Páginas

sexta-feira, junho 22, 2007

Eu, pequeno burguês?

Eu, pequeno burguês?




"Felicidade, passei no vestibular / Mas a faculdade é particular

Eram tempos difíceis, forjados no silêncio forçado e vividos sob a ameaça constante da repressão a cassetetes, das prisões sem mandado judicial, das perseguições pelo critério seletivo de quem podia. E poder, naquele tempo, era muito mais relativo que hoje...

Livros tão caros / Tanta taxa pra pagar


A realidade financeira ainda é a mesma, agravada por um sem-números de itens hoje indispensáveis, mas inexistentes naquele tempo. Quem, dentre nós, tinha carro? Quando muito, uma Lambreta ou Vespa. No geral, éramos usuários de ônibus, bondes e trens urbanos, sempre muito cheios, atrasados e desconfortáveis:

Morei no subúrbio / Andei de trem atrasado / Do trabalho ia pra aula / Sem jantar e bem cansado”...

Essa realidade continua parecida... Mas...

Mas lá em casa à meia-noite / Tinha sempre a me esperar / Um punhado de problemas / E crianças pra criar / Para criar, só crianças pra criar”.

E os anos se passavam; sorrisos, dificuldades, socorros, amizades, alianças, superações... Era um tempo difícil, porque eram raras as escolas, difícil demais o acesso às vagas e, principalmente, difícil chegar ao final do curso. Buscava-se, como hoje, um lugar melhor para se viver e criar os filhos e oferecer-lhes horizontes mais amplos e um mundo melhor. Mas eram anos de chumbo. Havia um tal de Ato Institucional número 5 e, na esteira dele, um Decreto 477. O AI-5 atingia toda a sociedade brasileira, restringindo ações e falas. Não restringia o pensamento porque este é privativo do indivíduo.

Minha turma original, ingressada na Universidade Católica em 1968, colou grau em 1971. Eu, não; tranquei matrícula, fui para a Universidade de Brasília, queria ser geólogo. Bastaram-me as primeiras matérias, aquelas do básico, para me convencer de que não seria geólogo. O lado romântico, aquele de se estar em campo, em pesquisas de solos e estruturas, era ofuscado pela retaguarda de química e cálculos. Voltei.

Voltei, e comigo veio a malfadada reforma que instituiu um critério de créditos. Não consegui me matricular em 1972; em 1973, não tive dinheiro. No ano seguinte, repeti todo o quarto ano com a última turma do regime seriado. Faltaram-me matérias, não pude colar grau. Novo afastamento, uma série infindável de requerimentos e consultas e, por iniciativa própria, cursei tudo o que ofereciam para o curso e que eu não havia cursado, ainda. Resultado: formei-me em 1978, com uma sobra solene de 555 horas-aula (número que não dá para esquecer).

Mas felizmente / Eu consegui me formar”, continua o samba. E, para mim, ele se aplicava, ainda: ““Mas felizmente / Eu consegui me formar / Mas da minha formatura / Nem cheguei a participar. / Faltou dinheiro pra beca / E também pro meu anel / Nem o diretor careca / Entregou o meu papel / O meu papel, meu canudo de papel”.

Éramos vários cursos numa só solenidade de colação de grau, todos de Licenciatura. Fizeram-nos vestir becas, mas não nos concederam o capelo, que era posicionado sobre a cabeça de cada um de nós no momento em que o reitor recitava aquela frase que, na liturgia, significava a concessão de grau. Não soube de festas naquele ano, para nós, algo como baile, churrascos etc... Pode ter havido algumas comemorações, mas no âmbito dos pequenos grupos.

E depois de tantos anos / Só decepções, desenganos / Dizem que sou burguês / Muito privilegiado / Mas burgueses são vocês / Eu não passo de um pobre coitado / E quem quiser ser como eu / Vai ter que penar um bocado”.

Faltou dizer: daqueles vários cursos de novos professores, nenhum de nós teve direito a voz. Não nos permitiram sequer o discurso de formatura.

4 comentários:

Ritelisa disse...

Liga bôa é forjada a ferro e fôgo. Só aí fica rígida e nada a destrói. Agora entendo sua supremacia.
Felicidades...

Mara Narciso disse...

Entrei na faculdade em 1974, ano do climax do AI5, mas eu não sabia disso. Fui conhecer a real história dos anos de chumbo em 1980, quando passei a ler a Folha de São Paulo.

Não é a toa que dizem que a medicina aliena. Concordo, mas tratei de tirar o atraso e o cabresto, interessando-me por outros temas, inclusive jornalismo, curso que farei o terceiro período. A faculdade é muito isso que foi contado no texto ao lado do lindo poema de Martinho da Vila--criativo.

Os meus dois tempos de acadêmica apresentaram-se diversos, mas com algumas semelhanças com o seu.Hoje como podemos falar tudo, nem sequer imaginamos o que é a mordaça, o sentir-se acuado, mas chega a doer imaginar uma turma formar-se sem poder fazer o discurso: uma página perdida na nossa história.
Mara Narciso

Andiara Lousa disse...

Andei revendo tudo que escreveu aqui. Mais e mais eu lhe admiro, até nossas pequenas brigas acabaram. O blog não deixa mais puxar as suas orelhas.

Anônimo disse...

Como me identifiquei com seu texto!!!
Por "N" motivos também só terminei a faculdade em 75, sem discursos, sem beca, sem capelo. Quem viveu os Anos de Chumbo sabe muito bem de tudo isso.
O recurso de entremear o poema de Martinho da Vila tornou sua crônica muito original, bela e mais uma vez, uma obra de arte.
Parabéns amigo.
Anna Cortás