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sexta-feira, março 11, 2011

Nascer para as Letras


Nascer para as Letras


A moça formou-se em Letras… Bem, acho que é do meu tempo, e o nome do curso, então, era Letras Vernáculas. Licenciou-se, ou seja, tornou-se professora de Língua Portuguesa e Literatura – neste particular, incluindo o que se escreve com arte em Portugal, no Brasil e nas demais nações lusófonas. Mas para formar-se, teve de afastar-se da família e vir para Goiânia. Era concluir o Curso Normal e depois ingressar na Faculdade de Filosofia – a escola superior que, então, formava professores para os cursos Ginasial e Colegial. E como expliquei isso, devo contar aos mais moços o que era o Normal: era um curso profissionalizante, no nível de Colegial (hoje, Ensino Médio), que formava professoras primárias.

Ao que consta, nada havia que restringisse o Normal às moças. Rapazes também podiam formar-se naquele curso, mas a tradição reservava às jovens donzelas o ofício de professoras de crianças. Esse curso era ministrado em Instituto de Educação e em Escola Normal. (Sobre ministrar: tem gente fina por aí que não sabe o que é ministrar, e diz e escreve administrar... Ministrar é uma coisa, administrar é outra).

Pois bem! A moça de quem lhes falo viveu aqueles anos tormentosos que a convenção jornalística e literária brasileira qualificou como sendo “de chumbo”. Era o início dos anos 1970, vivíamos sob a pressão das famílias, naturalmente conservadoras, diante de uma realidade irresistível para os jovens. A comunicação ganhava força com a tevê e os filmes novos chegavam a Goiás em cerca de seis meses, em contraponto com os dois ou três anos de antes. Em síntese, nós, os moços daquele tempo, éramos bem informados. Ou relativamente bem informados.

Essa moça é Josefa Martins Lopes, que incorporou Sampaio ao casar-se. Católica dedicada, como dedicada sempre foi também à leitura. A Literatura, especialmente os clássicos, eram a sua paixão mundana – já que a doutrina Católica era-lhe como o sangue nas veias. Com a simplicidade das pequenas cidades (ela veio de Santa Teresinha, no que era meio-norte goiano e, agora, com o Tocantins, é norte mesmo).

Uma vez formada, e de volta ao interior, dedicou-se ao gratificante ofício do ensino. É certo que o sistema educacional brasileiro, tanto o que o Estado custeia como o privado, que é fonte de fortuna para os empresários do ramo, minimizam o professorado. Mas dificilmente uma profissão, qualquer outra, faça a felicidade do trabalhador como a dos mestres.

Em Goiânia daqueles anos já era muito difícil conseguir bons livros literários. Imagine-se, pois, nas pequenas cidades! A professora Jô Sampaio tinha dificuldades em passar textos de leituras aos seus alunos. Se ao menos tivesse alcance a livros, ainda que não os tivesse no mercado local, ela faria cópias de contos e poemas. Mas senão os tinha...

O jeito foi produzir textos. Por não ter livros o bastante para colher material de ensino, passou ela própria a escrever poemas e contos de acordo com o que precisava. E assim, descobriu-se escritora. Só que ignorava o tamanho de suas possibilidades nesse meio. De criadora literária, e valendo-se do que aprendeu na faculdade, afinou sua capacidade crítica a ponto de produzir belíssimas peças de análise literária, muitas vezes tirando licor das pedras áridas.

Tenho tido o privilégio de ler, em primeiríssima mão, seus novos contos. Vislumbro para ela o acento cativo no pavilhão dos bons, ainda que, todos sabemos, a consagração virá, de fato, depois de lidos pelas gerações vindouras.

Em breve, teremos dela um novo livro à luz. Aos que gostam de boa leitura, sugiro que aguardem notícias da nova obra que, sem qualquer dúvida, cuidarei de alardear aos leitores destas minhas pobres linhas semanais.

Aguardem, pois! Por enquanto, recomendo-lhes a leitura de A Trapezista (a obra está esgotada, mas é quase certo que a encontraremos nos sebos de Goiânia). Por enquanto, privilegiados são seus alunos do Ensino Médio e da Universidade Estadual de Goiás, em Porangatu.


* * *

Luiz de Aquino é escritor – poetaluizdeaquino@gmail.com 
.

22 comentários:

Mara Narciso disse...

Ficou faltando pelo menos um parágrafo da lavra da professora, para que nós, que ainda não conhecemos o seu trabalho literário, pudéssemos conhecê-lo um pouquinho.

Luiz de Aquino disse...

Querida Mara,

Ela fez uma análise do meu poema "Cálidas mineiras em termas Goiás" e esse texto está no blog:

http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com/search?q=Antropafagia+à+minha+moda

Beijos.

blog do sóter disse...

caro luiz,
quando em morava em mara rosa, tb meio norte goiano na década de 80, estive com o poeta cassiano nunes em brasilia e, no beirute, conversando sobre as vanguardas eu lhe disse que a vanguarda da cultura brasileira na verdade acontecia no interior do país, poois as vanguardas das metróplolis eram apenas tendencias importadas.
ele tanto aprovou que escreveu o seguinte poema:

O caminho verdadeiro ja foi achado
Não está nas vanguardas decadentistas,
colonizadas e obsoletas.
Mas na auscultação indígena da terra
Temos que ouvir e interpretar o canto da realidade do cerrado
em que pioneiros nos instalamos.

se quisermos conhecer as vanguardas brasieliras temos que fazer a "auscultação" do nosso vasto interior.

Paulo Roberto disse...

Antes de falar de Jô Sampaio, é preciso elogiar a postura de Luiz de Aquino ao usar seu blog para divulgar o nome desta escritora, que certamente é um dos topos de tudo o que há de vanguarda literária da região centro-oeste brasileiro. Que essa divulgação ganhe a força de um tsunami capaz de mostrar ao resto do país o que é de grande e inestimável valor.

Jô Sampaio, a meu ver, é uma escritora goiana capaz de mergulhar-nos mais profundos aspectos filosóficos e psicológicos em seu processo criativo de dar vida aos seus personagens.

Quando leio seus escritos, percebo leveza no modo como realiza as mais profundas críticas sociais, ainda que não encubra com algum véu a acidez da sociedade por ela descrita.

Tive a felicidade de ler quatro livros dela: Nina, Duelo Atemporal, Estudos da Poesia de Coelho Vaz e Mito e Existência no Ócio da Via-Sacra. Com isso pude conhecer a escritora e intelectual Jô Sampaio nos mais diversos estilos como o poético, contista e analista literária.

Esse mergulho na psiqué humana e na conseqüente filosofia, a torna, melhor do que muitos grandes escritores deste país, capaz de despertar o prazer de ler nos mais jovens e ressuscitar o apreço da leitura nas pessoas de maior idade.

Por vezes disse para a Tia Jô (modo carinhoso como a chamo) que o verdadeiro lugar dela é na Academia Brasileira de Letras. Por isso sua obra deva ser divulgada país afora e novos materiais, muitos deles já criados e devidamente guardados, editados.

Não é a toa que os maiores intelectuais de Goiás gostam quando ela comenta os seus livros ou obras inteiras, pois Jô Sampaio, profunda conhecedora do que é humano, tanto por vivência quanto por cultura, é capaz de desvelar os pensamentos mais íntimos e conflituosos que temos em vida. Essa capacidade é expressa tanto na forma mais inocente e infantil das crianças, quanto no aspecto mais maduro, inseguro e trágico dos adultos.

Que o Brasil conheça mais e melhor a delicadeza de estilo desta grande escritora Goiana, que é capaz de ligar a nostalgia e a perspectiva, o passado e o futuro com tamanha facilidade.

Jô Sampaio disse...

Sóter,lembro-me de você em Mara Rosa,fomos colegas no Colégio Castelo Branco, dirigida pela saudosa Irmã Beatriz.Nunca me esqueço do seu livrinho de bolso pra ler a dois, tenho-o ainda.Vc.não se lembra mais de mim,menino?Beijos

Maria Helena Chein disse...

Luiz,

li a crônica "Nascer para as Letras", onde você fala sobre Jô Sampaio,
e seu depoimento "Pois é, eu vi", lembrando o início do DM e agora
completando 31 anos. Ótimos textos, grandes lembranças.

Bjs.

Maria Helena

André Lima disse...

Primeiro o que me chegou aos olhos foi Tia Jô Sampaio. Eu a chamo assim até hoje. No princípio, não havia a luz dos contos ou dos poemas. Era só o parentesco adquirido através do recurso virtual e pelas mãos de Deus.
Esse mesmo recurso virtual me apresentou o trabalho de minha tia, agora de sangue, sangue literário. Ela me enviou contos e poemas, que li com a avidez com que o recém-nascido busca o leite materno. Jô me surpreendeu e me emocionou. Fez isso somente com palavras. Justo com a minha matéria-prima. O homem de letras colocou o que pôde em sua sacola do conhecimento. E ele descobriu que é impossível carregar tudo de uma só vez.
Em Janeiro último, eu a conheci pessoalmente. Juntamos o visual e as palavras. E Jô se fez completa. Completa como o trabalho que realiza e que me apresentou.
Sou aprendiz, macaco de auditório e sobrinho orgulhoso.
A bênção de seu menino, minha Diva.

Mariana Galizi disse...

Toca eu voltar para Goiânia e conhecer mais uma dona da pena... ah, como queria ver isso de perto, de muito perto.
História emocionante, parabéns! Deve ser privilégio conhecer alguém assim.

Jessica Karolline disse...

Sou uma das privilegiadas.

Sérgio disse...

Eu sou um dos privilegiados de ser aluno desta professora talentosa aqui na UEG de Porangatu, o considero essa professora, escritora, poeta etc etc, como uma sabedoria ambulante, pra quem ama esse mundo de literatura, poesias, contos, e etc, é obrigado conhecer essa professora.

Anônimo disse...

peaJÔ SAMPAIO...

SUMIDADE EM CONHECIMENTO E ARTE,LENITIVO AOS ACADÊMICOS DE LETRAS, A PROFANA ESSÊNCIA ARROJADA E ÍMPAR DE UM COGNITIVO INVEJÁVEL. BAILAMOS JUNTOS NO ÁPICE DA SUA LITERATURA E COM ELA DESLIZAMOS A SUA MAGNITUDE.
JÔ VOCE É ARTE MUSICAL DA LITERATURA A ABSTRATA REALIDADE DO TU...

ADNA LELES

Anônimo disse...

Parabéns JÔ SAMPAIO...

mila-rede disse...

Caro Luiz,

Hoje tive a felicidade de entrar em seu blog e ler está crônica maravilhosa sobre essa magnifica pessoa que é a Jô Sampaio, ainda não a conheço tão bem como você, mas estou tendo o privilégio de ser sua aluna no primeiro ano de letras da Universidade Estadual de Goiás, no polo de Porangatu. Sei que ainda tenho muito, e quando digo muito é muito mesmo, que a- prender com a Jô. Viajo ao ouvi-la declamar partes de algumas poesias em suas aulas, em sua voz sinto a paixão que você cita em seu texto, que magnitude. Ao ler seu livro de poesias Duelo Atemporal me sinto ainda mais honrada de ser uma das privilegiadas de ter esta grande mulher como mestra.

Ludimila Borges

Anônimo disse...

Ser aluna dela é ter a cada dia o mais vasto conhecimento e poder absorver tais conhecimentos nos dá a grande certeza que se pode ir além das fronteiras de um interior e alcançar as diferentes e grandes divisórias que a literatura e a escrita nos oferece.Professora Jô é para mim,um livro humano ao qual jamais cansarei de ler e de querer mais e do tanto que pode oferecer...a história dela não se iguala a de muitos...mas poucos terão esta sorte de passar por muito e com o mínimo se fazer ser entendido...este caminho não é para muitos...mas para poucos e dentre estes poucos outros poucos poderão fazer o mesmo que ela faz...ou seja....nossa caminhada ainda é bem longa...e tenho o privilégio de ser aluna de Jô Sampaio....
Acadêmica Fernanda Gomes Barbosa Curso de Letras da UEG unidade de Porangatu.

Antonio Soares Barbosa disse...

Jô Sampaio, exercício cético entre leituras mitológicas e filosóficas,numa estética que vai de Machado a Nelsom Rodrigues numa dialética de personagens do cotidiano que servem de espelho para muitos que estão a nossa volta.
Comentário de alguém que deseja ser leitor...

Antonio Soares Barbosa disse...

Do Norte de Goiás para todos os "Nortes"
Jô Sampaio, no uso da palavra faz personagens que vão do universo da fé popular, figuras mitológicas, referências filosóficas numa construção do existencialismo sem conclusão e que deixa o leitor pensar em diferentes possibilidades...

RLC disse...

É muito importante a valorização da nossa literatura e principalmente a divulgação de autores.

Parabéns pelo blog e pelo texto referente a esta grande escritora!

Jô Sampaioi disse...

Obrigada a todos que fizeram postagens neste blog,suas palavras hão de me servir de estímulo.Agradeço ao Luiz por ter me proporcionado a divulgaçãio do meu trabalho. Obrigada aos meus alunos, aos meus colegas, aos garotos do Rio e de Curitiba, à Mara, ao Sóter e à Maria Helena.Beijos carinhosos a todos.

Aguimar Siqueira disse...

Belíssimos comentários sobre a nossa educadora e escritora Jô Sampaio.
Foi minha professora e que bom será se eu consegui ser para os meus alunos um pouquinho do que ela foi para mim. Aguardo alguma obra dela indicada para o vestibular assim terei o prazer de analisar com meus alunos os escritos da queridíssima Jô Sampaio. Parabéns!

Galinhas das Seis e Meia disse...

Esse ser iluminado, chamado Jô Sampaio, é uma de minhas honrosas amigas, a muito que tenho o prazer de deliciar-me com suas escritas, as quais sempre me faz navegar pelo vasto mundo de prosa, verso e rima, eis uma literária completa e complexa digna de todos os elogios e admirações...
Aplausos a Jô Sampaio!

Jô Sampaio (Porangatu) disse...

Galinha das seis e meia é um bloco carnavalesco daqui,
quase todas as professoras dele participam (menos eu).
Quem fez aquela postagem foi Jordan, um garotão de 17
anos que só tem amizades com gente com mais de 40 anos.
Maior absurdo, ninguém entende essa sua esquisitice.

Jô Sampaio (Porangatu) disse...

Aguimar foi minha aluna em 1975, 76 e 77 (no magistério) em S.Miguel do Araguaia,depois
voltei a ser sua professora no curso de Letras da UEG. As vezes penso que minha vida não foi
totalmente inútil. Nem todo (a) professor (a) conseguiu o que consegui. Deixei muitas marcas.
Hoje, embora com "mais de trinta", ainda recebo muitas propostas de Instituições de Ensino de
vários lugares do Estado, inclusive de Anápolis e de Goiânia. Em Campinas-SP, também há diri-
gentes de colégios que, volta e meia ,ligam para minha filha perguntando: Quando sua mãe vai se
mudar para cá? Estamos precisando dela na nossa escola. Isso para uma professorinha de roça, ma-
tuta do cerrado, significa algo que a leva a coçar o próprio umbigo mas...vaidade das vaidade, tudo
besteira. Hoje essas coisas contam muito pouco para mim. Não preciso mais espalhar currículos.