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sábado, novembro 08, 2008

Onde falta o instinto

Onde falta o instinto


O homem é, talvez, o único animal que, por dedicar-se integralmente à sua capacidade racional, se distanciou da segurança que os instintos proporcionam às demais espécies animais. Tudo o que nos põe em risco, desprezando-se as relações da cadeia alimentar, decorre da nossa condição racional, ou seja, do desprezo que damos aos cuidados intuitivos e ao arrojo que nos é próprio.
Nunca ouvi falar em choque de aves em vôo, mas muitos foram os encontros de aviões (em vôo ou mesmo no solo). Animais não se atropelam, respeitam-se entre si e não há matança por razões de patrimônio (essa coisa maluca a que chamamos de guerra). Nenhuma espécie dentre os irracionais carece de códigos – apenas dos de defesa própria, quando se é caça, ou de tática de ataque, enquanto se é caçador.










Mas os humanos, não; os humanos – nós, os tais de “sapiens” – estes somos tão metódicos que nos damos ao luxo de escravizar outras espécies, num processo chamado de “criatório”, para assegurar-nos o alimento. E como temos consciência de futuro (relativamente, eu sei), usamos esse processo de criação, produção, industrialização, distribuição e outros “ãos” para a formação de patrimônio.
A vida humana é, pois, cada vez mais complexa. O homem atual não se alimenta de praticamente nada “in natura”, pois desde a água até os mais sofisticados alimentos, tudo passa por processos e métodos científicos e técnicos. E tudo custa muito, seja em dinheiro, seja em aprendizado e em desgastes pessoais.

Um jovem de vinte anos não consegue entender como nós, os que para eles somos “mais velhos”, vivíamos sem telefone celular (mal sabem eles que nós próprios, seus pais e avós, não tínhamos sequer telefone fixo para comunicação local e que falar com outra cidade era “fazer um interurbano”). Eles não conseguem imaginar que, quando tínhamos a sua idade, o carro era artigo de luxo. Aliás, a geladeira doméstica também era luxo.
E trânsito? Na minha bucólica Caldas Novas, os carros não eram mais que umas poucas dezenas. Lembro-me bem que as placas de automóveis, antes de se adotarem letras na combinação, eram em três parcelas, e as placas de Caldas Novas, até mais ou menos 1972, eram 1-75-00 até 1-75-99. Nunca se chegou a esses previstos cem veículos, nas zonas urbana e rural. Vale lembrar que, naquela época, motocicleta era raridade; se alguma havia por lá, seria apenas uma. Ou o dobro disso.
Em poucas décadas (pouquíssimas), o Brasil do sertão foi descoberto. Sim: Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil do litoral; Juscelino Kubitschek descobriu o Brasil do sertão. Com isso, incrementaram-se as estradas e as indústrias; renegou-se o trem em favor do caminhão; os ônibus e os carros de passeio multiplicaram-se nas cidades e nas rodovias. Jamais, na minha juventude, imaginávamos que Caldas Novas teria linhas regulares de ônibus urbanos, por exemplo.
O sertão cresceu, apareceu uma tal de qualidade de vida, as cidades todas ganharam asfalto, boa parte delas foi agraciada com água tratada, algumas com esgotos, os carros-de-boi deram lugar às caminhonetes, os cavalos e jegues foram substituídos pelas bicicletas e, em seguida, pelas motos. Mas aí surgiram também os acidentes de trânsito, os aleijumes (consta que mais de 60% dos deficientes físicos são vítimas de trânsito) e as mortes, todas elas precoces, obviamente.
As mortes e as seqüelas de trânsito formam números magistrais. Isso é estatística. Mas só é estatística enquanto envolve pessoas desconhecidas. Quando as vítimas, sejam elas mortas ou sobreviventes, são da nossa família, deixam de ser estatística: viram tragédia.
Muito há por se fazer no sentido de se resgatar esse quadro de gigantismo estatístico ou de tragédia humana. E tudo, no consenso dos estudiosos, dos técnicos e dos curiosos (feito eu), passa pela educação (ou reeducação) de trânsito. “Se você mudar, o trânsito muda”, diz o slogan do DETRAN de Goiás. E só muda com práticas racionais de educação. Ou reeducação. Isto se pode fazer individualmente, com uma tomada de consciência (pois as leis existem, são acessíveis e precisam apenas de ser cumpridas), ou politicamente, com ações decididas dos órgãos e autoridades ligadas ao sistema, desde os gestores e controladores do trânsito até as escolas e os hospitais, destino indiscutível das vítimas.
Tudo isso por conta da nossa condição de animais racionais. Não fôssemos tão racionais, nosso instinto de sobrevivência dar-nos-ia a segurança que nos falta.


Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

3 comentários:

Mara Narciso disse...

Ouvi certa vez que estatística é assim: seu vizinho tem dois carros, e você não tem nenhum carro. Então, estatisticamente, voce tem um carro. O mesmo pode-se dizer da frieza dos números acerca dos desastres, ocorrência comum em todas as partes, inclusive a zona rural.

A frase, capturada dessa leitura diz tudo: "Quando as vítimas, sejam elas mortas ou sobreviventes, são da nossa família, deixam de ser estatística: viram tragédia".

Desmontam coisas e pessoas. É uma desgraça que não se acaba.

Mara Narciso

Malena disse...

Aqui no Recreio acontece uma coisa gozada: quanto mais "atrasada" a via, quanto menos acidentes letais. Quanto mais moderna, mais cadáveres.

O problema é o paradoxo usuário-avenida: ela pode ser moderna, mas ele ainda está no tempo das cavernas...

Divanir disse...

Para ser um bom leitor não basta ler corretamente, tem que ler o que esta escrito sobre as entrelinhas e também entepretar o que cada palavra nos leva refletir, e ler o que você escreve e tão maravilhoso que não precisa destes atributos, pois somente suas palavras fazem suas próprias intepretação. Parabéns.