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sábado, novembro 15, 2008

Ler é mais importante

Ler é mais importante

A julgar pelo que vejo nas revistas, nos jornais, na tevê e na Internet, nunca se falou tanto em estimular a leitura. Claro, isso é resultado de uma triste constatação: o nível de analfabetismo funcional está altíssimo e compromete gravemente a qualidade dos profissionais atuais. O que esperar, então, do futuro? A gente conhece, de sobra, pessoas que não apreendem (e, por isso, não aprendem) com a leitura; precisam ouvir. Então, lêem e relêem, mas sempre pedem que alguém leia e comente; só então começam a entender...


Dia destes, ouvi de uma estudante de pós-graduação (em literatura) uma apreciação sobre determinado professor. Ela, com boa capacidade crítica, deu-me um perfil do mestre de quem falávamos. E discorreu, também, para ilustrar sua análise, sobre um trecho da aula da véspera. Para quem não é do meio, deve ser surpreendente contar que a análise literária segue os meandros de qualquer investigação. Portanto, o estudo crítico tem os mesmos graus de detalhes e de dificuldades de uma investigação criminal.
Parênteses: será que a população brasileira, em sua expressiva maioria, sabe a razão pela qual uma operação da Polícia Federal se chamou “satiagraha”? Busque saber, caro leitor. Vai descobrir que alguém, na Polícia Federal, tem o hábito de ler.

E então, a esta altura da leitura, meu leitor entenderá que estou dando importância exagerada ao meu ofício de escriba (e não há escriba que não seja leitor; se houver, será um profissional a menos da metade do que se lhe exige). Mas é importante que o leitor entenda, junto comigo, que ao defender a leitura exerço uma mistura que considero salutar: afinal, formei-me educador, e sou também jornalista, além de poeta e contador de causos. Mas é o educador quem mais se dedica a defender o hábito da leitura. Educação é o apelido que damos às técnicas de preparar a criança para ser um adulto “do bem”, quero dizer um bom cidadão, um bom profissional – uma pessoa de boa qualidade, enfim.


Nenhum profissional que se preze será bom se não ler. Conversar e ver tevê, ir ao cinema e ouvir músicas é muito bom, é construtivo e prazeroso; mas a leitura tem algo de mais importante: é o canal que mais rapidamente nos informa e forma. Além disso, a leitura, apesar dos preços dos livros no Brasil, ainda é lazer de baixo custo. Um livro de trinta reais nos dá quantas horas de aprendizado e prazer? Muitas, muitas horas. Mas os mesmos trinta reais, num passeio, não renderão tanto.


A dúvida que o leitor levantará contra este escriba não está de todo errada. Todos nós, em nossas profissões, tentamos convencer nossa clientela de que nossos conselhos são importantíssimos, e muitas vezes deixamos parecer que são a coisa mais importante do mundo. Semana passada, não pude mais fugir: tive de solicitar uma consulta de emergência à minha dentista; ela me censurou por estar afastado do consultório há três anos. Deu-me várias orientações, reclamou que ando descuidado com a escovação etc. e tal, sugeriu-me consultar outros profissionais, especialistas. E repetiu, com insistência, a questão das escovações.

– Olha, não tenho tempo para tudo isso, não – respondi-lhe severo. Ela se espantou com a minha resistência, minha “desobediência” (médicos e dentistas não são preparados para respostas contrárias às suas recomendações).




– Mas você tem que ter tempo! Crie o tempo, se organize! – disse ela, taxativa. Eu fui enfático, também:



– Diga-me, quantos livros você leu esta semana?

A moça gaguejou. Como assim?, quis saber:

– Ora, eu acho que não li nenhum este ano.

Imaginem como fiz a festa! Peguei-a! Mas nada disse, apenas olhei com uma expressão de autoridade no olhar.

– Eu sei que ler é importante. Mas a escovação...

Interrompi-a:

– Está vendo? As pessoas andam sem tempo. Vamos combinar assim: eu vou gastar mais tempo escovando os dentes; mas você vai gastar mais tempo para ler.



A dentista sorriu e eu fiquei matutando... Como continuar lendo enquanto escovo os dentes? Mas volto à realidade e fico chateado comigo mesmo. Afinal, eu pago para levar aquela bronca e mudar de atitude. E ela? Não me pagou nada!


Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

10 comentários:

Mara Narciso disse...

Luiz, ficou parecendo que você não escova os dentes. E sei que não é assim.

O caso da literatura ficou incompleto e me gerou curiosidade sobre o final.

Os profissionais sempre acham que os seus conselhos são os nelhores do mundo e imprescindíveis para nossa sobrevivência. Muitos são meras bobagens, nesse mundo de superespecilistas. Melhor é desobedecer. Outros são mesmo indispensáveis.Mas como saber?

O conselho da leitura, mesmo a ruim, é boa. Não entendo o mundo sem ler, e das minhas 24 horas, durmo 4 ou 5 e nas outras leio.

A crônica ficou interessante e engraçada, entre a ironia e o riso. Muito boa!

Urda Alice Klueger disse...

Ahá, te peguei! Li tua crônica enquanto escovava os dentes!
Urda.

Leda Selma disse...

Li, como sempre gostei, até pela relevância do tema. É isso aí, Luiz, o "Utilidade Pública" da crônica goiana.

Iraci A. Jorge disse...

Luiz querido,

É isso aí! Gostei também (do humor) de você ter pago uma consulta para a dentista e a sua cónsulta a ela ser de graça.
Mas a esse propósito vivo dizendo à minha filha, quando ela me diz que não tem tempo de ler. Bom, pelo fato dela ser psiquiatra e atender pessoas "confusas, de guerra e de paz" eu digo a ela, que, mais do que qqualquer outra especialidade, ela tem de se inteirar do mundo. Porque é nessa loucura do dia a dia que estão vários comandos desencadeando
a loucura nossa de cada um e de cada dia.
Bjs
Iraci

Olavo J. Andrade disse...

Caro Luiz de Aquino:

Bom dia!

Só agora li a sua crônica sobre leitura. Excelente, oportuníssima, deliciosa a passagem da "dentista"! Enviá-la-ei a muitos amigos e conhecidos. Também gostei muito da fala do gr Poeta (e ser humano do qual só se ouve elogios!) Fausto Valle, de ontem (DM). Modestos parabéns a ambos e ao DM por esse alto nível! Boa sorte, sempre! Abr Olavo.

Bia Pacheco disse...

Sabe, Luíz, lendo tua crônica me dei conta que o problema da falta de leitura é anterior à escola.Com a falta de tempo (?), as crianças adormecem ao som da televisão e, não mais, ao suave embalo da voz da Mãe lhes contando histórias! Nós, que tínhamos este carinho, associamos aos livros um amor intenso! Amor e livros estão fazendo falta neste mundão de Deus!
Beijo!
Tua sempre amiga,
Bia/Neca

Maria Helena Chein disse...

Luiz, a crônica LER É MAIS IMPORTANTE mostra-nos uma realidade óbvia, porque ainda falta muiiiiiita gente para entender a necessidade da leitura. Tenho uma amiga, professora, que me disse não gostar de ler, não lê nem jornal ou revista. E professora, hem?!! Não foi à toa que lhe fiz uma correção quando disse "menas gente".
A crônica sobre a Polícia Federal tece verdades anteriores que começam agora a mudar. Tomara que isso aconteça mesmo.
Parabéns pelo seu trabalho de escrever e divulgar ilustradamente para nós, internautas.
Beijos. M. H.

Carmem Souto Maior disse...

Gostei muito da sua crônica! Que as pessoas assistam menos tv e leiam mais!
Abraço,
Carmem

Madalena Barranco disse...

Ah, Luiz, sua crônica me fez sorrir e pensar em alguma forma de criar uma prateleira ao lado do espelho do banheiro, onde pudesse descansar um livro, aproveitando o espaço para minha escova cor-de-rosa e creme dental. Adorei sua resposta à dentista, que significa respeito ao próximo e amor a leitura - rsrsrsr.

Beijos.
P.S. hoje eu deixei para comentar seu texto no espaço da Vânia.
(Como ela disse, foi postado no site/portal de Vânia Moreira Diniz:
http://www.vaniadiniz.pro.br/luiz_de_aquino/index.htm).

Anônimo disse...

gostei muito da maneira que você espos a importância da leitura, pois é nela que está a assência do conhecimento