
Tudo por um imediatismo de poderosos que também não vão levar nada, quando se forem daqui.
Acho que muitas pompéias ainda estão para acontecer, Luiz!

Gostei muito da foto da Cora-linda!!!

Creusa disse...

Oi,Luiz
Esse assnônimo aí, agora vai assinar. Me atrapalhei e enviei anônimo. CREUSA

Creusa disse...

oi Luiz

Esse anônomo aí sou eu, Creusa que não consegui enviar o comentário pelo e-mail antigo. Vou tentar agora

Luiz de Aquino disse...

O texto acima é de Creusa Castro, moradora de São José dos Campos. Amei! Belíssima análise...