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segunda-feira, junho 04, 2007

Quando amo


Quando amo


É meu este defeito
de me dar inteiro. Quando amo,
digo tudo (o que me passa)
ao ouvido da Amada: digo em forma
de poesia minha dor, minha alegria,
fatos simples e banais,
feito a pura fantasia
das crianças, dos quintais.


Penso nela (quando amo) o dia inteiro,
vejo flores e vitrinas, lingeries,
absorventes, analgésicos,
cosméticos. Lembro dela o tempo todo,
sonho estrelas e carinhos, mãos roçantes,
beijos longos, pés ingênuos se tocando.


Quando amo dou-me tanto
que espanto a minha Amada.

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O texto acima é uma decorrência de um belíssimo poema da saudosa Yêda Schmaltz, que transcrevo a seguir:










Yêda, que
virou estrela


CAVALO DE PAU



Quando amo, sou assim:
dou de tudo para o amado

- a minha agulha de ouro,

meu alfinete de sonho
e a minha estrela de prata.

Quando amo crio mitos,

dou para o amado os meus olhos,
meus vestidos mais bonitos,
meus livros mais esquisitos,
meus poemas desmanchados.


Vou me despindo de tudo:

meus crosmos, meu travesseiro
e meu móbile de chaves.

Tudo de mim voa longe
e tudo se muda em ave.


Nos braços do meu amado,
os mitos se acumulando:

um pandeiro de cigana

com mil fitas coloridas;
de cabelo envoaçando,
a Vênus que nasceu loura.

(E lá vou eu navegando.)

Nos braços do meu amado,
os mitos se acumulando,
enchendo-se os braços curtos
e o amado vai se inflando.

- O que mais lamento
e o que mais me espanto:

o amado vai se inflando
não dos mitos, mas de vento

até que o elo arrebenta
e o pobre do amado estoura.

(Nenhum amado me aguenta.)









(Do livro ALQUIMIA DOS NÓS - Yêda Schmaltz)



7 comentários:

Isabella Benicio disse...

O simples fato de amar assim já é a própria poesia.
Lindos os dois poemas.
Beijo,
Bella

Beatriz disse...

Ser amado demais assusta???
Beijo,
Bia/Neca

urcilina disse...

Ficou tão linda essa poesia,
Sabe que até me emocionei.
Realmente quem sabe, faz na hora,
não espera inspiração, faz sem demora.
"QUANDO AMO", desperta na mulher que sabe o que quer, que hoje em dia o amor não diz adeus tão fácil...
Se começou ou se terminou!
Êle dá a certeza da realidade presente...hoje...agora, grande e infinito.
Muito bonita! Me apaixonei.
-urcilina-

Mara Narciso disse...

Yêda Schmalts inspiradíssima, ousou brincar de forma criativa e inusitada com o amor, fazendo graça com o próprio exagero que o amor lhe trouxe quando a acometeu. E maior brincadeira se fez quando você Luiz recriou sobre esse folguedo, tal qual uma colagem bem-humorada. Aconteceu uma complementaridade bem sucedida, além da homenagem muito bem posta. Gostei!
Mara Narciso

Mara narciso disse...

Yêda Schmaltz em "Quando Eu Amo" ousou brincar ironizando o exagero do amor que a acometeu. A brincadeira ficou mais gostosa quando você Luiz, com muito bom-humor, recriou em cima da ironia dela, valorizando-a em sua criatividade e homenageando-a. Aconteceu uma complementaridade entre as partes, que me encantou. Gostei!

Mara Narciso

Saramar disse...

Os poetas quando amam são iguais e enefeitam suas horas com as fantasias do ser amado.
Os homens e mulheres quando amam são tão iguais, vivem as minúcias do amado, da amada, entregam tudo que têm e ainda inventam o que não têm para entregar.
E são tão diferentes. Um imaginando presentes, outros inventando futuros; um refazendo o dia, outro criando o tempo.
São sempre apaixonados, quando amam.
Os poemas dos dois seres tomados pela poesia inventam tanta beleza, tanta!

Beatriz Pacheco disse...

Luiz! O teu "Quando Amo" e o "Cavalo de Pau", da Yêda são poemas que só posso dizer: INCRÍVEIS! Volto a insistir: ser muito amado, assusta? Beijão, cheio de saudade! Bia/Neca