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quinta-feira, março 17, 2011

Vestida de azul e branco…


Vestida de azul e branco…



O tempo era aquele, antes dos Beatles, da pílula anticoncepcional e do golpe militar. Vivíamos a efervescência do chamado pós-guerra, os costumes mudavam-se rapidamente, os tabus eram desafiados. Falava-se em “lua-de-mel experimental”, o que já chocava as vovós e os papais, mas logo falaríamos em amor-livre. A indústria farmacêutica anunciava uma pílula que, consumida diariamente por 28 dias, evitaria a gravidez. O assunto dominava as conversas entre os jovens e ganhava, discretamente, espaços na mídia.

Sobrados de Marechal Hermes. Num desses vivi a adolescência.

Pasmem! No Rio de Janeiro, no meu bairro de Marechal Hermes, no subúrbio, nos últimos anos da década de 1950 e início dos anos de 1960, eu, na faixa dos 13 e 14 anos, presenciava, da sacada do sobrado onde morava com minha avó e tios, cenas que antecipavam o tal de amor-livre: eram casais em motonetas (as inesquecíveis Lambretta e Vespa), a moça sempre na garupa; paravam na rua lateral (nossa casa era na esquina) e ali mesmo, encostados na “montaria”, começam a beijar-se e a tocar-se; eu, meu irmão e um primo (ambos dois anos mais novos que eu) descíamos, silenciosamente, a escada; um portão de serviço, em armação de madeira e forrado de flandres, valia-nos como observatório, pois as lâminas do zinco ficaram furadinhas... 
Vespa, 1960.

Lambreta, também de 1960.

Víamos as mãos atrevidas – quatro mãos de cada casal – invadirem zonas proibidas, como seios, nádegas e virilhas. As moças auxiliavam os parceiros a aplicar o preservativo e ali mesmo, protegidos da parca iluminação pública (mas não de nossos olhos infantes e curiosos), amavam-se livremente. No dia seguinte, cabia a nós, os meninos da casa, varrer das calçadas os restos do amor quase oculto...


Ilustração de Elson (DM) para esta crônica no jornal
Ah! Tenho uma bonita história, de uma moça, colega dos tempos de Ginásio no Colégio Pedro II, no Rio; concluindo o Ginásio, escolheu ser Normalista, ingressando no rigoroso Instituto de Educação do Rio de Janeiro, em processo seletivo de elevado grau de dificuldade. As estudantes desse curso, em seus belos e elegantes uniformes, eram chamadas de Normalistas. Uma música, na voz de Nelson Gonçalves, ocupava as paradas de sucesso dos rádios: “Vestida de azul e branco / trazendo um sorriso franco / num rostinho encantador. / Minha linda normalista / rapidamente conquista / meu  coração sem amor”. (Música: Benedito Lacerda; letra: David Nasser - http://www.youtube.com/watch?v=Z2UfRnGxHOs&feature=player_embedded).

Como é natural, a moça arranjou um namorado – moço mais velho, com a vida já num caminho definido. Isso era 1962, 63. Durante as férias do final de 1963, minha amiga, filha única, descobriu-se grávida.


A elegância era indício de sobriedade das futuras professores
Imaginem o escândalo! A diretoria do Instituto chamou os pais da Normalista para estressantes reuniões; depois, novas reuniões, já com a presença do namorado da moça – a ela cabia apenas ouvir o que discutiam e acatar o que decidissem os outros. E a decisão foi, no entender de nós goianos matutos, uma forquilha: a menina deveria se casar ou seria expulsa do IERJ. O argumento era simples e fortíssimo: como uma Normalista pode educar crianças se pecou contra a castidade que deve nortear as moças de família? Que escola aceitaria uma professora que era mãe solteira? E que pais confiariam numa professora com esse desvio de conduta?

Instituto de Educação do Rio de Janeiro
A paixão de vida da minha amiga era o ensino. Aceitou casar-se com o don-juan em questão, mas aquele foi um casamento para satisfazer caprichos da congregação de professores do IERJ. Pouco tempo depois de formada, separou-se do marido condicional e, quando as leis brasileiras permitiram o divórcio, legalizou a união com o homem que – depois de sozinha – ela escolheu como o companheiro da vida inteira. Já os professores sisudos e caretas do IERJ acabaram por amargar as transformações que abalaram o mundo naquela mesma década.

Essas lembranças mexem com meus conceitos... Calculo que as moças das garupas da “lambretas” são, hoje, vovós que já dobraram a marca dos 70 anos e vivem, certamente, a espantar-se com as posturas de seus netos e netas; e confiro, também, que aqueles professores moralistas que tentavam santificar as normalistas poderiam ter vivido o bastante para conferir os costumes de suas bisnetas.

Sim: aquele era um tempo em que virgindade feminina era virtude. Imaginem!

* * *

L.deA., naquele tempo...
Luiz de Aquino é escritor e  jornalista.

8 comentários:

Pedro Du Bois disse...

Pedro Du Bois ✆ para mim
mostrar detalhes 20:43 (1 minuto atrás)
Caro Luiz,
belíssima crônica de antecipação de costumes.
Nossa geração foi rica em descobertas.
Mesmo que a força tenha ensombrecido o horizonte.
Creio que saímos mais fortes após todas as vicissitudes.


Abraços,
Pedro

Vivi disse...

Imagino quanta coisa boa você ainda tem pra nos contar heim Luiz? Bacana. Parabéns.

Vivi

Bethânia Loureiro disse...

Querido Luiz, adoro quando escreve textos como este.
bjos

No Divã com a Malu disse...

Oi Luiz,que bela crônica!
Fiquei ainda mais feliz que tive a oportunidade de escutar pessoalmente a história da normalista,hoje em minha casa, momento este em que você gentilmente presenteou minha mãezinha com dois de seus livros.
Como te falei ,tinha escrito nesta semana ,um poema “Azul e branco”.
Humildemente, te envio.(nem pensar em comparações...Você é e sempre será meu grande mestre).
Azul e branco




Resolvi usar azul ,azul celeste.
Branco também.
Dei folga para o vermelho...
Vermelho Carmim..

Necessito de paz.
Repousar meus sentimentos...
Meu corpo já não suportava as agonias e tempestades do vermelho.

Quero o céu estrelado, a noite de lua cheia.
A rede no alpendre.
Quero sonhar com o mar.
Quero dormir com o barulho das ondas batendo na s pedras.

Tenho as outras cores também para explorar.
O rosa, o marrom,o lilás que me transforma.
É uma questão de tempo.
O vermelho está guardado na gaveta com as mais deliciosas fragrâncias.
Afetivamente,
Malu Carvalho

Léo Carrer disse...

Olá Luiz, gostei muito de sua crônica e seu blog, mais um grande escritor para me inspirar em meus singelos textos, que podes conferir no Http://antitelejornal2.blogspot.com.

Abraços e obrigado pelo livro!

Mara Narciso disse...

Ontem li no Literário um texto de Pedro Bondaczuk sobre excentricidades de outras eras e lugares. Não precisa ir a lugar nenhum, basta voltar algumas décadas. Para os jovens de hoje, para os quais não ter sexo no primeiro encontro, já indica algo errado, saber da obrigatoriedade de se casar virgem, e de que não seguir esse ritual era inaceitável, tudo isso é aberração para eles. Na minha cidade, Montes Claros, norte de Minas, um casal engravidou e se casou em 1970, ela com 15 anos e ele com 16. Foi o 1º caso na classe média: escândalo total e crime dos pais. O casamento durou dois anos. O que é certo?

Zulânia disse...

Oi Luiz, belíssima crônica. Adoro todas. Parabéns e um grande abraço.

Zulânia

Teresinha L. disse...

Meu querido primo .... veja só,como moradora do mesmo belvedere que vs.3 compartilhavem, e, um pouco mais adiante no tempo, nunca cheguei a ver ..., que pena. AS MENINAS(MULHERES) DAQUELA ÉPOCA RREALMENTE ERAM ATRASADAS; e veja só que quem vos fala não era das piores, v. sabe. Adorei, não apenas esta crônica cº tb o versinho. Beijos, Teresa