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domingo, dezembro 20, 2009

Luiz de Aquino


Era... Era o Natal!




Era o tempo que a gente chama, hoje, de “anos de chumbo”, pois até mesmo o fato de se reunir na esquina parecia suspeito e havia sempre um sujeito mal-encarado a ostentar um enorme revólver na cintura e dar uma ordem invasiva, desagradável, draconiana: “Dispersar! Circulando, circulando!”, e a gente dispersava e circulava, que ninguém queria ser preso, muito menos ser preso à toa.

Eram os meus anos vinte e tantos, aquela fase entre 1965 e 75, tempo de se estudar, trabalhar muito, ver nascerem os filhos, contar o dinheirinho de todos os dias (quando havia) e esticar o orçamento por trinta dias, dos quais pelo menos vinte eram de corda bamba. Moços magros e esperançosos, éramos os bancários da minha época e da minha roda de colegas, coisa que sempre confundi com amigos.

Era o Natal. Goiânia era uma cidade alegre. Dominada por um espírito de burguesia rural nativa e adventícia dos sertões de Goiás, e, ao mesmo tempo, pela outra burguesia, a urbana, vinda de rincões menos periféricos que o nosso, como São Paulo e Minas Gerais. E era o Natal.

Era o comércio a ornamentar-se e, assim, engalanar as ruas. À prefeitura, somente a partir da década de 1980 coube a tarefa de ostentar novas luzes pelas avenidas e praças. Mas era pelo Natal daqueles anos em torno de 1970 que eu gostava de ser mais feliz. Havia o salário em dia – que os bancos pagam mal, mas fazem-no rigorosamente em dia. Em dezembro, havia a antecipação dos créditos, com o salário do mês e o 13º salário creditados. Em janeiro, em plena ressaca financeira dos gastos natalinos, recebíamos a gratificação do semestre – um salário extra que bem supria os gastos desgastantes de todo janeiro.

Éramos, sim, mais felizes. Havia o temor do arbítrio, as notícias dos amigos presos ou

desaparecidos e a eterna ameaça de maus chefes a incluírem nomes no índex do DOPS. Por ser Natal, lavávamos nossas almas com as esperanças apregoadas. Se não éramos de igrejas, havia as famílias, e renovávamos sonhos porque era final de ano. “Ano que vem, tudo melhora”.


Era a mim que cabia redigir mensagens de otimismo. Afinal, era Natal. E a mim

também atribuíam escrever sobre a Esperança, a Fé e a Caridade, irmãs espirituais que recheiam os corações em tempos de festas no solstício

do Verão. É possível que, naquele tempo, eu tenha plantado esperanças e boas festas nos corações dos leitores de tantas mensagens, mas sei que gostava de fazer aquilo, de escrever votos e desejos de paz, de ventura e harmonia.


Era, era... Era eu e a Primavera, em suas últimas semanas, prenúncio do Verão que nascia sob luzes noturnas de cores, faíscas de amor ao próximo, alegrias de presentear e de receber. Pode ser que, para mim, aquela tenha sido uma era de simplicidade feliz e festiva, sim, mas não eram os vinhos e as rabanadas, os cordões verdes com ocorrências de vermelho e dourado, o Papai Noel a torcer pelo Vila Nova que me davam a certeza dos dias melhores no porvir, um breve porvir.


Era o meu próprio coração em festa. Este, sim, o meu, era o coração mais feliz. Afinal, era dele que emanavam meus recados aos colegas de trabalho, os textos formais para se publicar em jornal ao modo comum de, ao fim, deixar claro que “o BEG lhe deseja Feliz Natal e Próspero Ano-Novo”.

Era, sim. Agora, sinto falta daquela energia. Sei que o Natal mudou. Ou não? Vai ver, mudou apenas em mim.


Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

8 comentários:

Wanda disse...

Enquanto leio a sua crônica escuto música e, nesse momento, Elvis Presley canta cantigas natalinas.
Não foi de propósito, mas que está sendo ótimo está.
“Anos de chumbo” - Lembro-me agora de um lance estranho que aconteceu comigo e dois amigos nos anos 70 e qualquer coisa. Estávamos cantando uma musiquinha besta, que falava do Brasil. Tudo bem, falava mal do Brasil, mas nada de tão grave. Então surgiram dois policiais e nós, jovens e corajosos, continuamos cantando. Os dois ficaram ouvindo, de olho na gente. De repente um deles falou assim: “É... isso é bom dois calados e um escutando” (eu estou sendo legal colocando o plural em calado, ele não falou assim). E mandou a gente ir embora, um pra cada lado. Claro que fomos bem depressa.
Luiz, poeta querido desse nosso Goiás, quanta verdade existe em você! Escreve o que sente, o que está dentro da alma, sem medo. Gosto disso meu amigo. E quando alguém fala bobagem perto de você, alguém que você nem conhece? Imediatamente esse alguém leva uma rasteira sua e aí eu tenho que me segurar pra não rir. Lembra daquele dia em que a moça na loja estava com um cachorrinho e cometeu o desatino de falar que cachorro é melhor do que criança? Pois é. Dançou. Sem música.
E vou aprendendo e muito. Claro que quando falo uma besteira também levo... risos... mas isso é bom pra eu ficar esperta. E a relação entre amigos precisa ser assim, cheia de verdade.
Mas essa época de Natal mexe um pouco comigo também. Então, durante o mês de dezembro, não penso muito nisso. Como o dia 24 chega mesmo, não tem jeito de fugir, recebo os filhos e noras, faço festa, fico alegre e acabo com ele... risos... Logo dá meia-noite, dia 25 chega e pronto, acabou. Dia 31 pra mim é uma grande bobagem, um dia como qualquer outro.
E o novo ano começa. O salário ainda cai pontualmente na conta corrente, mas dinheiro de aposentado sabemos bem como é. Como dizia o personagem do Chico Anísio: “mas o salário, ó!”
E encerro esse comentário ,que mais está parecendo um testamento, com um trecho da música “Fotografia”. Beijos!

“O que vai ficar na fotografia são os laços invisíveis que havia.
As cores, figuras, motivos.
O sol passando sobre os amigos.
Histórias, bebidas, sorrisos.
E quando o dia não passar de um retrato, colorindo de saudade o meu quarto,
Só aí vou ter certeza, de fato, que eu fui feliz”
(Trecho da música “Fotografia” de Leoni/Leo Jaime)

Mara Narciso disse...

Parece que mudamos nós e os natais. No meu caso perdi a alegria, e de outros tempos ainda mais remotos, perdi a fantasia de poder recuperar, se não a fé, pelo menos a esperança.

célia musilli disse...

Vim te desjar um 2010 iluminado!! Um beijo!

Paulo Ruben disse...

Caro Luiz
O Natal pode ter mudado, mas os nosssos corações continuam e festa e voc~^e continua nos alegrando c/ as suas crônicas.
Feliz Natal e um 2010 c/ muita alegria, paz, amizade fraternidade, amor, sucesso, saúde e muita arte. Abraços,
Paulo Rubem Velente

Ivana Hermano disse...

Oi Luiz, acabei de ler sua crônica. Gostei muito e quero reiterar, que é preciso mesmo esta renovação anual do Natal.É muito bom!! São lindas mensagens, uma troca de enrgias fabulosas, um renascimento pleno de saúde, alegrias, harmonia, simplicidade, gentileza, muito amor e luz.
"FELIZ NATAL!!" Um grande abraço. Ivana.

Luiz de Aquino disse...

Wanda, Mara, Célia, Paulo Rubem e Ivana!

Imaginam o quanto me fazem feliz? Adoro saber que há pessoas que gastam tempo lendo meus pobres escritos, e mais ainda quando os meus leitores são de tão elevada qualidade!
Muito obrigado, gente! Feliz Natal a todos vocês!

Wellitânia Cabral disse...

"Era...Era o Natal" uma crônica bastante saudosista, imbuída do espírito que nos embala nesta época... o Espírito Natalino. Era... É e sempre Será Natal, enquanto existirem as lembranças. Uma bela crônica!

Edivaldo Andrade disse...

mostrar detalhes 10:53 (1 hora atrás)
Amigo Luiz Aquino,
Li toda a sua materia de hoje.
Gostei bastante, em toda sua extensão.
Quanto da lembrança do BEG, só faltou mencionar, "eramos felizes e não sabiamos".
Boas Festas e que DEUS, conceda a D.Hayde, o melhor caminho a ela destinado!
Edivaldo Andrade