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sábado, janeiro 01, 2011

O sonho de Thiago Peixoto


O sonho de Thiago Peixoto


Há quarenta anos, um jovem professor da rede estadual de ensino, em Goiânia, foi dispensado de sua função em dois colégios: o tradicional Lyceu e o Dom Abel, no Setor Pedro Ludovico. Em ambos, mandaram-no procurar outros colégios, que vários foram abertos, que havia os convênios com a rede privada etc. e tal. Mas o jovem professor não conseguiu se firmar em nenhum outro estabelecimento, pois misteriosos telefonemas aconteciam para levantar suspeitas: o moço parecia comunista. Não se fez acusação formal, mas a boataria foi bastante para tirá-lo da profissão.

O jaleco, os mapas geográficos, os planos de aulas e de cursos, o giz e o quadro – tudo isso virou saudade. Bancário que era, o moço esqueceu o projeto de vida, sepultou um sonho. Fixou-se na carreira do banco, perambulou por outros empregos, apegou-se de vez ao jornalismo (que exercia como diletante) e tornou-se repórter, repórter fotográfico, redator, editor, assessor de imprensa. Paralelamente às reportagens, artigos e editoriais, escrevia crônicas, contos e poemas. Ou seja, mudou a sintonia, e o sonho de ensino bandeou-se para o da escrita.

Pouca diferença, pensava ele... Tudo era comunicação. A Educação exigia, sim, algo mais; não bastava informar, era preciso formar. Aquele sonho frustrado pela fofoca denunciante não morreu: adormeceu. Era importante não esquecê-lo. Desde aquele esforço de auto-salvação profissional, vão-se quatro décadas! Os perseguidores ainda vivem, mas esquecidos. O jovem cuja carreira foi ceifada no início tornou-se jornalista e escritor; sem a lousa e os cinquenta minutos de aula, foi compensado com os espaços nos jornais e a oportunidade de produzir livros.

Como fruto inevitável, tornou-se também palestrante para turmas várias de escolares e acadêmicos. Certamente, sua primeira clientela, ouvinte de temas literários e políticos, passa hoje dos cinquenta anos. Sente-se, assim, vitorioso sobre a maledicência dos velhos colegas daquele tempo, já então professores grisalhos.

Claro: o professor conduzido ao fracasso de um sonho sou eu.

Vendo, agora, a teimosia do jovem deputado Thiago Peixoto por aceitar o convite do governador Marconi Perillo para ocupar a pasta da Educação, não consigo evitar uma enorme simpatia. Disse ele: “É o meu sonho”. E essa frase bastou: ela justifica tudo. Um grupo de filiados ao PMDB, partido de Thiago Peixoto, fala em expulsá-lo; ao assim agir, eles repetem o que fizeram aquele velho professor e as duas senhoras professoras que impediram-me de continuar professor. Thiago não jogará fora esta chance, que ele tentou realizar na Prefeitura de Goiânia, na administração do prefeito Iris Rezende. Agora, é Iris quem propõe que Thiago renuncie.

Engraçado! Para ser ministro da Agricultura no Governo de Sarney, Iris não renunciou ao Governo de Goiás – licenciou-se. E para ser ministro da Justiça de FHC, não renunciou ao Senado – licenciou-se. Porque ele exige a renúncia de Thiago? É incoerente. Até porque, ao preservar-se titular da cadeira de deputado federal, Thiago assegura uma oportunidade de retornar ao cargo, caso aconteça incompatibilidade no governo “tucano”.

A persistência do jovem em dedicar-se à Educação é admirável, louvável até! Acho que Goiás terá muito a ganhar, bem como o novo governo de Marconi Perillo; e também o PMDB, porque ele é um jovem e promissor líder na velha sigla (tão velha que continua insistindo no comportamento dos coronéis de antanho, para usar uma palavra que cai bem no caso).

Ao convidá-lo, Marconi Perillo mostrou não apenas  grandeza política, compondo seu governo com valores de siglas várias, mas também a argúcia do executivo que bem sabe escolher auxiliares. A derrota de campanha já é coisa do passado e lamentar o leite derramado é inútil e triste. Afinal, o PMDB não foi maduro o bastante para aliar-se ao PT de Lula, sigla e líder antes abominado? Porque essa rejeição sistemática a Perillo? E porque tolher, agora, o sonho de um jovem e dinâmico político, um moço diferente no trato do fazer-político e de vislumbrar o futuro? Sem uma Educação de qualidade, não cresceremos; e o Século XXI é o desafio que o Brasil tem ante o Mundo; que Goiás tem ante o Brasil.

Neste dezembro de 2010, um péssimo estudante mineiro matou o professor em cuja matéria não conseguiu ser aprovado; o fato foi, por si só, chocante. Mas a frase de um estudante, colega de turma do assassino confesso, definiu bem o mestre: “Ele não saía de casa para ganhar dinheiro, mas para construir outra pessoa”. Entendi bem isso; foi para isso que me formei. E entendo bem a postura de Thiago Peixoto: ele quer construir um novo método, de modo a viabilizar a construção de outras pessoas.

Boa sorte, Secretário Thiago!


* * *

Luiz de Aquino 

6 comentários:

Cristina disse...

Coerentemente direta, para quem é bom entendedor. Parabéns!

Betha Mendes disse...

Professores nunca deixam de sonhar!


Betha

Lindalva Costa disse...

Luiz. Boa Noite!
Gostei da Crônica, "O Sonho de Thiago Peixoto". Admiro a visão elevada que você tem em relação a educação. Parabéns.
Lindalva

dieguito de moraes disse...

Emocionante
conhecer sua história de lutas e de idéias;
e ler aqui neste belo texto,
como sua visão, redimensiona o caso de Thiago Peixoto.
Parabéns por nos presentear com este blog!
Forte abraço!

Heliany Wyrta disse...

Sua história bem pode lembrar a de Thiago ou não. Não sei se ele merece ser comparado a você, Luiz.
Não conheço muito bem o jovem moço Thiago, mas pelo que ouvi ele não tem nenhuma formação em educação. Sei que fez algumas visitas a Nova Iorque para conhecer o projeto de ensino de lá e escreveu um livro sobre educação.
Mas como é político, as dúvidas que tenho são as seguintes: ele escolheu o tema educação como sua bandeira eleitoreira ou como projeto de vida?
É um sonho que tem haver com a formação das pessoas, principalmente das escolas públicas de Goiás (não sei se ele conhece a realidade daqui) ou está ligado a sua promoção para alçar vôos políticos mais altos para engrandecer seu ego apenas?

Gostaria de ser tão crédula como já fui (quando acreditei que o PT faria uma política realmente transformadora), mas cresci, vivenciei muita coisa para deixar me levar apenas por palavras bonitas, Luiz.

Mas pelo bem dos goianos, e da transformação educacional necessária, espero que o secretário Thiago Peixoto faça um bom trabalho.
As mazelas na educação são astonômicas e, infelizmente, piora a cada ano.
Precisamos de atitudes concretas, não podemos admitir maus professores que puxem saco e por isso façam o que quer sem serem incomodados, não podemos aceitar bons professores serem perseguidos porque não aceitam as condições de penúria da educação.
É preciso valorizar financeiramente os profissionais e, cobrar rigorosamente um trabalho de qualidade. É preciso oferecer condições estruturais adequadas de trabalho.
É necessário determinação e vontade para fazer o que passou da hora de ser feito!
O tempo vai, com certeza, me mostrar a verdade!
Por enquanto guardo minhas dúvidas!

Sueli disse...

O fato de ter sido maldosamente afastado das salas de aula, pode ter frustrado sua carreira de professor, mas nunca de Educador; tal seria impossível, haja vista a conribuição que jamais deixou de prestar. Voto para que o jovem Thiago, que eu não conhecia, pois não participo da Educação em Goiás, possa alcançar sucesso. Afinal os sonhos não morrem, adormecem, para depois despertarem nos mais jovens: certeza de uma Educadora aposentada apenas das salas de aula, que continua contribuindo.