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sábado, setembro 10, 2011

De letras e música




De letras e música


Conheço três escritores daqui da terrinha que não gostam de música. Ou melhor: eles gostam de música clássica ou, pelo menos, instrumental. O primeiro entre estes, há mais de trinta anos, acusou-me de “mau ledor de poesia” ao notar que eu gostava de MPB – afinal, era o tempo em que letras de música eram instrumentos de nossa insatisfação com o regime; e, paralelamente, eu gostava de letras poéticas e românticas.

O segundo tem um postura interessante: nunca o vi a curtir alguma música, a comentar uma letra ou mesmo a fazer fundo musical – por exemplo, nas viagens de carro, que viajamos juntos algumas vezes – para a conversa. Dele ouvi que música, diretamente, não lhe diz respeito, prefere outras manifestações de arte.

E o terceiro, este limita-se apenas à música que chamamos clássica. Para ele, a música prescinde naturalmente de letra e letra de música é um péssimo poema que pede apoio a outra arte.

Dos três, cultivo amizade com apenas um. Um desses aí, que conheci há quase meio século, entre os muros e as salas de aulas do Liceu, sempre me dedicou olhares discriminatórios e sua simpatia não me faz falta; um outro, a quem tomei por amigo há uns quarenta anos, merecerá de mim artigo especial a qualquer momento. Inclui-se entre aqueles animais de péssima memória, incapazes de reconhecer, num circo ou num zoológico, o próprio tratador (a pessoa que lhes traz comida). O segundo é, entre os três, alguém de quem ainda aceito o tratamento de amigo, embora guarde anos de silenciosa ausência.

Carlos Drummond de Andrade
Gilberto Mendonça Teles
Fernando Pessoa

Bem, o parágrafo anterior é quase que desnecessário aqui; escrevi-o apenas como um desabafo e um modo discreto de justificar a omissão dos nomes; sobre os desafetos, esclareço que aprendi com Carmo Bernardes que nem todo mundo merece ter seu nome escrito em letra de fôrma; e o que está salvo em meu critério é omitido para dificultar a identificação dos pulhas.
Não tratarei aqui do mérito das letras de música. Muitas delas são poemas perfeitos; andariam sozinhas como obras de finíssima literatura, mas enriquecem as melodias ou fazem belos pares com estas. Outras há que não sobreviveriam sem o acasalamento com a melodia. Portanto, grande parte do que temos como música popular reveste-se de predicados para ser tratada como arte. Mas o que temos agora...

"A Banda", de Chico Buarque; por que não
se fazem mais letras como antes?
Nas duas últimas décadas, vivemos um período triste para o cancioneiro nacional. Coincide com o tempo de redemocratização – como se nossos azes da canção só produzissem bem quando oprimidos. Mas não é (só) isso: ao que tudo indica, a máquina da indústria musical centrou baterias em torno da produção comercial. Daí a proliferação das duplas ditas sertanejas (e que de sertão nada têm) e dos pagodes em que (nos dois casos) qualidade melódica ou de textos é o que menos conta.

A isso, sim, não se pode chamar de arte, mas de “empreendimento no ramo musical”. Empreendedorismo...

Aliás, empreendedorismo é uma palavrinha bem mal concebida, hem? Se a coisa se refere a “empreender”, deveria derivar daí, e não de outra derivada, que é “empreendedor”. Mas é da moda destes últimos vinte anos inventar palavras, ao mesmo tempo em que as massas se deixam levar pela mídia que superlota xous de uma menino cantor que diz “um beijo fala mais que mil palavras / Um toque é bem mais que poesia”. O primeiro verso cai bem, mas o segundo…

"No meio do caminho...", escreveu Drummond; o beijo fútil do menino cantor vale mesmo mais que um poema assim? 

Bem, a letra inteira, e a música em seu todo, são de gosto duvidoso. Ou sofrível, como diria um velho mestre meu, sempre com o cuidado de não ofender. Mas porque devo eu não ofender o jovem e muito bem pago cantor (respeito-o, e lamento que a máquina financeira faça dele um boi de exposição), se ele não respeita meus ouvidos?




* * *



Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras

6 comentários:

Fátima Paragaussú disse...

Luiz, passei aqui, voce não estava. Bati, bati na porta, ninguém abriu para eu tomar um cafezinho e ouvir uma boa bossa...
Até mais!!!

ilma Vieira de Castro disse...

Gostei muito de sua crônica!
Relata uma verdade de nossos dias, infelizmente nossos filhos e netos estão ouvindo "isto que se diz música"
e desapreciando as obras como esta que voce citou A BANDA!
Fomos criados escutando ou excutando CHOPIN, MOZART, CHICO BUARQUE DE HOLANDA E tantos outros..
Quando, no meu caso, abro o piano e executo uma AVE MARIA de GOUNOD ou de SCHUBERT escuto:
outra vez estas músicas, credo....não sabe outras??
Então, meu querido poeta, precisamos de ter alguém com sua capacidade e coragem para esclarecer aos
nossos jovens o que é música, o que eles perderam...
PARABENS!!!! continue!!

Mara Narciso disse...

Conheço duas pessoas que não gostam de chocolate. Isso choca, assim como ficamos chocados por alguém, tal qual ordens do Talibã, não gosta de música. Para os humanos, música é como o ar, instintivo, mas, vá se entender. E partindo de ótimos poemas musicados, me dou ao cuidado de dizer que se os poetas não existissem, teriam de ser inventados. Poemas são necessidade vital como sono, comida e outras. Então palmas para a sua crítica, tanto ao cantor que eletriza multidões com bobagens, quanto aos seus quase amigos, que de tão pulhas, saíram de cena. Melhor para você.

J. Martines Carrasco disse...

Me divirto com seu modo de colocar o dedo em feridas.
Graças a sua valiosa crônica, pude me surpreender com a flor musicada. Grata surpresa.

Vicente Neto disse...

gostei muito , muito bom.

gostaria que mais pessoas se interessassem por poesia e literatura igual a você,


também tenho um blog:

http://vicentesneto.blogspot.com

Fatima Rosa Naves disse...

Querido Poeta, é isso mesmo, ás vezes ferem o ouvido e o coração. Lidar com as diferenças e com os desafetos é difícil, mas necessário, e nos faz aproximar mais das pessoas e das coisas que nos encantam.