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quinta-feira, dezembro 24, 2009

LEDA SELMA, em crônica e poema

A CRÔNICA:





Um sol encantado de 89 pétalas



Lêda Selma


Quando a tristeza é tanta, as palavras empobrecem, e, impotentes, não exprimem nossos sentimentos. Quando a tristeza é muita, o silêncio pede passagem e alia-se à nossa solidão.

Há perdas que deixam rastos eternos. A de um filho, a maior. A de uma mãe, inavaliável. Agora, conheço as duas.

A professora Lousinha Carvalho, baiana de Urandi, desde muito cedo já se mostrava vanguardista na arte de ensinar. E, lá para as bandas do sertão baiano, a única “filha mulher” de um dos mais abastados fazendeiros da região, inicia, a cavalo, sua saga de educadora.

Limiar da década de 50 e, ainda com jeito de recém-nascida, a primavera goianiense saúda aquela família: uma brava mulher, acompanhada do marido pernambucano, de uma adiantada gravidez e de duas filhas pequenas. Junto à bagagem, trouxa robusta de sonhos. E, tão logo aporta em Goiânia, a jovem professora (título que sempre ostentou com desmedida honra e alegria), retoma o exercício do magistério, alfabetizando e formando milhares de crianças, muitas, hoje, nomes de destaque no meio cultural e político de Goiás (mereci o privilégio de tê-la por alfabetizadora). Pela importante atuação, recebeu os prêmios “Professora do Ano” e “Diretora do Ano”. Mais tarde, implantado o polêmico Movimento Brasileiro de Alfabetização/MOBRAL, a professora Lousinha assume, em Goiânia, a coordenadoria municipal do programa e dá-lhe peculiares feições; sua gestão dinâmica ganha notoriedade nacional, como referência de trabalho competente e inovador.

A Camara Municipal e Assembleia Legislativa outorgaram-lhe, respectivamente, os títulos de “Cidadã Goianiense” e “Cidadã Goiana”, forma de oficializar sua goianidade. Mesmo orgulhosa, não permitiu que sua baianidade fosse lanhada.

Uma vitoriosa, minha mãe! Mulher guerreira, de fibra, de coração em permanente estado de amor. Não se subjugava às adversidades ou desafios. Católica fervorosa, resignou-se quando perdeu o filho, à véspera do Natal, de forma trágica, e, pouco depois, dois netos jovens. Nem tanto sofrimento fê-la deixar o leme; respeitava os desígnios divinos, e enfrentava tudo com dignidade, galhardia, sustentada pela fé que a guiava. Uma bênção que Deus concedeu a seus quatro filhos, em forma de luz (tudo em que tocava reluzia), nossa mãe, que continuará acendendo sonhos, abençoando-nos e velando a família.

Devota de Nossa Senhora de Fátima e de Santa Mônica, dedicava seu tempo às orações, às idas à igreja e à prática da caridade. A cada dia 13, distribuía pães aos “pobres de Santo Antônio”, como dizia. Um ser muito especial.

89 anos bem vividos, bem sofridos e bem vencidos, sempre com a dignidade dos fortes. E assim como a primavera a recebeu, também a entregou ao Pai, no último dia 17:após muito resistir (desta vez, a ordem era Superior e inquestionável...), adormeceu placidamente e, em silêncio, acordou sob o olhar festivo de Deus, que a queria perto para festejarem o Natal. Que ursada com a gente, hem, Pai?! Francamente!

Os médicos João Rosa do Espírito Santo e José Ferreira de Mendonça bem que tentaram convencer o Todo-Poderoso a deixá-la mais um tempo entre nós (obrigada, doutores, pela intercessão!). Em vão. Já padre César Garcia e padre Alcides entenderam de pronto a posição do Criador e prepararam-na para o celestial encontro. Momentos dolorosos, porém, confortantes, como outros de tamanho valor espiritual celebrados pelos padres agostinianos, Luís Carlos e César Martinez, este último, detentor de seu especial carinho. E que comovente: lá na capital paulista, missa em sua intenção, co-celebrada pelos também agostinianos, entre eles, o provincial, padre José Florêncio, afeto grande de minha mãe.

Tristeza e saudade fundiram-se e fundiram-me. Só o tempo para desatrelá-las e libertar-me. Mas, como digo no poema, Mãe não morre,/ apenas, repousa no sonho/ e acorda beija-flor. Sua bênção, pede-lhe seus filhos, mãe, e lhes mandam um beijo de amor.




E O POEMA:



Mãe não morre...



Mãe não morre, diviniza-se.


Transmuta-se em estrela


e se faz sol na escuridão.


Mãe não morre, poetifica-se.


E, no vai-e-vem das lembranças,


se torna saudade e silencia o vazio.


Mãe não morre, apenas,


repousa no sonho


e acorda beija-flor.




Lêda Selma





Nota minha:



Ontem, 23 de dezembro, celebrou-se a Missa de Sétimo Dia pelo passamento de Dona Lousinha. Em sua modéstia, Lêda Selma não conta que ela é, para uma infindável legião de alunos e de amigos, um símbolo do ofício de ensino, ofício que sonhei para mim e exerci, formalmente, por pouco tempo. Ofício que norteou também a vida profissional da filha poetisa e minha amigairmã Lêda (note, Dona Lousinha, que agora, e em sua homenagem, pus o simpático chapeuzinho circunflexo e circunspecto no nome dela).

Não lhe direi "Descanse em paz" porque sei que não haverá descanso. Daí, dessa tal de "mansão dos bem-aventurados", a Sra. estará ajudando a todos os ensinantes das boas causas na Terra.

Deixo-lhe o meu beijo.


L.deA.

7 comentários:

Maria Luiza de Carvalho disse...

Por que te chamar de beija flor? “ Porque o beija flor é uma das aves mais lindas que existe na fauna brasileira. O Beija-Flor é belo quanto à forma e mais esplendido quanto a sua cor. Este pequeno pássaro foi dotado de leveza, ligeireza, agilidade, graça e rica penugem colorida. Permanecendo de flor em flor, e através de delicados beijos retira o néctar que o alimenta.” ¨Com vôo febril o Beija-Flor é tão rápido que aparece e desaparece num instante sem se saber de onde veio e para onde foi, parece acompanhar o sol, avançando e retirando-se no seu ágil bailado embalado pelo vento”. Ele brilha como se fosse um fragmento do arco-íris. Com certeza sua mãe é este beija flor que deixou seu doce em tantas outras pessoas.
Sabemos que amar os próprios filhos não é uma tarefa tão difícil. Entretanto ter uma mãe que sempre ofereceu seu amor a uma causa é motivo de orgulho e reconhecimento. Minha querida escritora fique com a lembrança viva de sua mãe dentro do seu coração;ou seja na caverna da saudade. Beijos Maria Luiza

Jane Botti disse...

Uma crônica e um poema onde a dor se mistura à silêncio do amor....uma maravilha! Obrigada Luiz, pelo belo presente de Natal.
Feliz Natal a ti e aos teus amados!

Mara Narciso disse...

Viver é perder um pouco a cada dia. Ganhamos experiências para que nos ajude a aguentar as perdas dos entes queridos.

Maria Helena Chein disse...

Lu, obrigada por me enviar a crônica de Lêda Selma, que aliás
me mandou, só que não chegou. Sabe que ultimamente tudo o
que ela me envia pelo hotmaill não chega? Chegam os postados
no gmail, que quase não abro.
Bela a sua crônica de Natal. Natal é também esse toque colorido
de saudade.

Boas festas! Beijos.
Maria Helena

Leda Selma de Alencar disse...

Luiz, obrigada por tudo! Mamãe, estou certa, estará contente com todo esse seu carinho de sempre.
E a mãe da Mary Anne? Estou rezando por ela. Dê-me suas notícias sempre.
Pois é, Luiz, deixei aqui a "lembrancinha" para você guardar como um pouquinho de mamãe, que tanto lhe queria bem. Na próxima semana, providenciarei a entrega. Beijão. Lêda

Mariana Galizi disse...

Luiz, não conheci Dona Lousinha, não conheço a bela poeta Leda, mas me simpatizo com suas dores.
Forte mulher ela era, e ainda será em algum lugar misterioso para nós, mas que sem dúvida a receberá com honras.
Abraços, sempre.

Lêda Selma disse...

Luiz, fiquei comovida com o carinho dos seus amigos bloguianos. Tudo isso é energia positiva direcionada a mim e a minha mãe. Que Deus os abençoe. Beijão em todos. Lêda