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sábado, março 05, 2011

Guias de coração poeta


O Guia de Meia-Ponte repete o da antiga capital, Vila Boa.
 Guias de coração poeta

Primeiro, o da Cidade de Goiás, antiga capital, histórica, saudosa e sempre amada Vila Boa de Goiás; agora, o de Pirenópolis, a outrora Meia-Ponte que o modernismo de 1890 preferiu trocar por Pirenópolis. Até o momento, meu amigo Elder Rocha Lima produziu dois livros com nomes tão aparentados quanto o são as duas cidades, berços da colonização, da política e das práticas culturais de Goiás: Guia Afetivo da Cidade de Goiás (publicado pelo IPHAN, 14a. Superintendência Regional, em 2008) e Guia Sentimental da Cidade de Pirenópolis (datado de 2010, mas lançado no dia 25 de fevereiro de 2011, no histórico cinema).

As mesmas medidas, o mesmo número de páginas em ambos.


Há, desde séculos atrás, uma rivalidade política e cultural entre as duas cidades, ainda que sejam, ambas, povoadas pelas mesmas famílias. Ciúme bairrista, sem agressão prejudicial, mas com a disputa acirrada por privilégios e destaques. Se Pirenópolis tem as Cavalhadas na Festa do Divino Espírito Santo, a Cidade de Goiás tem a Procissão do Fogaréu; uma foi capital da Província e do Estado, a outra orgulha-se de ter (sem vencer a rival) belíssimo elenco de artistas de várias áreas e políticos notáveis.


Procissão do Fogaréu, em Goiás, e...
,,,Cavalhadas, em Pirenópolis
Rivalizam-se também pela culinária, pelo artesanato e pelo gosto incontestável pelas boas coisas da vida, desde a cumplicidade com os recursos naturais até as impagáveis e amorosas serenatas em que o forte sempre foi, em cada uma delas, as canções compostas por seus nativos. Uma tem a Serra Dourada, a outra, os Picos Pireneus; de uma é o Rio Vermelho, da outra o Rio das Almas. Cora Coralina reinou em uma; Santa Dica na outra. E assim seguem os afagos aos próprios egos.

Por isso e, como contou em seu discurso no ato de lançamento da obra, fugindo de possíveis reprimendas dos de Vila Boa, o Guia Sentimental tem o mesmo tamanho do Guia Afetivo: 144 páginas. A diagramação é do mesmo feitio (e da mesma artista gráfica, Genilda Alexandria). Com isso, desfaz-se do esperado ciúme. Ou espera que sim.

Na contracapa, textos de muita semelhança, ele explica Pirenópolis, como antes explicou a Cidade de Goiás:

“Para construir esta Meia-Ponte não foram convocados artistas, arquitetos, urbanistas e outras figuras importantes (e, às vezes, arrogantes), para planejar, desenhar e definir esses espaço construídos. Ao contrário, foi o povo que fez a cidade sem planejadores e sem máquinas e com poucos instrumentos. Foi feita à mão por pretos, mulatos, caboclos, brancos, travestidos de mestres-de-obras, pedreiros, carapinas, entalhadores, ferreiros, pintores, e tantos outros necessários para levantar as nossas moradas, nos abrigar das intempéries, criar meios de preparar nossa comida, propiciar nosso repouso, acolher nossa vivência amorosa e criar nossos filhos”.

De Elder Rocha Lima, já se falou: é o que se pode chamar de artista completo. Vila-boense pelo nascimento; meia-pontense por origens; goiano pela plena identidade; cidadão do mundo porque seu coração recusa-se a ser uma pedra à beira do rio. Arquiteto, poeta, professor, desenhista (de arte), aquarelista... ainda não o vi no exercício da música, em canto ou instrumento; mas não duvidarei de encontrar um virtuose.

E gosto de registrar que, na festa desse livro, brilharam também a superintendente regional do IPHAN, Salma Saddi, incansável na preservação e na valorização do patrimônio histórico e artístico, mas com o talento de “farejar” qualidade – daí a ocorrência, sob os auspícios de sua repartição, de tantos feitos. E marcar, também a presença alegre e feliz do artista Pérsio Forzani. Este, sozinho, consegue fazer vibrar a alma poética de Pirenópolis.

Estou certo de que Salma e Pérsio, como Elder, são também guiados pelo coração.



* * *


Eu com Pérsio Forzani e Elder Rocha Lima; na parede, aquarelas de
Elder (na festa de lançamento do Guia Sentimental).



Luiz de Aquino – poetaluizdeaquino@gmail.com 

9 comentários:

Elder Rocha Lima disse...

Poeta:
Você é muito generoso. Se pessoas como você continuarem me tratando com tanta benevolência,
acho que vou ficar metido a besta.
Com relação ao seu desfio de compor peças musicais, não se surpreenda se isso acontecer. Letras
para serem musicadas já andei ensaiando.
Me comoveu particularmente o final de sua crônica. Tenho dito aos familiares que meu desejo é ser
enterrado de cabeça para baixo, de tal maneira que meu coração fique acima de meu cérebro.

Você, poeta Luiz Aquino, é meu amigo de infância, de mijar juntos, que conhecí recentemente.

Saudações meia-pontenses do
Elder

Luiz de Aquino disse...

Elder,

Se eu tivesse competência para tanto, cuidaria de produzir a sua biografia em livro.
Peraí, eu não exagero, e vou lhe contar como isso começou: era fevereiro ou março de 1965 (no dia 22 de fevereiro, comecei a trabalhar no BEG) e, enquanto esperava o elevador, vi você observando detalhes do prédio aqui e ali, como quem busca defeitos ou procura corrigi-los. Perguntei a um colega mais velho e ele me ensinou - "É o arquiteto do nosso prédio". O edifício fora inaugurado a 18 de maio do ano anterior, com presenças de Pedro Ludovico, Mauro Borges e Iris Rezende Machado, certamente de Hélio de Brito e outros igualmente notáveis. Como se lembra, a cidade era ainda pequena, cerca de 250 mil habitantes, uma obra como aquela era algo de realce e o evento da inauguração deve ter significado, para a jovem capital goiana, como a ponte Rio-Niterói nos anos de coturnos altos.
Meu colega declinou seu nome; e naquele instante eu senti que deveria sempre recitá-lo inteiro - Elder Rocha Lima. Uma bonita sonoridade, uma rendilha menor. Acho que senti inveja do seu nome: caldas-novense de nascença, carioca de criação e com um orgulho enorme de ser goiano, o jovem bancário trazia a memória ocupada, quase toda, de informações escolares - talvez 70% de tudo o que eu pensava saber; e uma dessas coisas era a recomendação de professores de Português - "Consulte a gramática Rocha Lima".
Desde entao, passei a segui-lo, na medida do possível para, há menos de dois anos, ou 45 anos depois de vê-lo pela vez primeira, curtir o prazer de sua presença.
E tinha de ser Pirenópolis - mas igual seria em Vila Boa, as eternas rivais goianas, feito irmãs, ciumentas, mas ligadas por amor eterno - o cenário do nosso encontro.
Resumindo, Elder, quero dizer-lhe que esse pedaço de muro que é a minha crônica no jornal limita-me muito, em algumas ocasiões. Eu tenho sempre um pouco mais a lhe dizer porque fica muito fácil falar e escrever sob o êmulo da admiração emocionada.

Meu abraço afetivo, querido amigo de mijada na infância!


Luiz de Aquino

Maria Helena Chein disse...

Guias de coração poeta (creio que é esse o título) corre pelos nossos
sentidos, pelo coração e pelas lembranças (agora, organizadas pelo
querido Luiz) e nos deixa amorosamente gratos a tanta coisa boa de nossa terra,
cantada por ilustres conterrâneos.
Bjs.
Maria Helena

Mara Narciso disse...

Sempre haverei de reverenciar inteligências além do gráfico. É preciso ainda homenageá-las, para que sirvam de referência aos mais jovens. Estudo e trabalho precisam ser permanentes, mesmo para estes seres aquinhoados com neurônios mais eficazes.

Luiz Delfino de Bittencout Miranda disse...

Poeta Aquino,

Sua estrada asfaltada de conhecimento e frequentada por figuras ímpares nos dá a alegria e o orgulho de compartilhar de sua amizade.

Saudade do amigo e da "minha querida" Goiânia

Luiz Delfino

FLORESDOBEM disse...

Simplesmente belo!
Amei...

Helena Sebba (de Inhumas, GO) disse...

Olá, meu querido Luiz, Luz, obrigada pelos votos de meu aniversário. Fiquei feliz. Minha casa está passando por uma pequena maquilagem, (pintura) e alguns remendos, pois as residências, como nós mesmos, necessitam, de quando em quando, uma renovação. Assim que as obras terminarem, o que acho irá demorar um pouco, pois o Antonio briga constantemente com os pedreiros e pintores, e já estamos na terceira leva deles, farei uma almoção para comemorar, não tanto o término da arrumação, mas o fim dos desentendimentos com a turma da cal, da colher e das tintas, e você é convidado de honra.
Obrigada também pela aula de História sobre Pirenópolis e Vila Boa. Valeu. Por este motivo o rebatizei de Luz. É verdade.
Abração e bjs.
Helena Sebba.

Adriano César Curado disse...

Luiz, esta sua crônica é de disparar o coração da gente. Pirenópolis é uma cidade que nunca deixa de mostrar novos valores, e esse Elder Rocha Lima é uma pérola rara, tem o dom de emanar poesia das imagens que retrata.

Amaury Menezes disse...

Elder Meu amigo.
A crônica do Luiz de Aquino desta semana “Guia de coração poeta’ é o reconhecimento da importância dos seus trabalhos sobre a Cidade de Goiás e Pirenópolis. E olha que a pena e a língua ferina desse cronista não costumam perdoar nem poupar os aventureiros das artes em Goiás.
Parabéns pelo seu sucesso, ou melhor, pelo seu êxito e mais uma vez lamento não estar presente para levar meu abraço amigo.
Amaury