Páginas

terça-feira, maio 05, 2009

A Língua em que se faz samba (*)

A Língua em que se faz samba (*)

Luiz de Aquino

Continuo no tema da Língua Portuguesa. A Língua Portuguesa no Brasil, claro. Ou alguma comparação entre o que falamos e o que se fala em Portugal. E as Línguas Estrangeiras influindo no quotidiano. Tolerem-me, leitores, que terei assunto pelos próximos trinta anos; após esse tempo, não escreverei em jornal – vale como aviso prévio, Batista: quando fizer 85 anos, aposento-me.

Se vamos brincar ou trabalhar, há sempre um líder (leader, do Inglês); se temos fome, tomamos um lanche (lunch, Inglês); antes de namorar, temos o flerte (novamente do Inglês, flirt); se pegamos um táxi, tem lá um chofer (do Francês chauffeur); se dominamos uma tecnologia, temos know-how; se levamos jeito para alguma coisa que exige mais criatividade ou malemolência, temos savoir-faire.

Mas, já se nota, aportuguesamos as palavras estrangeiras ou elas se perdem. Sabe-se que o idioma de Shakespeare, atualmente, tem cerca de três quartos de seus vocábulos originários do Latim – por isso, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos, estuda-se o Latim; aqui, não precisamos (!?), mas os portugueses não abrem mão da língua dos antigos romanos. As línguas ocidentais flexionam seus verbos em seis pessoas – isso vem do Latim. Mas uma malfadada Lei de Diretrizes e Bases da Educação, sancionada em dezembro de 1961 e posta em prática imediatamente, a partir de março de 1962, mudou tudo. Sem transição. E ficamos alheios a uma das mais importantes ferramentas para o pleno domínio do idioma – daí o português de quem falei ontem afirmar que nós escrevemos muito mal.

Já disse nestas crônicas que me recuso a comprar de quem promove “sale” em vez de liqüidação, que não aceito “delivery” em lugar da entrega a domicílio e não como “fast food” em vez de – em Goiás não dizemos assim, mas no Rio era o que líamos nas lanchonetes (agora, palavra inglesa com metamorfose francesa...): “Refeições à minuta” (herança do Francês “à la minute”).

Publicitários, mais que jornalistas, fazem concessões permissivas, como que um estupro à Língua – escrevo em maiúsculas, para não dar duplo sentido à frase. “Muda Brasil” em vez de Muda, Brasil!” tomou conta do país nos anos de 1980, junto com o “Vota Brasil” (seria “Vota, Brasil!”). Órgãos públicos como secretarias de Educação e de Cultura e instituições responsáveis (será?) como academias de letras engolem o que a mídia – publicidade e imprensa – impõem. Emissoras de rádio e televisão cometem coisas agressivas à estrutura da língua – já viram como, nas novelas e nos telejornais, a expressão “há anos atrás” se tornou “correta”? Seria correto, mas redundante, dizer que “há ânus atrás”.

O “economês” chega a irritar. Inclua-se aí publicidade, comércio de varejo, área de investimentos, bancos, indústrias, bolsas de valores etc. Mas o Ivair Lima, competente repórter, psicólogo e poeta sensível, não teme esse tipo de coisa e me tranqüiliza: “Lula (por que ele me chama assim?), esse dialeto não vinga, só existe no meio empresarial. Enquanto houver escola de samba, o Português do Brasil estará salvo. Em que outra língua seria possível se compor um samba?”.

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com

(*) Esta crônica foi publicada no Diário da Manhã em 19 de junho de 2001. Relendo-a, diverti-me a ponto de querer republicá-la. A foto também é da época...



4 comentários:

Mara Narciso disse...

Luiz,

Houve uma fase em que você era bem mais radical em relação aos estrangeirismos do que agora. Vejo que você tolera impacientemente, mas pelo menos tolera. Há pouco tempo você escrevia “bloguinho”, não repassava PPS e fazia discursos irados contra Roberto Carlos. Você se suavizou e está negociando mais essas coisas da língua. Embora requentada, caso você não dissesse, eu não diria que esta crônica não é recente. Como vê, nem as suas ideias e nem o assunto se esgotam. Estão sempre na ordem do dia.

Abraço, Mara

Anônimo disse...

Luiz, parabéns. "Amei de paixão" (aproveitando que até 2010 podemos errar)esta crônica. Está inteira, cheia de prosa, consistente, recheada de ensinamentos, com rima, com acentos, com tudo o que uma crônica vinda de você merece. Orgulha-me tê-lo em meu rol de amigos virtuais. Abraço. Neusinha.

LENITIVO disse...

Muito pertinente suas colocações, mas acho que você foi contudente, isso pra não dizer intolerante. Não tenho o seu embasamento, no assunto, e também busco combater o estrangeirismo exarcebado, entretanto, por outro lado o próprio latim quando teve contato com outras línguas passou por modificações e nem por isso foi totlamente extinto.Acho que sabe do que estou falando. se quiser trocar umas ideias, também participo de um blog. Visite-o. Seria muito honroso de minha parte se tirrase um tempinho para comentá-lo.

Ternos abraços poéticos, Razek

Maria do Rosário Paranhos disse...

Gostei; é isso ai, ...bicho;;
good night
Bye