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sexta-feira, novembro 07, 2008

O predador do amor

O predador do amor

Não há, ainda – mas não duvido que surja logo, logo – algo da chamada tecnologia capaz de pesquisar e medir as palavras mais usadas quando não estamos nos comunicando no “estrito cumprimento do dever”. Não estranhem as aspas, é que no estrito cumprimento do dever, em qualquer das profissões, manipulamos jargões e frases feitas tal um pedreiro com sua trolha, um mecânico com as chaves ou um militar de Pinochet com suas armas na abnegada missão de eliminar adversários – coisas que, disseram em algum momento do passado, especialistas brasileiros ensinaram aos “irmãos de fardas” do país irmão, depois que os “nossos” aprenderam com rambos de outro país, o dos “irmãos do norte”.
Fora do espaço e do palavreado profissional, nossa língua portuguesa é outra. A língua, pois, é feita e dita como ditam o momento e as emoções. No bate-papo descontraído num percurso de automóvel ou de ônibus, nos restaurantes, em família ou à porta da igreja antes dos ofícios religiosos, à beira das piscinas ou em torno do tanque, falamos do que sentimos, do que nos aflige e do que nos encanta. Já notei que, principalmente entre jovens, a palavra que as mulheres mais dizem é “ele”.
Mulheres e homens falam de roupa, de preços, de futebol, do sexo oposto, da vida alheia, da novela global, de filhos, de programa mundo-cão na tevê, de política, de economia e, inevitavelmente, de amor. Difícil é ouvir de alguém uma boa definição de amor. Amor ao próximo, amor aos pais, amor aos filhos, amor ao amigo, amor, amor, amor... Paixão!
Sim, o amor de que mais se fala não é amor, é paixão. O amor pela via do sexo, o amor de conquistas e traições. Sim, porque amor entre amigos, amor ao desconhecido, amor entre familiares e colegas – estas são as formas de amor sem sentimento de propriedade. O amor com tesão, este é possessivo, egoísta, dominador e jamais acontece sem o ingrediente da mentira. Mente-se para se fingir bonito, bom, tolerante, parceiro, carinhoso, leal. A intimidade poderá mostrar a face oculta que, nos tempos de conquista, adormecia. Feito político em campanha.
Dias atrás, num carro parado à porta do meu prédio, a mulher ao volante chorava. O homem no banco do lado olhava para o céu, como se nada houvesse. Pensei nos dias de conquista: presença, presentes, flores, passeios, carícias, viagens, hormônios a mil! Alguém me disse, no tempo da minha adolescência, que o amor (paixão) era como chiclete: gostoso apenas enquanto durava o sabor de açúcar; depois, era mastigar a goma insossa. É verdade: nada como o casamento para pôr fim à paixão. O casamento é o predador natural do amor. Uma poeta daqui da terrinha costuma dizer que as mulheres têm no casamento um sonho, mas o sonho só vai até a subida do altar: “Ao descer, começou o pesadelo”.

5 comentários:

Fátima Paraguassú disse...

Talvez não seja aquela paixão dos primeiros anos de casamento.Eu não tive primeiro, nem segundo tempo, já entrei marcando gol.O que mantém um casamento, acho que é a cumplicidade, o companheirismo, a amizade.Amor? o que é amar? não sei. Sei que é bom estar com a familia, com amigos. Até sozinha eu consigo amar.Às vezes amo a solidão, o silêncio; ou amo o burburinho de galinhas e pássaros nomeu quintal. Acho que eu amo...Será?

Mara Narciso disse...

Tentamos, mas nem sempre conseguimos chegar perto de uma boa explicação sobre o que é e como é o amor/ paixão.

Já me apaixonei severamente por três vezes. No momento estou muito apaixonada, e na verdade ainda não sei dizer o que é paixão.

Li várias vezes a frase : "A intimidade poderá mostrar a face oculta que, nos tempos de conquista, adormecia. Feito político em campanha."

Excelente, e real! Por mais que sejamos fieis e sinceros, alguma atitude política haveremos de executar, para encantarmos o outro ou fazermos durar uma paixão. Boa demais!

Cida Freitas disse...

Eita! Gostei do texto, concordo, inclusive, mas será que sua esposa não vai ficar triste? ehhehehehehehehehe

Beijo


Cida Freitas

gracas pinto disse...

Ah poeta, porque será que o amor um sentimento tão sublime tende a fazer as pessoa sofrerem! As vezes me ponho a pensar será o amor que faz sofrer ou as pessoas que usam de má fé o nome do amor para dar vazão a instintos mau trabalhados, ora baseado naquele que deu sua vida por amor, precisamos olhar melhor o sentido do amor.
lINDA E REFLEXIVA A CRÕNICA " o PREDADOR DO AMOR""
Parabpens

Marluzis disse...

Sim, o casamento pode ser o predador da paixão, que sabemos, tem data para terminar. Mas é uma troca compensadora, que nos traz equilíbrio. E compartilhar com o(a) companheiro(a) amizade, carinho, desejo, cuidados, intimidade, sem nos esquecermos do respeito mútuo, ah, é sublime. E se a felicidade está presente, acho que é amor. Cabe cada um saber o que realmente quer. Se for somente paixão, então não case, não é mesmo?
Seu texto nos leva a repensar muita coisa.