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sábado, agosto 08, 2009

Marieta, Catalão e a saudade



Marieta, Catalão e a saudade


Luiz de Aquino



Como era viver sem o telefone celular, hem? E a Internet? Ou, muito menos, sem computador? Essas perguntas não são exclusividades minhas, mas ouvi-as algumas vezes de jovens na faixa dos dezoito aos vinte e poucos anos. Gosto de ouvi-las. Recordo de mim nessa idade, lá pelos tempos de 1958 a 61, quero dizer, o meu tempo de ginasial. Como seria viver sem o rádio? E sem jornais?


Era o tempo em que alguns jornais, na Capital Federal de então, circulavam com duas edições diárias. Aliás, as edições vespertinas, que chegavam às ruas entre as dezesseis e dezoito horas, eram disputadíssimas. Posso estar enganado, mas sempre entendi que eram mais procuradas que as edições matutinas.

Em 1984, não consigo precisar se outubro ou novembro, viajei a Catalão, integrando uma comitiva de escritores, a convite de um dos escribas da terra. Na véspera, chegara eu de Rubiataba, onde, ao lado de uns vinte escribas e artistas de pincéis e de música, participei de um festival. Dias corridos, pois. A viagem a Catalão envolveu grupo menor, em dois ou três veículos. Numa camionete de cabina dupla, viajei com Marieta Teles Machado e Bernardo Élis. Demoramos mais de três horas na estrada, com direito a paradas para lanche e alívio fisiológico. Por três dias, fizemos visitas a personalidades locais, escolas, um clube, uma loja de livros e revistas etc.

Aos mais curiosos, os que quiserem identificar melhor os dias dessa viagem, informo que acontecia por lá uma folia folclórica, algo como congada. Não precisei a identidade dessa festa, mas recordo-me que um dos nossos anfitriões, diretor da Fosfago, contou-me que a prática fora trazida no começo do Século XX. Algum fazendeiro ou político, ou de ambas as práticas, trouxera alguns negos, entre eles ex-escravos, do Triângulo Mineiro, hábeis dançarinos, percussionistas e cantores que fixaram a dança no município, dando origem à prática por ali, expandindo a tradição. Aquele folguedo (nossa! Acho que nunca escrevi essa palavra) interessou-nos a todos, mas muito especialmente a Marieta e Bariani Ortencio. Beca (apelido carinhoso de Marieta) não cabia em si, queria ver, ouvir e curtir tudo, acompanhava os cordões, perguntava, queria saber das letras e cantar junto...

Engraçado... A memória é algo fascinante! “Recordar é viver”, escreveu o autor de uma saudosa marchinha de carnaval. Mas recordar não é reviver. A memória tem cores próprias e uma “leitura” diferente. Não é a repetição de fatos, não tem a exatidão do ocorrido. É um filminho reduzido, apenas. E como é bom! As lembranças dessa viagem são muitas, mas vou resumir.

Imagino ter sido o último dos eventos a visita a um colégio católico, imponente, solene como as velhas escolas, grande como deveria ser, ainda, o respeito à Educação. Era um auditório, uma mesa com flores e toalha branca, majestosa, estava no palco. Distribuímos livros. A diretora, uma mulher bonita e loira, concentrava-se não nos discursos e declamações, mas numa leitura.

Ao final, e como quem agradecesse a nossa presença (cansativa, imagino eu), ela mostrou o meu livro “Sinais da Madrugada” e leu, para o público, o poema “As flores”, cujos últimos versos são: “As flores, querida, / são o recado / que a gente tentou mandar / e não soube dizer”. Leu isso distribuindo as flores da mesa aos poetas presentes.


A diretora era Maria do Rosário Paranhos, que reencontrei no ano passado. Fica-me evidente que uma amizade, ao consolidar-se, pode bem ter raízes que se plantam mais firmes no coração que na fragilidade da lembrança.




Luiz de Aquino (http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com) é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras e escreve aos domingos neste espaço.



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6 comentários:

Lílian Maial disse...

A M E I, Luiz!!!
Que delícia! Fiz companhia a vc nessa viagem, com todas as suas flores e notas.
Beijão,
Maial

Mara Narciso disse...

Lindo Luiz!Ficou-me a impressão que foi criada uma outra frase para ficar nos anais históricos, muito mais do que uma lembrança, mas uma citação obrigatória: " uma amizade, ao consolidar-se, pode bem ter raízes que se plantam mais firmes no coração que na fragilidade da lembrança." Parabéns!

Luiz de Aquino disse...

Obrigado, Lília! Obrigado, Mara!

Beijos, meninas!

Sônia Marise Teixeira disse...

Linda, poeta! Quanta sensibilidade!As flores dizem mesmo.
bj

Leda disse...

ciao mio scrittore preferito Luiz de Aquino !!!
"I fiori sono i messaggi che la gente tentano di mandare e non sanno dire",
perfetto per me oggi leggerti e trovare queste parole che hai messo in rima,
Buona Domenica e Buon Giorno del Papà ! tua amica Leda Goulart (Orkut)

Leida Gomes França disse...

Luiz,
boa tarde!!!
Moço, só hoje pude ler
a sua crônica com tempo
e gosto, parabéns, ficou linda,
ela passa saudades, sensibilidade
e desejo de viajar.
Viajei poeta.Sua viajem de saudades e recordações floridas me deu asas.
Curti sua viajem, adorei!!!
Batí asas pra dentro de mim, viajei pra minhas saudades belas e de doces lembranças.
Foi ótimo rever pedaços do filme de minha vida.



Marieta Teles que a tudo curtia, querendo, falar, ouvir, cantar e dançar, com certeza amaria, ou está amando, de forma diferente, a sua deliciosa e suave crônica.


PS: Bom, menino, paro por aqui; se continuar acabo escrevendo besteiras como as que escreví na madrugada de hoje,hehehehe...
Beijo.