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sábado, março 19, 2016

As letras e os poderes...






Livros, autores, bibliotecas e poder





Tem sido difícil acompanhar noticiários escritos e orais! A boa escrita – aquela que respeitava ortografia, regência, conjugações e concordâncias – foi para o beleléu (insisto na gíria da minha infância, de tão boa lembrança). E junto com a falência da escrita vivemos a falência moral entre os políticos e militantes, bem como o descaso abusivo do segmento empresarial, sobretudo pelos cursos de “capacitação” (nome novo para treinamento), nos quais os tradicionais casos exemplares passam a se chamar “cases” (pronuncia-se “queises”), experiência virou “expertise” e surgiram novas palavras: empreendedorismo, acabativa e empregabilidade.




A falência moral é decurso direto da falência da linguagem. O antes respeitável Ministério da Educação tornou-se um amontoado de gabinetes em que ociosamente se tratam de métodos de ensino em nada eficazes e libera-se a linguagem para sobrepor o conceito “se a comunicação se deu, tudo bem”. Mas a linguagem culta continua exigida em concursos como ENEM, vestibulares e para emprego público. 
Aprendi, muito cedo, que uma peça jurídica de qualquer natureza tem que ser escrita em linguagem culta, com o rebuscamento de vocabulário apropriado e, não raro, inserções latinas para riqueza dos estilos. Isso de expressões latinas causa risos, pois os novos bacharéis, advogados, magistrados, procuradores etc. as praticam sem um conhecimento ainda que empírico da língua-mãe das tais neolatinas. Mas o que se tem visto... Ah!




O que nos falta? Leitura! Sim, só isso – leitura. Ziraldo, o mais famoso propagador da máxima “ler é mais importante que estudar”, deixa claro: estudar as pessoas entendem como frequentar escola; mas frequentar escola é fácil e simples, até porque, hoje, por orientação oficial ou oficiosa do MEC vulgarizado (vulgar não é o mesmo que popular), é proibido reprovar. A leitura bem praticada trará de volta os valores morais, tão em falta hoje!

Converso, nesta manhã de sábado, com uma amiga do interior. Graduada (licenciada) em Letras, não gostou do curso. Preferiu continuar leitora voraz a consumir seu tempo em salas de aulas, praticando um ensino falho, orientado por burocracias frágeis e contraditórias, impedida de bem-ensinar. Voltou à universidade, cursou Direito. Gostou tanto que consegue ver poesia na Constituição Federal.




Falamos de livros, bibliotecas, autores, empresários e políticos – e professores, claro! Na universidade em que cursou Letras, há uma cadeira de Literatura Goiana – mas nada se viu e todos foram aprovados. Citei dois irmãos, escritores, seus conterrâneos – ela não os leu porque não encontra seus livros na cidade. Nem na biblioteca pública!

Contei-lhe que pensei em doar livros a bibliotecas públicas, mas desencanta-me saber que, sempre que o fiz, percebi meses depois que meus livros desapareceram de lá. E desencanta-me saber que, nestes cerca de 40 anos de atividade literária, somente uma biblioteca quis comprar meus livros – a do SESC de Goiás. Mas dezenas delas, de todo o país, pedem-nos livros em doação, e temos de doar e custear a remessa por correio ou transportadora.




Minha amiga lamenta ter emprestado o único livro já editado sobre a história de sua cidade–cidade importante do sul de Goiás. A pessoa que o tomou por empréstimo tomou-o literalmente – não quer devolver. A obra, de poucos exemplares, não se encontra nos sebos nem em qualquer lugar a venda. Sugeri que alguma grande empresa local ou a prefeitura devia reeditá-lo, mas ela recordou que “nem empresário nem político quer saber de livros”.

Paciência...

*****



Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


14 comentários:

Pedro Du Bois disse...

Como sempre, caro Aquino, texto "fumeta". Nosso caminhar trôpego, diga-se, levará a neo-barbárie (já que tanto usam o neo pra cá, neo pra lá), cujo embrião/início, infelizmente, ocorre em nossa geração. Mesmo assim, abraços e bom final de semana.
Pedro

ps: "fumeta", termo que utilizávamos em Passo Fundo, nos idos dos 1960, para designar alguém melhor do que todos os outros. O cara é fumeta!!

Rosy Cardoso disse...

Querido Aquino consumi o seu texto e me consterno diante dessa realidade, apesar de saber exatamente como sua amiga que essa é a forma conduzida pela condição cultural tão falha de nossos governantes e consecutivamente da população.
Eu também tive dificuldade de acompanhar a literatura Goiana pois morava no interior e a dificuldade de conseguir os exemplares editados inclusive nas livrarias.
Hoje tento alcançar, porém sei que estarei sempre correndo atrás.
Mas fica o alerta feito a quem possa deixar a imagem dos momentos em que lendo possamos ser exemplo a nossos filhos ou a quem possa.
E que a semeadura seja a constância.
Obrigada Poeta.

Adalberto Queiroz disse...

Salve, poeta. "Salve" com sua pena a escrita e o prazer da leitura.

Zenaide Maria Ribeiro Ribeiro disse...

Muito bem Luiz De Aquino Alves Neto, abraço e ótimo fim de semana !

Neves João Alberto disse...

Preguiça, ignorância e prepotência se unem para detonar a literatura. Pronto. Falei.

José Silva disse...

Ler e escrever. Ensinar e aprender. Pensar e se expressar. Compreender e comunicar. O que estas palavras, ou melhor, conceitos, significados e sentidos nelas condensados, têm em comum? Muita coisa, dirão alguns. Ler implica em compreender, da mesma forma que escrever implica em comunicar – poderá ser uma boa resposta. Ainda assim, muito da relação entre essas palavras, e entre as ideias por elas envolvidas, ficará nebuloso, obscuro. E nada melhor que consultar alguns de nossos grandes mestres para enxergarmos com maior lucidez o dinamismo por trás da ligação entre esses termos, tão usados no dia a dia da maioria de nós, independentemente de classes sociais ou intelectuais.

Joao Marcello Alves disse...

Arrasou parceiro!

Dorothea Cunha disse...

Perfeito !!!!

Moema Brito disse...

Concordo totalmente meu amigo querido !!!

Rosy Cardoso disse...

Meu amigo!Quero ser como você, uma eterna aprendiz...

Joaquim De Azevedo Machado disse...

"Livro para voar / abri as páginas / e me lancei no ar..." (J. Azevedo)

Sueli Soares, professora e advogada. disse...

É certo que novas palavras mantém a língua em movimento e ultrapassam fronteiras. Entretanto, é prudente, penso, que seu emprego (das palavras) observe as regras da comunicação. Detive-me no segundo parágrafo da crônica e arrepiei-me diante do "conceito", que nos causa espanto. Embora considere elegante o uso de expressões em Latim nas peças jurídicas, sempre tive cuidado ao empregá-las. Igualmente, julgo dispensável o excesso de citações jurisprudenciais e doutrinárias, que muitas vezes só engordam os processos, fazendo-os arrastarem-se desnecessariamente. Permita-me discordar do nosso inesquecível Ziraldo, mas ler não é mais importante que estudar e nem todos entendem, felizmente, que estudar seja frequentar escola. Ler e não interpretar serve para quê? Acredito na leitura orientada e na predisposição de saber ouvir. Que saudade da boa escola pública!

José Silva disse...

O meu desespero é real. O eterno sentir que não vai dar tempo de ler todos os bons livros que me aguardam na prateleira amadeirada da vida. A ansiedade de contar as páginas restantes pro final de uma história e a satisfação dos livros jogados pela casa, sem mais lugar na velha estante.
Meus dedos coçam pelo peso de um livro e sentem as dores e delícias do meu vício em leitura. Do virar frenético de páginas e da areia nos olhos da manhã seguinte a um último capítulo. Do cheiro abaunilhado da lignina naqueles livros caçados no sebo da cidade. Gosto de frequentar sebos, onde me delicio a caça de um bom livro. Nas livrarias, me perco no tempo, olhando os possíveis livros que me prendem a atenção. Não tenho preferência por gêneros, mas história e filosofia se destacam no meu gosto entre as diversidades literárias.

Jô Sampaio disse...

Nossa língua portuguesa, tão pobrinha e tão bela. Ainda bem que há alguns que com ela se preocupam.