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terça-feira, agosto 25, 2009

Trânsito, educação e politicagem

Trânsito, educação e politicagem


Luiz de Aquino


Desde a tenra mocidade, descobri que a diferença entre adultos e crianças está mesmo é no preço dos brinquedos. Ou seja, os brinquedos tornam-se mais caros à medida que a gente cresce – ou envelhece, para ser mais preciso – e não nisso aí que dizem ser “maturidade”. Maturidade está na pele, que perde o brilho e se enruga, bem como nos cabelos, que perdem a melanina. Não há tempo a perder com argumentos: olhe aí à sua volta, veja os brinquedos dos filhos, sobrinhos e netos, compare os preços com os brinquedos dos adolescentes, depois com os dos adultos... Viu? Conferiu? Descobriu? Tudo bem, pois!

Existem brinquedos que parecem baratos, mas resultam em coisas caras. Futebol, por exemplo, pede apenas uma bola, não é mesmo? Não, não... Quanto custa o terreno de cem metros de cada lado para se fazer nele um campo de futebol? E a terraplenagem? E o gramado? As travas... Ah, se é gramado e bem medido, logo haverá quem exija alambrados, arquibancadas e vestiário, mais os sanitários etc.

Para a quase totalidade dos mortais, um brinquedo caro, também, é o carrinho. Não falo dos carrinhos de fricção com que os petizes (icha! Essa palavra eu busquei longe, no tempo) se divertem, mas dos fuscas e celtas e corsas, que logo nos sugerem pálios e gols e meganes. Brinquedos não exigem de nós apenas seu custo de aquisição: há a manutenção e os cursos acessórios.

E aí, já que falei em carrinhos, vem o trânsito. Com o trânsito, a educação (ou a falta dela): motoqueiros que costuram entre carros e xingam os choferes (mais uma das antigas), pedestres que gesticulam para condutores... Há poucas horas, parei ao ver, diante de um colégio, o aluno de seus dez ou onze anos que já descia da calçada, ignorando o carro. Buzinei discretamente e fiz-lhe um sinal, sugerindo atenção. O guri respondeu, com a educação que lhes dão os pais: “Tô vendo, idiota!”. Tem nada não... Apenas cinquenta anos entre nós dois. Ah, cinquenta anos e, com certeza, um par de pais imbecis.

Viaturas da PM continuam obstruindo as calçadas estreitas de qualquer bairro. “Policia pode”, respondeu, tão mal-educado quanto o aluno que citei, um soldado à minha amiga Rosário, advogada. E ela: “Pode nada!”. Sim, a PM infringe o Código de Trânsito Brasileiro ao não usar, sistematicamente, o cinto de segurança e ao estacionar, a bel-prazer, nas calçadas, estejam a viatura e seus ocupantes a serviço ou não.

As pessoas, especialmente os que já sentem ter cumprido mais de setenta por cento de seu tempo ou missão nesta vida, sentem-se frustradas. E aí, o noticiário fica quase todo ocupado com a ex-secretária da Receita Federal dizendo que sim e a ministra da Casa Civil jurando que não. A opinião pública entende que a ex-secretária inspira mais confiança que a ministra, que pretende vir a presidir o País e a Nação.

Quero não, siô. Prefiro a Marina Silva. A ministra candidata, alinho-a com o menino mal-criado que atravessa a rua desafiando os carros, o policial que acha que a PM “pode” infringir a Lei, bem como o “gênio” que bolou isso de pôr viaturas onde, diz o Código, é espaço reservado a pedestres.

Ah, a todos esses quero juntar também os que estacionam em lugar reservado para portadores de deficiência física e idosos. São tão “confiáveis” quanto a ministra que quer suceder o presidente Lula.



Luiz de Aquino (http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

8 comentários:

Mara Narciso disse...

Não é fácil engolir a arrogância das autoridades. Acredito que a ressaca do dia seguinte sem poder deve ser intolerável. Sendo gente comum, pelo menos dessa estamos livres.

Fátima Paraguassú disse...

Esse é um País que vai pra frente!

Maria Lindgren disse...

Ótima crônica.
Maria lindgren

Marcos Carneiro disse...

Ainda batendo na tecla das viaturas em calçadas, né Doutor.
Pois bem feito. Se não batem na tecla as "autoridades" (entre as aspas que nunca são eliminadas), bateremos aqui, certo?
Que crônica perfeita, meu caro.
Sinto um sentimento de inveja boa de você, viu.
Um texto que busca lá na apigênese da origem do que é ser "bem educado", pra se ter uma crítica de seu resultado no cenário político.
O caso do menino que lhe dá a resposta rude é explícita onde nossos pés andam. Os pais de hoje são como os filhos de antigamente: Se calam de medo ou são reticentes.
O que será da vida de um garoto desse? Que profissional ele escolherá ser? E que tipo de educação dará aos seus filhos?

Sônia Marise disse...

Oi, poeta!
Menininho mal educado, hem?
Continue a apontar os malfeitos
que tresandam(Cabe esta aqui?)
por aí, nos bigodes da gente,in
comodando todo mundo...Só que, a-
penas alguns poucos verbalizam o
incômodo.Jornalista é isso:os olhos
e os ouvidos das multidões.Um lembretinho: quem fez malcriação ao PM estacionado na calçada fui eu,viu? ou a sua amiga Rosário também lascou o "pode nada" à autoridade infratora que "estufadamente" respondeu o "a PM pode", quando questionada sobre a censurável conduta? Taí: tô reclamando o crédito da malcriação, tá? Um abração,
Sônia Marise, diretamente da estufa do Tocantins...

Luiz de Aquino disse...

Desculpe-me!
Misturei fatos, frases e personagens...

Realmente, essa fala foi sua. A de Maria do Rosário (também professora e adovagada) foi outra.

Fica, então, esclarecida a minha confusão e tentarei, pois, corrigir o crédito numa outra crônica.

Luiza Chagas disse...

Luiz,

Li a crônica: trânsito educação e politicagem. Boa comparação; nós crescemos e os briquedos também. É preciso educação para brincar com os briquedos grandes e solidariedade para dividir espaços. Mas temos dificuldade com a politicagem que egoísta e individual. Interessante !! Desculpe se a minha interpretação foge do sentido real do texto. Gostei muito. Paraaabéns!.
Abraços, luiza

Luiz Bento Pereira disse...

Transcrito do DM, opinião do Leitor:

Luiz Bento Pereira em 26/08/2009


Prezado Luiz Aquino, sua indignação é a de todos nós. Percebe-se com clareza que o trânsito nosso de cada dia, é uma fábrica eficiente de alto grau de stress e com frases curtas, poderiamos reforçar sua tese, como o que deveria ser ou funcionar: Moto, transporte individual; retornos universais; rotatórias ridiculas de metro e meio de diametro; viadutos recheados de vaidades pessoais; pedestres arrogantes; faixas brancas sob sombras de arvores; motoqueiros costureiros, SMT que mudou de nome, mas continuam as mesmas pessoas incompetentes ou impotentes para uma fiscalização correta; enfim calçadas ocupadas com cadeiras, entulhos e o código de posturas da Prefeitura foi pro lixo; Se nós somos culturalmente um caldeirão enorme de coisas erradas e saimos daqui para ocupar pelo voto o cargo de vereador, deputado, senador ou Presidente, não podemos exigir muito deles, que somos a rigor, nós mesmos, refletidos no grande espelho da vida. De qualquer forma, convenhamos que a liberdade traz todos os inconvenientes que o regime militar encobria. O Caso de Sarney é um exemplo tipico que começou sua carreira como senador bionico e sua escola de malandragem foi iniciada a partir de 64. Porque somente agora e porque somente ele? E o que o Presidente Lula e Dilma, a rigor, têm a ver com isso? O PT não tem poder para mudar a mentalidade politica e impor uma conduta exemplar a um congresso onde a maioria e oposicionistas politicos imperam e somente querem fazer acordos sujos. O PT como poder, tem obrigação de negociar para sobreviver. Não outra saida, os bandidos que lá estão de outros partidos são os verdadeiros causadores de todo esse tumulto.