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quinta-feira, junho 07, 2007

Chope, choro e cheiro de noite

Foto: Ritelisa Seda


Chope, choro e cheiro de noite


Briguei, e continuarei brigando, para que o prédio do Grande Hotel, dentre outros em Goiânia, venha a integrar um acervo de locais intocáveis da ainda incipiente memória da cidade. São poucos anos, os desta cidade. Mas muitas são as referências. Lamentável que se tenham perdido o Palácio da Pecuária, as ilhotas centrais da Rua 82 e o complexo arquitetônico da Santa Casa de Misericórdia; então, é preciso que cuidemos, com dedicação, de reservas como relógio da Avenida Goiás e seu vizinho Coreto, na praça Cívica.

Os saraus de choro na calçada, nas noites de sexta-feira, vêm a ser um momento de encontro de gerações. São centenas de jovens a misturarem-se a outros jovens, os de anteontem, feito eu e alguns com idade de meus pais. Gente que curte boa música, gente com vontade de sair de casa e reviver vivências de um tempo em que o Centro ainda era o referencial da vida social, política, econômica e artística da cidade.

E ali, fico sabendo que também o Mercado Municipal do Bairro Popular, na Rua 74, abriga outro evento musical, em outro gênero. Ocorre-me de sugerir ao secretário, o poeta Kleber Adorno, que inicie no Coreto, outra festa no calendário das semanas. Retreta, talvez; e que isso se faça também no Coreto da Praça Joaquim Lúcio. Neste caso, podem se revezar concertos e recitais. No caso da Praça Cívica, seria o caso de fechar-se o trecho desde o cruzamento da Avenida Araguaia até o da Tocantins, com espaço amplo para a platéia de musicófilos (existe isso? Se não, invento-o agora).

Volto à porta do Grande Hotel. A noite foi de Randal Vaz, para orgulho coruja de Maria e Valdivino, poeta inquieto e dos melhores. Ao fim do xou, Sandra e Reinaldo convidam-me: “Vamos esticar”. Vamos. Uns poucos chopes sempre me animam a esticar a noite; ainda mais quando sei que há boemia de violões e vozes. Mas esta é uma Goiânia contemporânea, fora do eixo da Tamandaré e da Ricardo Paranhos. O destino é um bar-restaurante, o Grill, na Rua 88.

Viagem no tempo, essa noite de sexta-feira, primeiro dia de junho, 2007. Revejo pessoas queridas, anos alguns de intervalo, rugas e cãs. Diferenças em nossos corpos, uns menos gordos, outros mais pesados... Só a saudade é igual, mensurável não só no tempo de não se ver, mas na intensidade dos sentimentos. Vozes conhecidas, sempre lembradas. Canções de épocas distantes, viagem de memória à infância, adolescência revivida.

Despeço-me. Saio e constato, no painel do carro, que ainda não chegara à meia-noite. Volto. Sei que os boêmios amigos não se recolhem tão cedo, quero não perder canções que me darão alegria.

Ecoam lembranças e nomes. Josafá Nascimento, Geraldo Amaral, Randur, Marquinhos do Violão, Xará, Anete Teixeira... canções de letras poéticas, desde Chico Buarque dos festivais até Noel Rosa, passando pelo perfeccionismo de Orestes Barbosa, magistralmente musicado por Sílvio Caldas em “Chão de Estrelas”...

Fim de noite, fígado clamando paz, coração em festa. Hora de buscar o lar e o leito. Na calçada, o cheiro típico só presente nas noites, com realce para as madrugadas bem-vividas. Vou até o muro de onde um galho derrama cachos de miúdas flores. O cheiro é fetiche. Hipnótico, atrai e prende: afrodisíaco. Colho um ramalhete e enfio-o no bolso da camisa. Mantenho fechadas as janelas do carro. Em casa, ponho-o num copo d’água, à janela da cozinha.

Passei o sábado com uma breve sensação de constrangimento. As folhas tristes dormitavam: o ramalhete murchara. Mas não o tirei da água. Quem sabe cria raízes e posso plantá-lo, na tentativa de um breve arbusto num grande vaso para perfumar a noite na sacada do apartamento?

E, no começo da noite, a surpresa: o pequenino ramo de folhas e flores miúdas revive! O verde revive; as flores exalam fragrância. Deixo lá o ramalhete: durmo feliz!

8 comentários:

Ritelisa disse...

O cheiro da dama da noite para mim também é lembrança de noites bem vividas e sonhos fotográficos. Sim... várias vezes fiquei acordada de madrugada para fotografar essa dama da noite. Ela é especial, só abre de madrugada e exala esse perfume embriagador... tantas noites dormi encostada no chão ao lado da flor a espera dela desabrochar... e acordava com ela murcha. Até que numa noite de primavera eu consegui a foto. Sua cronica é belíssima, mexe com nossa memória.
Beijos
Ritelisa

Saramar disse...

Luiz, antes de tudo, devo dizer da saudade que estes lugares que você defende despertam em mim.
Alguns deles, só fui conhecer depois de adulta, apesar de morar ali do lado.

Estou do seu lado na defesa destes últimos lugares da nossa memória tão jovem ainda, como você disse.

Temo que nossos governantes (?) inconsequentes e desinteressados, como são, destruam tudo. Não duvido e não duvide, eles são capazes disso.

Gostaria tanto de ter participado deste primeiro dia do mês de junho...

beijos

Andréa Motta disse...

Caro Luiz,
é sempre uma imensa satisfação vir aqui, conhecer um pouco mais de você, de Goiania, dos poetas goianos. Obrigada por nos proporcionar isto.
Beijos,
Andréa

Madalena Barranco disse...

Olá Luiz, hum,sua crônica floresce perfumada nas entrelinhas de uma cidade que deve ser uma delícia! Beijos.

Lêida Gomes disse...

Luiz, sua crônica é muito boa e belíssima e o assunto abordado por você me levou à minha infância em Itumbiara e minha adolescência em Rio Verde... Enquanto a lia, fui
antítese, fui paradoxo. fiquei emocionada e deprimida, triste e feliz. Emocionada, porque reví momentos e lugares que ví (viví); deprimida, porque eles só existem na minha memória, meus filhos e netos não poderão conhecer o que conheci, porque pessoas mercenárias e políticos insensíveis destruíram e continuam a destruir tudo sem critérios, só agem e pensam de acordo com seus interesses próprios.
Feliz? Sim, feliz porque
venho percebendo, ainda que muito lento, um despertar consciente para
que nossas raízes e patrimônios históricos sejam preservados, e isto não é sem hora, já se faz urgente, a hora é AGORA!!!
Poeta, mesmo com minha fraca e parca "munição", conte comigo nesta nesta briga, estou do seu lado... Do meu, brigando pelo futuro e interesses dos filhos, netos, bisnetos de todos cidadãos brasileiros.

Beijo,

Lêida Gomes

Isabel disse...

Nunca tinha passado nesta sua bela casinha. Passei, gostei e voltarei.
Bom fim de semana

Bjt

ZEZÉ disse...

QUE LINDO LUIZ!TUDO ISSO EU GOSTARIA DE TER VIVIDO NA JUVENTUDE E GOSTARIA DE PODER VIVER HOJE...QUANTAS SAUDADES... REALMENTE PRECISAMOS BRIGAR POR COISAS COMO ESSAS E COMCIENTIZAR DESDE JÁ NOSSOS FILHOS E NETOS...CONTE COMIGO!

marisa disse...

Luis, não conheço goiania, mas pela sua descrição, esse lugar deve ser lindo.Sua cônica é especial, tem um pouco de indignação...,saudades...,paixão...e uma vontade imensa de que esse lugar volte a ser como antes, assim como a flor que colocou na janela, murchou e logo depois reergueu,linda como sempre foi.A sua sensibilidade mexe dentro do meu coração.Um grande abraço
Marisa Aguiar.