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sábado, agosto 02, 2008

Ainda existe coronelismo... Agora é urbano!

Manda quem tem valete

Lá pelos idos de 1968, quando o Brasil vivia o segundo dos plantonistas da ditadura militar, aprendi, na Universidade Católica de Goiás, que “autoridade é conhecimento”. Lindo, isso, hem? Muito a propósito de se aprender numa Faculdade de Filosofia, escola que, antes da malfadada reforma de 1971, formava professor para o Ensino Secundário. Vale lembrar que Ensino Secundário englobava o Ginasial e o Colegial (as quatro séries da segunda fase do Fundamental de hoje e o Ensino Médio atual).

Imagine, leitor, a confusão na cabeça de calouros universitários naqueles meses agitados de 1968. O ano letivo começou com a morte, por militares da Aeronáutica (ou da PM carioca; as fardas eram muito parecidas), do estudante Edson Luiz; em dezembro, o comando militar do País editaria o AI-5, o famigerado Ato Institucional que cerceou de vez as liberdades e impôs o toque da humilhação sobre todo o povo. Em sua sombra viria a censura à imprensa, a infiltração de pessoas nas salas de aula e nos ambientes de trabalho para a missão “superior” de delatar quem se manifestasse contrário ao “regime”.

Em pouco tempo, uma frase costumeira caiu em desuso: “Você sabe com quem está falando?”. Sim: detentores de uma “autoridade” transitória, como ocupantes de cargos eletivos de deputado e vereador, bem como chefes temporários em repartições públicas, usuários contumazes do “slogan” perceberam que não mandavam nada. A ordem, então, vinha em escalas crescentes; começava nas três divisas dos sargentos neófitos e aumentava de arrogância à medida que eram mais os “macarrões” nos braços; subiam aos ombros e cresciam de poder conforme se aumentavam as estrelas. Estrelas douradas de coronéis refletiam o supra-sumo do mandonismo totalitário, mas tudo era atribuído aos generais. E só generais da mais alta dignidade chegavam ao Palácio do Planalto.

Interessante como a palavra coronel, tão corriqueira nos sertões do Centro-Oeste e do Nordeste, perdeu sua ambigüidade. Os grandes fazendeiros donos de canaviais e de gado não discutiram a honraria: abriram mão da “nomeada” e deixaram aos milicos o título das estrelas gemadas. Mas não perderam a pose. Nem a suposta autoridade.

Na minha minúscula Caldas Novas surgiu pouco tempo após a instalação poder dos militares, uma empresa de porte. Desde seu surgimento, o dinheiro começou a correr fácil, engordando as contas bancárias. Em poucos anos, eram seus donos os principais empregadores em todo o sul de Goiás. E dinheiro, para os que não alisaram bancos nas faculdades de filosofia, dá autoridade, sim. Um dia, ouvi de um dos donos da portentosa empresa: “O prefeito vai ser o Fulano; tenho oitocentos empregados, são oitocentos votos que eu determino”. Foi então que o entusiasmado e ideológico estudante contestou: “Não, senhor! Você não é dono das vontades deles”, argumentei. Mas o homem não se dava por vencido: “Se dou emprego, digo em quem votar”.

Continuei contestando e nossa briga verbal adentrou madrugada. A certo momento, percebendo que o uísque já engrossava a voz do homem, perguntei se ele era senhor de escravos; ele não se abalou e me respondeu que a diferença era mínima: “Se não fosse a minha empresa, essa gente estava passando fome; e se hoje eles têm o que comer, têm de comer na minha mão”.

Muita água se passou na cabeça daquele homem antes que se desencarnasse; e ele se foi com a consciência de que era, mesmo, um coronel de envelope, ou seja, desses que não têm a patente, mas tem a palavra como vocativo. Também muita água termal desapareceu do lençol freático de Caldas Novas desde então, mas as mentalidades, lá como aqui, como no litoral ou na Amazônia, nas várzeas desmatadas de Mato Grosso ou na escarpas das serras sulinas e em todo o Nordeste, agreste ou não, o coronelismo perdura. O sujeito pode até não dizer “Você sabe com quem está falando?”, mas sente-se cheio de autoridade para mandar, ou impor arrogância.

Pode mandar, coronel! Há aí esses que já comeram em sua mão e hoje a beijam com a mesma subserviência. Só não espere de todos essa postura; alguns trocam o alpiste fácil de sua palma pelos frutos doces das grimpas.

Sou destes, viu?

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5 comentários:

Deolinda disse...

Caro poeta,
Já tem certo tempo que não comento as suas crônicas, em parte por que o tempo voa, em parte por que, ciente da existência dos coronéis urbanos da cultura, resolvi dar tempo ao tempo.
E, pois não é que o alpiste não está dando para todos? E de quebra, rei morto rei posto, é um ditado perigoso, pois o rei contemporâneo, não é um mero gato escaldado, mas um asno de fatiota.
Conclusão, o buraco é muito mais fundo e embaixo do que se podia esperar. Mas, do fundo do poço ainda brilha uma pequena luz, será o brilho das algemas?
Quem sabe?

Mara Narciso disse...

Depois da vida, a saúde é o maior bem, mas em terceiro lugar vem a liberdade de pensamento e ação. Apenas os que não viveram sob grilhões, não sabem o valor de ser livre.

Parece normal, depois de 26 anos, escolher os governantes, mas até anti-ontem éramos tidos como incapazes,e éramos comandados por quem fosse imposto.

O maior valor da internet, além da informação, é a liberdade de expressão: essa não tem preço.

Gosto de desabafos, e o seu foi ótimo Luiz!

Celia Fernanda disse...

Olá, Luiz!
Você, realmente, possui o dom da palavra fácil, espontânea, cativante... Já lhe disse algo semelhante, antes. Você é um escritor nato! Li, agora, suas duas últimas crônicas e gostei, mais uma vez, imensamente. São sempre atuais, pois o passado se mantém num presente constante e, infelizmente, acredito, se manterá num futuro tão próximo. E, para mim, 1968 continua presente em minha vida.
Beijo!

gracas pinto disse...

Olá poeta, a crônica de hoje, 03.08.08 está maravilhosa. O ideal seria que muitos jovens pudessem ler, já que nas aulas de história da atualidade, quase não se fala de AI5, mas bom mesmo é saber naquela época os estudantes, aprendiam a pensar, o que está em falta nos dias atuais.

Madalena Barranco disse...

Olá Luiz,

Os "coronéis" ainda insistem em existir... E as pessoas ainda não aprenderam a dizer "não" com sabedoria. Adorei sua crônica.

Beijos.