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sábado, agosto 22, 2009

Escribas no Senado

Escribas no Senado


Luiz de Aquino


Numa entrevista, cerca de trinta anos atrás, o poeta Aidenor Aires declarou, sem constrangimentos, que “se nós nos lêssemos, as edições dos nossos livros seriam esgotadas no lançamento”. E detalhou: o hábito eram tiragens de mil exemplares, e os escritores, publicados ou ainda na fase do sonho, éramos, já naquela época, muitos em Goiás.

Na última terça-feira, expressivo número de escritores lotaram um ônibus em Goiânia e, a convite do senador Demóstenes Torres, participaram de um encontro com colegas brasilienses na Biblioteca do Senado. O parlamentar goiano, um dos mais atuantes e respeitados em amplitude nacional, estimula o estreitamento das relações. Presidentes da Academia Goiana de Letras, Eurico Barbosa, da UBE de Goiás, Edival Lourenço, e da Academia Brasiliense de Letras, José Carlos Gentille, marcaram presença. Gostamos de reencontrar Flávio Kothe e outros velhos companheiros.

Habituamo-nos, especialmente escribas como Delermando Vieira, Brasigóis Felício, Valdivino Braz e eu, a nos municiar de livros para as permutas, em ocasiões semelhantes. Mas, desta feita, não encontramos entre os demais a mesma parafernália e retornamos com a carga. A alegria expandiu-se também, para nós, não só na iniciativa do senador Demóstenes, mas na eficiência de seus assessores, com ênfase para Nilson Gomes.

Estranhei, particularmente, a declaração do presidente da UBE Goiás, que entendeu ser essa a primeira vez em que se promove um encontro de escritores da Capital Federal com os goianienses. Em 1996, os brasilienses lotaram um ônibus e vieram a Goiânia para, em ação conjunta, fortalecer homenagem que a nossa UBE prestava a Carmo Bernardes. O passeio marcou-se por um almoço no restaurante Tacho de Cobre, visita à casa e à família de Carmo Bernardes, no setor Pedro Ludovico, e uma noite literária no Castro’s Hotel.

Em outubro do ano passado e em abril deste ano, o grupo de poesia Memento Mori, dirigido pelo poeta brasiliense Roberley Antônio, realizou encontros aqui em Goiânia, envolvendo poetas das duas cidades (outros encontros já estão programados e serão em Brasília). O primeiro destes, deu-se no Goiânia Ouro e o segundo, na Universidade Católica de Goiás. Ambos os eventos foram noticiados na imprensa e eu próprio cuidei deles em minhas crônicas.

Portanto, não se pode sair dizendo que “agora, vai!”. Esse “agora, vai!” já poderia ter acontecido se os escritores locais buscassem conhecer o que se faz por aí. Caso o fizessem, conheceriam melhor, por exemplo, Fátima Paraguassu, que, além de seu trabalho em música e literatura, atua como folclorista e notável defensora das tradições do Estado, com ênfase para Santa Cruz de Goiás. Ela estava lá, no encontro, sempre buscando divulgar seu trabalho.

Tudo isso me recorda, pois, a declaração de Aidenor... Constatamos que o moço poeta, naqueles anos finais da década de 1970, estava certíssimo. Os escritores não lêem o que os colegas, ainda que próximos, escrevem.

E arremato reafirmando a validade da iniciativa. Abraços meus de gratidão ao amigo senador Demóstenes e ao Nilson Gomes. Quebremos, pois, os bicos longos de orgulho e busquemos nos reaproximar, não só dos colegas brasilienses, mas também entre nós, os da casa. Se a família não se une, a união lá fora ficará sempre frágil.



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras e escreve aos domingos neste espaço.


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6 comentários:

Mara Narciso disse...

O sistema de permuta permite evitar encalhe, além de propiciar maior entrosamento e crescimento literário. Atualíssimo o pensamento do goiano. Eu já estou praticando a leitura dos amigos, prestigiando sempre. E ainda não seguro um comentário. O sistema de pirâmide literária cresce de forma geométrica como as outras, mas gera concórdia, conhecimento e ainda por cima é legal.

Fátima Paraguasú disse...

O Encontro em Brasília promovido pelo Senador Demóstenes e pelo querido amigo Nilson Gomes foi uma oportunidade para avaliarmos nosso distanciamento um do outro. Cada um busca momentos para divulgar seu trabalho. É um grande empurra, empurra.
Tive o prazer de participar das duas Noites de Poesias “Goiânia/ Brasília” e a Noite de Poesia em Brasília realizadas pelo Portal Memento do grande escritor Roberley.
Tenho o prazer de trabalhar em prol da Cultura Tradicional de Goiás, principalmente minha Santa Cruz.
Diante da constatação do amigo Luiz sobre o distanciamento dos escritores, pensei nas seguintes hipóteses: “Tarde da Leitura Alheia”, ou ” Escambo Literário” evento em que será proibido alguém falar de si próprio; o leitor se transformara em leitor. Cada um escolhe o escritor que quer ler. Passamos horas alegres, conheceremos um ao outro, nos aproximaremos e assim teremos uma bagagem literária para estender estes eventos a outros Estados e/ou Municípios

Poeta almaquio disse...

Parabéns, Poeta. Oportuna sua abordagem. Abraço do amigo.

Aidenor Aires disse...

Caro Luiz, poeta amigo,

Bom seu texto sobre o encontro de Brasília. Gostaria de ter ido, mas fiquei
esperando Eliezer Pena, que esperou Eurico Barbosa que não pôde ir.
Obrigado pela lembrança de minha fala. A gente vai virando memória. Mudam os
personagens mas os problemas são os mesmos.Embora haja alguma hipérbole
naquelas palavras, a realidade talvez supere o discurso.

Parabéns pelo texto.

Aidenor Aires

Marcos Carneiro disse...

Muito boa a ideia do evento, o qual parabenizamos o Senador Demóstenes Torre e meu tio Nilson.
Assim como Mara Narciso - pelo visto, fazendo sempre comentários verdadeiros sobre uma micelânia de assuntos - revela já ler os goianos, tambem o faço indo em livrarias direto nas prateleiras regionais, seja o escritor amigo ou não. Seja em prosa ou verso.
O grande notável citado Brasigóis Felício - pai de um grande professor literário de Goiânia: Pettras Felício - é merecedor de elogios, assim como vários outros. Principalmente aqueles que estão entrando novatos no cenário livresco. E você Luiz, nem preciso comentar, é símbolo de prova das afirmações da competência goiana.
Mais encontros dessa estirpe deveriam se feitos, para influenciar os cidadão goianos à leitura de seu estado.
Abraço

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Luiz, bloggretropasseando aqui, encontro esse texto maravilhoso. Carregado de veras verdades das eternas.

Incontestável quando você assevera que "Os escritores não lêem o que os colegas, ainda que próximos, escrevem.". Tenho notado muito isso aqui em minha região frienta do sul, mas ainda norte paranaense, em Maringá e Paranavaí, meu torrão natal.

É uma pena que a pena do escritor'amigo seja reputada como digna de pena; nisso vai sempre um pouco mei’muito de tã vã ostentação. Essa sim deve ser digna de pena, porque vil de tã pequena. Uma pena!

abs