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terça-feira, maio 26, 2009

Juventude e consciência

Juventude e consciência


Luiz de Aquino

 

Divirto-me com o modismo. E não me refiro apenas ao que se veste, ao que se tem à disposição para se consumir, ao comprimento das saias ou a expansão dos decotes. Gosto muito de apreciar as gírias e as expressões da moda. Ultimamente, os jovens dizem “demorou!” ante algo que lhes agrade, ou que é esperado. Chato é o modismo pseudo-intelectual, quase sempre advindo do meio acadêmico. Já falei neles... Há uns trinta anos, era o tal de “a nível de”; hoje, o “politicamente correto” que exige saudações ao modo de “a todos e todas” ou o gerúndio, antecedido de um, dois ou até três verbos totalmente desnecessários. Mas o tal de “enquanto”, ah! Esse consegue ser mais desagradável do que “onde” em lugar de “em que” ou “quando”.

Crianças e jovens têm praticamente o mesmo modo de ser e de pensar em qualquer lugar do mundo. E em todos os tempos. Se antes eram os estilingues e os carrinhos de lata, as bonecas de papelão ou de pano e as miniaturas de móveis, hoje são os jogos de computador e a tevê. Os carrinhos de hoje são de outras matérias, bem como as bonecas, e menina nenhuma quer mais brincar de casinha. Isso muda. Mas o que permanece é o brinquedo como meio de aprendizado e ocupação, o gosto pelo inédito, a crença de que “comigo isso não acontece” (claro, quando “isso” quer dizer “coisa ruim").

Hoje, temos jovens executivos, jovens empreendedores, adolescentes ingressando nas faculdades (antes, havia a barreira dos dezoito anos para a vida acadêmica). Hoje, vemos jovens na vida pública, vereadores e deputados, mas Goiás, em 1945, teve um secretário da Fazenda com apenas vinte e dois anos (Randal do Espírito Santo Ferreira). Assis Chateaubriand, no começo do Século XX, emancipou-se, por sua iniciativa, aos treze anos e deu começo a uma vida cheia de altos e baixos, mas rica de iniciativas e realizações.

Semana passada, uma moça, com o namorado ao lado, ambos com idade em torno dos 25 anos, indignou-se porque cheguei primeiro à fila, na padaria.  “Só não vou apelar porque é véi”, disse ela ao rapaz, que se manteve calado. Em seguida, saiu de perto. Permaneci na fila, esperando a minha vez, e cedi-a ao moço que acompanhava a moça (mal- educada e loira falsa), pois minha mulher voltou para pegar alguma outra mercadoria. Ao ver o companheiro pagando a conta, a bela loira veio, rapidamente. Preferi não discutir, afinal eu sequer fiz uso do meu direito de ser atendido com preferência, fato que foi observado pela funcionária-caixa.

A atitude da moça ao lado do rapaz, que não sei se marido, noivo, namorado ou amigo, remeteu-me ao jovem deputado paranaense Fernando Carli Filho, que abusou de alucinantes (pelo menos álcool, mas disseram que ele usou também cocaína). O jovem parlamentar já infringira a Lei ao acumular mais de cem pontos por infrações de trânsito, tendo sua carteira de habilitação apreendida há quase um ano. Ainda assim, e protegido certamente pelo poder do nome de família, e aliando a isso sua condição de deputado, dirigiu embriagado, em alta velocidade, chocou-se com outro carro, causando a morte de dois moços ainda mais novos que ele (que tem vinte e seis anos) e encontra-se agora em tratamento delicado, todo machucado, num hospital da capital paulista.

Ora, só por ser deputado, dele a sociedade espera muito mais do que não dirigir enquanto não cumprir a punição pelos pontos excedidos. Ele não devia era cometer infrações de trânsito, isso sim.Tinha de dar exemplos positivos e influir na conduta dos jovens como ele. Mas preferiu fazer uso dos poderes estranhos que a prática ruim lhe concede.

Não há muita diferença entre ele e a moça da padaria. É uma jovem bonita, bem vestida e mal-educada. Ela, ao referir-se a mim como “véi”, naquele tom, sequer me associou aos seus pais e avós. Ou seja, infringiu o Mandamento de “honrar pai e mãe”. Daí até burlar a lei, embriagar-se e dirigir em alta velocidade e distribuir a dor entre famílias é um pequeno passo.

 

 

Luiz de Aquino é jornalsita e escritor, membro da Academia Goiana de Letras (poetaluizdeaquino@gmail.com).

 

5 comentários:

sinva disse...

Na rotina da padaria uma moça que nunca foi moça e nem será velha, a cabeça é diminuta e só enxerga o seu nariz, vai tropeçar logo, coitada!
bela crônica, parabens
sinva

Sinésio Dias de Oliveira disse...

Pô, meu velho, gostei pacas desta crônica. Ah eu perto de você na hora da agressão da loirinha! Essa moça ia ver a força do meu cajado. Esquenta, meu velho, esses moços passarão; você passarinho, e seu canto é do bom.
Abraços.

Neca disse...

É, meu querido amigo, ante este fato da Padaria e o do jovem deputado paranaense, só me resta, como idosa que sou, cantarolar a musiquinha do meu conterrâneo Lupicínio Rodrigues: “Esses moços, pobres moços; ah, se soubessem o que eu sei...”
Que "véi" serão eles?
Beijo,
Neca

Irinéa Maria disse...

Pois é, Poeta, o que me alegra, é ter conseguido criar uma filha dentro dos padrões de educação em que fui criada.
Ela sabe dizer obrigada, com licença, atenciosa, cede seu lugar, ajuda a atravessar a rua, entre tantas outras coisas naturais a um ser humano em evolução!
Essas figuras estão na escala inferior...tem muita escada ainda a subir!
E essa é uma trajetória que vai depender dela. Mas, será que ela sabe disso???(rs)

Ludss disse...

Olá Luiz!

Hoje lembrei de você e decide entrar no seu blog( a primeira vez), pra deixar um comentário. Achei a crônica divertida, retrata bem os jovens de hoje(existe exeções), e eu como jovem devo refletir e fazer a minha parte, que acho que está sendo cumprida corretamente.
Espero que lembre de mim, sou a Ludmila do Lyceu(Liceu).
Abraços!
Ludmila